NOTA · HISTÓRIA, CONTINGÊNCIA E MÉTODO
O passado não aconteceu para chegar até nós
Contra a leitura retrospectiva da História e a ilusão de necessidade no tempo humano
Há uma violência intelectual discreta, frequentemente praticada justamente por aqueles que pretendem compreender a História, que consiste em olhar para aquilo que aconteceu como se aquilo que aconteceu tivesse necessariamente de acontecer. A sucessão temporal, quando observada retrospectivamente, cria uma aparência enganosa de ordem: o acontecimento anterior parece preparar o posterior, as crises parecem anunciar as rupturas que delas decorreram, as instituições derrotadas passam a parecer condenadas desde o início, os vencedores adquirem retrospectivamente a fisionomia daqueles que carregavam consigo o futuro, e aquilo que, enquanto acontecia, estava cercado por incerteza, contingência, hesitação, alternativas concorrentes e possibilidades frustradas transforma-se, depois de consumado, em uma sequência aparentemente inteligível de causas e efeitos. A História, entretanto, não foi vivida retrospectivamente. Luís XVI não acordava todas as manhãs sabendo que terminaria na guilhotina; os romanos que atravessaram as últimas décadas da República não possuíam diante dos olhos um manual que lhes anunciasse o Principado de Augusto; os homens que assistiram à ascensão de Hitler não conheciam previamente Auschwitz, Stalingrado ou a destruição do Reich; os constituintes de diferentes épocas não sabiam quais dispositivos sobreviveriam, quais seriam esvaziados, quais adquiririam significados que jamais lhes haviam ocorrido e quais instituições seriam destruídas por acontecimentos que ainda não possuíam nome. O passado não aconteceu para produzir o presente, assim como o presente não acontece para produzir um futuro que já exista em algum lugar aguardando sua realização. Entre aquilo que foi e aquilo que veio a ser existe um campo de possibilidades que desaparece aos olhos de quem conhece o resultado, e reconstruir esse campo talvez seja uma das tarefas mais difíceis de qualquer investigação histórica intelectualmente séria.
O problema começa na epistemologia porque a posição do observador posterior é radicalmente diferente da posição do agente histórico. Quem estuda a Revolução Francesa conhece Napoleão; quem estava em Paris em 1789, não. Quem estuda a República de Weimar conhece 1933; quem votava, conspirava, escrevia, negociava ou simplesmente sobrevivia na Alemanha de 1928, não. Essa assimetria parece banal, mas suas consequências metodológicas são imensas. O pesquisador possui informações que os atores não possuíam, conhece consequências que eles não poderiam conhecer, enxerga simultaneamente documentos produzidos por adversários que jamais tiveram acesso aos documentos uns dos outros e consegue organizar numa única narrativa acontecimentos que, quando ocorreram, estavam dispersos entre lugares, instituições, indivíduos e temporalidades diferentes. O conhecimento posterior, portanto, é ao mesmo tempo uma vantagem e um perigo. É uma vantagem porque permite reconstruir conexões invisíveis aos contemporâneos; é um perigo porque permite projetar essas conexões de volta sobre eles, atribuindo-lhes consciência, propósitos e expectativas que somente se tornaram possíveis depois. Marc Bloch percebeu com extraordinária precisão que a obsessão pelas origens frequentemente produz falsas explicações, porque saber de onde algo veio não equivale a saber por que ele assumiu determinada forma, permaneceu, desapareceu ou se transformou. Reinhart Koselleck, por outro caminho, mostrou como experiência e expectativa estruturam temporalmente a consciência histórica: os homens agem dentro de um horizonte do possível, não dentro do inventário retrospectivo das consequências que o historiador possui. A diferença não é acessória. Ela constitui uma das fronteiras entre compreender o passado e domesticá-lo.
Essa questão epistemológica rapidamente se transforma em questão ontológica. O que significa afirmar que determinada transformação histórica era necessária? Necessária em que sentido? Necessidade lógica, causal, estrutural, econômica, metafísica, sociológica ou simplesmente retrospectiva? Uma proposição lógica não poderia ser diferente sem contradição; um acontecimento histórico, ao contrário, frequentemente poderia ter encontrado outros desenvolvimentos sem que o universo deixasse de ser inteligível. Entre a necessidade formal e a causalidade histórica existe uma distância que não pode ser apagada por palavras grandiosas como destino, espírito, progresso, decadência ou inevitabilidade. Aristóteles, ao distinguir o necessário, o possível e o contingente, forneceu uma gramática cuja importância ultrapassa a metafísica antiga: aquilo que ocorreu deixa, por ter ocorrido, de ser uma possibilidade entre outras e passa a constituir um fato, mas a transformação de uma possibilidade realizada em fato consumado não retroage sobre o passado para converter sua realização em necessidade. A batalha vencida poderia ter sido perdida; a revolução vitoriosa poderia ter fracassado; a instituição que desapareceu poderia ter sobrevivido; a constituição que permaneceu poderia ter sido substituída. A ontologia do acontecimento histórico não pode ser confundida com a ontologia do necessário. O fato possui realidade porque ocorreu; não adquire necessidade simplesmente porque já não pode ser desfeito.
Leibniz oferece aqui uma provocação particularmente fecunda. Sua distinção entre verdades necessárias e verdades contingentes permite perceber que o acontecimento histórico, ainda que encontre razões suficientes para sua ocorrência, não se converte por isso numa verdade necessária. Explicar por que alguma coisa aconteceu não significa demonstrar que nenhuma outra coisa poderia ter acontecido. Essa diferença desaparece em inúmeras narrativas históricas. Depois de reunir inflação, ressentimento, crise institucional, desemprego, nacionalismo, fragilidade parlamentar e violência política na Alemanha do entreguerras, o pesquisador pode produzir uma explicação extraordinariamente poderosa para a ascensão do nazismo; se concluir daí que Hitler necessariamente chegaria ao poder, terá passado da explicação para uma metafísica retrospectiva sem perceber a mudança. A mesma falha aparece quando revoluções são descritas como consequências automáticas das contradições que as antecederam, quando guerras são tratadas como inevitáveis ou quando regimes políticos são apresentados como etapas naturais de um processo histórico. A inteligibilidade de um acontecimento não equivale à sua necessidade. Quanto melhor uma reconstrução explica por que determinado resultado se tornou possível, maior deve ser sua preocupação em não converter possibilidade fortemente condicionada em destino.
Nenhum autor tornou essa tensão mais produtiva do que Hegel. Sua filosofia da História oferece uma das mais poderosas tentativas de compreender o processo histórico como inteligível, estruturado pelo desenvolvimento da liberdade e pela realização progressiva do Espírito. Seria simplista reduzi-lo à caricatura segundo a qual tudo o que ocorreu estava rigidamente predeterminado. A dialética hegeliana é mais sofisticada: contradições internas produzem transformações, formas históricas revelam limites que engendram sua superação e a Razão é percebida retrospectivamente no desenvolvimento do real. Ainda assim, precisamente por sua força explicativa, Hegel apresenta um perigo permanente para o leitor: depois que a sequência histórica é incorporada à arquitetura dialética, aquilo que venceu tende a parecer portador de racionalidade superior simplesmente porque venceu. A famosa imagem da coruja de Minerva, que levanta voo ao entardecer, contém uma advertência que frequentemente se perde na própria grandiosidade do sistema: a filosofia compreende uma forma histórica quando ela já amadureceu. Não governa antecipadamente o curso dos acontecimentos. A sabedoria que chega ao crepúsculo não deve ser transformada em profecia retroativa.
Marx herda e transforma esse problema. Ao deslocar a dialética para as relações materiais, para os modos de produção, para a estrutura econômica e para os conflitos de classe, oferece instrumentos extraordinários para compreender por que instituições políticas, formas jurídicas e ideologias não podem ser analisadas isoladamente das condições sociais que as sustentam. A vulgarização posterior do marxismo, contudo, muitas vezes converteu tendências estruturais em calendários do inevitável. A passagem de um modo de produção a outro passou a ser narrada como se as sociedades percorressem uma estrada previamente construída. O próprio Marx é muito mais interessante quando observa acontecimentos concretos do que quando é convertido em profeta de uma sequência obrigatória. Em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, a contingência política, os interesses conflitantes, as representações, os erros de cálculo, os resíduos institucionais e o peso das tradições aparecem com muito mais densidade do que permitiria qualquer mecanicismo. Os homens fazem a própria História, mas não a fazem em circunstâncias escolhidas livremente: nessa formulação encontra-se justamente a tensão que importa preservar. Há condicionamento sem programação; estrutura sem roteiro; limites sem eliminação da ação.
A historiografia encontra nesse ponto um problema adicional: toda narrativa produz ordem. Os acontecimentos não chegam ao historiador como capítulos. Arquivos não possuem começo, clímax e conclusão; documentos não sabem qual deles é decisivo; testemunhos não se organizam espontaneamente em relações de causalidade. O historiador seleciona, conecta, hierarquiza, periodiza e nomeia. Hayden White levou essa observação muito longe ao explorar a dimensão narrativa da historiografia, mas mesmo sem aceitar todas as consequências de sua abordagem permanece impossível ignorar que escrever História exige construção. Paul Ricoeur, ao examinar tempo e narrativa, mostrou que a experiência temporal adquire inteligibilidade por meio de configurações narrativas. O problema não está em narrar; seria impossível produzir conhecimento histórico sem algum princípio de organização. O problema aparece quando a forma narrativa é confundida com a forma ontológica do passado, como se os acontecimentos tivessem efetivamente ocorrido segundo o arco que posteriormente utilizamos para compreendê-los. Uma revolução possui um “início” porque o historiador escolhe um marco; uma era termina porque uma periodização precisa terminar em algum lugar; uma crise ganha unidade porque acontecimentos dispersos foram reunidos sob uma categoria. Nada disso torna a investigação arbitrária. Torna-a responsável por explicitar seus próprios critérios.
Gadamer acrescentaria que o historiador jamais abandona completamente o presente para ocupar o passado como um observador sem horizonte. Toda compreensão parte de uma situação histórica; toda pergunta dirigida ao passado nasce de preocupações que pertencem também ao presente; toda interpretação envolve aquilo que ele chamou de história dos efeitos. A consciência dessa condição não autoriza relativismo irrestrito, mas impede a fantasia de uma neutralidade temporal absoluta. Quentin Skinner, em outro registro, combateu uma das manifestações mais recorrentes dessa fantasia: a tendência de transformar autores antigos em participantes de debates posteriores. Perguntar o que Hobbes pensava sobre o Estado democrático contemporâneo, o que Locke pensava sobre direitos humanos no sentido inaugurado no século XX ou se Maquiavel era defensor de categorias políticas cuja formulação ainda não existia pode produzir exercícios interessantes, desde que fique claro que se trata de apropriação contemporânea. Como reconstrução histórica, porém, exige recuperar vocabulários, controvérsias, instituições e intenções linguisticamente disponíveis aos autores em seu próprio tempo. John Pocock, igualmente ligado à chamada Escola de Cambridge, insistiu na importância das linguagens políticas dentro das quais proposições adquiriam sentido. Um texto não fala no vazio; intervém em um universo de discursos possíveis. Ler o passado apenas com o vocabulário do presente é condená-lo a responder perguntas que nunca ouviu.
A teoria das formas de governo oferece um laboratório particularmente fascinante para perceber como essa distorção ocorre. Quando Aristóteles distingue monarquia, aristocracia e politeia de suas formas corrompidas, tirania, oligarquia e democracia em determinado sentido técnico de sua classificação, ele não está antecipando a ciência política contemporânea. Trabalha com categorias vinculadas à organização concreta da pólis, ao número dos governantes e, sobretudo, à distinção entre governo orientado ao bem comum e governo exercido em benefício próprio. Políbio, ao formular sua célebre teoria da anaciclose, procura explicar a sucessão e degeneração das formas de governo e encontra na constituição mista romana um mecanismo de equilíbrio entre princípios monárquicos, aristocráticos e populares. Ler Políbio como precursor direto da moderna separação dos poderes seria perder justamente aquilo que o torna intelectualmente interessante: sua problemática não é a nossa. O mesmo vale para Cícero, para a tradição republicana romana e para as reelaborações posteriores do governo misto. A História da teoria política não é uma procissão de autores incompletos caminhando em direção ao constitucionalismo contemporâneo.
Maquiavel rompe essa continuidade de maneira perturbadora. Sua classificação entre principados e repúblicas, seu interesse pela aquisição, conservação e perda do poder e sua leitura dos conflitos internos de Roma deslocam questões que haviam sido organizadas durante séculos por categorias morais e teleológicas. A grandeza de Maquiavel não está em ter “descoberto” antecipadamente a política moderna como quem encontra uma verdade aguardando nomeação. Está em responder a uma configuração histórica concreta, marcada pelas cidades italianas, guerras, instabilidade, interferências estrangeiras, transformações militares e fragilidade institucional. Bodin, posteriormente, reorganiza parte do problema ao formular a soberania como característica essencial da República. A partir dele, a classificação das formas de governo já não pode ser lida exatamente como em Aristóteles, porque a unidade e indivisibilidade da soberania introduzem outro plano analítico: quem possui a soberania não se confunde necessariamente com aqueles que exercem funções governamentais. A diferença entre Estado e governo, soberania e administração, princípio e exercício, tornaria possíveis desenvolvimentos posteriores que não estavam simplesmente escondidos nos textos gregos aguardando descoberta.
Hobbes radicaliza novamente o problema ao recusar boa parte das classificações tradicionais como multiplicações terminológicas desnecessárias. Monarquia, aristocracia e democracia distinguem-se segundo a localização da soberania; tirania e oligarquia aparecem, em larga medida, como denominações depreciativas utilizadas por aqueles que desaprovam determinado governo. Sua construção depende de uma antropologia, de uma teoria das paixões, de uma epistemologia e de uma concepção específica de representação. Não é possível arrancar a forma de governo desse sistema e compará-la diretamente com categorias contemporâneas como se “monarquia” significasse a mesma coisa em Aristóteles, Políbio, Bodin, Hobbes, Montesquieu e uma constituição europeia atual. A palavra permanece; o fenômeno conceitual se transforma. Pufendorf, ao trabalhar a sociabilidade, o direito natural, a formação das comunidades políticas e a relação entre vontade e obrigação, participa de outro momento dessa transformação, no qual o Estado passa a ser pensado por meio de uma arquitetura jurídica e moral que não coincide nem com a pólis antiga nem com o soberano hobbesiano, embora dialogue com problemas que ambos ajudam a formular.
Montesquieu talvez seja um dos exemplos mais eloquentes de como uma leitura retrospectiva empobrece aquilo que pretende homenagear. Reduzi-lo ao autor da “separação dos três poderes”, como se tivesse redigido antecipadamente um capítulo de manual constitucional, elimina quase toda a riqueza de O Espírito das Leis. Sua reflexão é histórico-territorial, climática, institucional, sociológica antes que a sociologia existisse como disciplina autônoma, atenta aos costumes, às dimensões territoriais, às tradições e às condições que fazem diferentes formas políticas funcionarem de modos diferentes. República, monarquia e despotismo não são apenas estruturas formais; possuem princípios que as movem — virtude, honra e temor — e dependem de condições sociais capazes de sustentá-las. A liberdade política não nasce de um desenho abstrato colocado indiferentemente sobre qualquer sociedade. As instituições precisam ser compreendidas em relação ao conjunto em que operam. Ler Montesquieu apenas como um degrau rumo às constituições liberais posteriores é retirar dele precisamente sua recusa da universalização simplista.
Rousseau apresenta desafio semelhante. Tomar O Contrato Social como projeto constitucional pronto ou classificá-lo imediatamente por categorias modernas — democrata, totalitário, liberal, republicano, comunitarista — frequentemente revela mais sobre as preocupações do intérprete do que sobre o problema que Rousseau procurava enfrentar. Sua distinção entre soberania e governo, sua concepção da vontade geral, sua resistência à representação da soberania, seu exame das dimensões territoriais e sua preocupação com costumes e educação integram uma arquitetura que não pode ser desmembrada sem perda. O povo soberano não corresponde simplesmente ao eleitorado contemporâneo; o governo não é sinônimo de soberania; democracia, aristocracia e monarquia são formas de exercício governamental dentro de um sistema em que a soberania permanece popular. Quando se conhece o desenvolvimento posterior do constitucionalismo representativo, é tentador medir Rousseau pela distância que o separa dele. O resultado é paradoxal: quanto mais o utilizamos para explicar aquilo em que nos transformamos, menos conseguimos enxergar aquilo que ele estava tentando pensar.
A comparação entre formas de governo demonstra ainda uma segunda ilusão retrospectiva: a tendência de considerar instituições sobreviventes superiores simplesmente porque sobreviveram. O êxito histórico não constitui argumento normativo suficiente. Uma instituição pode persistir por força, hábito, dependência econômica, ausência de alternativas, violência, privilégio, tradição ou mera capacidade de reprodução. Do mesmo modo, uma instituição derrotada não se torna irracional porque perdeu. Aqui a historiografia encontra a deontologia. Se a pergunta histórica é “como e por que isso aconteceu?”, a pergunta deontológica é “como isso deveria ter sido?” ou “segundo quais critérios podemos avaliar essa ordem?”. Misturá-las produz dois erros simétricos: moralizar a causalidade e naturalizar o resultado. No primeiro, supõe-se que aquilo que era moralmente preferível deveria necessariamente ter vencido; no segundo, que aquilo que venceu merece aprovação porque a História o selecionou. Nenhuma dessas inferências é válida.
A chamada tradição whig da História tornou-se justamente um nome para uma forma de narrativa que lê o passado como progresso em direção às instituições valorizadas pelo presente. Herbert Butterfield criticou essa disposição de dividir personagens e acontecimentos entre aqueles que colaboraram com o futuro e aqueles que o retardaram. Seu alvo era específico, mas o diagnóstico ultrapassa o contexto britânico: quando o presente se transforma em tribunal teleológico do passado, cada geração anterior passa a ser julgada segundo a contribuição que deu para que nós existíssemos. Reformadores tornam-se heróis porque anteciparam nossos valores; adversários tornam-se obstáculos porque não compreenderam aquilo que ainda não existia. Desaparece a possibilidade de que ambos estivessem respondendo a problemas cuja estrutura não era a nossa. O passado deixa então de possuir dignidade ontológica própria e transforma-se numa infância imperfeita do presente.
Walter Benjamin inverte violentamente essa perspectiva. Contra a imagem triunfal do progresso, chama atenção para aquilo que a narrativa dos vencedores deixa sob os escombros. Sua filosofia da História recorda que aquilo que posteriormente recebe o nome de progresso pode ter sido vivido por muitos como catástrofe. A modernização econômica pode significar prosperidade para uns e destruição de formas de vida para outros; a centralização estatal pode significar racionalização administrativa e simultaneamente supressão de autonomias; a construção nacional pode produzir identidade compartilhada e silenciar línguas, povos e tradições; a vitória de uma ordem constitucional pode coexistir com exclusões que a própria constituição normaliza. A História retrospectiva tende a suavizar o sofrimento porque sabe que “depois” alguma coisa melhor aconteceu. Para quem sofreu naquele instante, porém, o futuro ainda não existia. Não é intelectualmente legítimo justificar uma vítima passada com um benefício futuro que ela jamais conheceu.
Hannah Arendt oferece outra advertência indispensável ao mostrar como fenômenos políticos novos podem ser mal compreendidos quando são imediatamente encaixados em categorias antigas. O totalitarismo, em sua análise, não constitui simplesmente uma tirania mais intensa. Possui características que exigem categorias próprias. Essa observação tem alcance metodológico geral: a insistência em compreender todos os fenômenos através de classificações herdadas pode impedir o reconhecimento da novidade histórica. O passado não apenas transmite formas; também conhece rupturas. A categoria que funcionava ontem pode não explicar aquilo que surge amanhã. A inteligência histórica exige, portanto, dupla disciplina: não imaginar novidade onde existe continuidade, mas também não violentar a novidade para preservar o conforto das categorias existentes.
Michel Foucault, embora parta de pressupostos profundamente diferentes, desloca novamente a pergunta ao investigar as condições históricas sob as quais determinados objetos, práticas e regimes de verdade se tornam possíveis. Loucura, punição, sexualidade, disciplina e saber não aparecem como essências atravessando intactas os séculos; são reconstruídos por meio de práticas, instituições, discursos e relações de poder que tornam certas formas de experiência pensáveis. Sua genealogia, inspirada em Nietzsche, combate precisamente a busca por origens puras e desenvolvimentos lineares. Aquilo que existe não precisa possuir uma essência destinada desde o início a realizar-se. Pode resultar de acidentes, disputas, apropriações, deslocamentos e sedimentações. Essa perspectiva é especialmente útil contra a tentação de imaginar que instituições jurídicas contemporâneas nasceram porque alguma racionalidade histórica precisava produzi-las.
Max Weber, por sua vez, oferece uma forma extraordinariamente disciplinada de pensar causalidade histórica sem convertê-la em destino. Seus tipos ideais não pretendem reproduzir a realidade em sua totalidade; são construções analíticas utilizadas para organizar e comparar fenômenos. Sua análise da racionalização, da dominação tradicional, carismática e legal-racional, da burocracia e das relações entre ética religiosa e comportamento econômico jamais deveria ser reduzida a uma sequência universal obrigatória. Weber é particularmente importante porque sua metodologia admite causalidades complexas, probabilísticas e historicamente situadas. As mesmas condições não produzem necessariamente os mesmos resultados em qualquer sociedade. A causalidade adequada nas ciências históricas não funciona como uma lei mecânica capaz de antecipar todos os acontecimentos. Compreender significa reconstruir combinações singulares de fatores sem negar que outras combinações fossem possíveis.
Tocqueville demonstra essa virtude em sua análise da democracia. Ao investigar os Estados Unidos e a transformação das sociedades aristocráticas europeias, percebe a igualdade de condições como tendência histórica poderosa, mas não conclui que toda sociedade democrática produzirá necessariamente as mesmas instituições ou a mesma liberdade. Pelo contrário, identifica possibilidades divergentes: participação cívica, associações e autogoverno podem conter tendências centralizadoras, enquanto a própria igualdade pode conviver com novas formas de conformismo e tutela. Sua reflexão é valiosa justamente porque uma tendência histórica não se transforma automaticamente em destino político. A democracia pode assumir formas distintas; a igualdade não contém em si uma constituição pronta.
Vico, muito antes, já havia recusado uma compreensão puramente abstrata da sociedade ao insistir que o mundo civil foi feito pelos homens e, por essa razão, pode ser conhecido de maneira peculiar por eles. Seus corsi e ricorsi não devem ser transformados numa mecânica simplista da História, mas revelam uma tentativa decisiva de compreender instituições, linguagens, mitos, costumes e formas políticas em seu desenvolvimento próprio. A historicidade não constitui simples cenário no qual uma essência humana imutável encena diferentes episódios; participa da própria constituição dos mundos humanos. A consequência para a teoria política é profunda: formas de governo não podem ser compreendidas apenas pela descrição jurídica de seus órgãos. São também condensações de formas de vida, expectativas, medos, linguagens, estruturas econômicas, hábitos e representações.
A deontologia retorna nesse ponto com toda a sua força porque compreender historicamente uma norma, uma instituição ou uma prática não significa justificá-la. Saber por que a escravidão foi normalizada em determinada sociedade não a torna moralmente aceitável. Compreender os mecanismos institucionais que sustentaram perseguições religiosas não significa suspender o juízo ético sobre elas. Explicar como determinados preconceitos foram produzidos não equivale a desculpá-los. A compreensão histórica exige uma espécie de dupla visão: reconstruir rigorosamente os horizontes normativos dos agentes sem dissolver nossa própria capacidade crítica. O anacronismo moral mais rudimentar consiste em exigir que indivíduos de séculos remotos possuíssem exatamente nosso vocabulário e nossas categorias; o relativismo moral mais rudimentar consiste em concluir que nada pode ser criticado porque tudo pertence ao seu tempo. Entre ambos existe uma tarefa muito mais difícil: perguntar quais alternativas estavam disponíveis, quais críticas já existiam, quais vítimas já denunciavam aquela ordem, quais conflitos normativos eram percebidos e que grau de consciência seria razoavelmente possível atribuir aos agentes.
Essa distinção é essencial porque a expressão “era outra época” pode funcionar tanto como advertência metodológica legítima quanto como absolvição preguiçosa. Sociedades escravistas possuíam defensores da escravidão, mas também possuíam escravizados que conheciam diretamente sua violência e, em inúmeros períodos, críticos capazes de formular objeções. Estados autoritários possuem ideólogos, mas também opositores. Estruturas patriarcais não foram universos sem mulheres capazes de perceber a própria subordinação. O contexto histórico limita linguagens e possibilidades, mas não elimina necessariamente conflito moral. Uma deontologia historicamente séria não pergunta apenas se determinado agente pensava como nós; pergunta o que ele poderia saber, quais alternativas estavam disponíveis, quais razões apresentou, quais interesses protegeu e quais custos impôs a outros. O passado deve ser compreendido em seus próprios termos sem ser transformado em zona de imunidade ética.
Também o Direito sofre profundamente com a leitura retrospectiva. Constituições são frequentemente interpretadas como etapas rumo ao modelo constitucional atual; institutos jurídicos são descritos como versões primitivas daqueles que hoje conhecemos; decisões judiciais antigas são celebradas quando antecipam doutrinas posteriores e tratadas como atrasadas quando permanecem vinculadas às categorias do seu tempo. Essa forma de narrativa é confortável, mas metodologicamente pobre. O conceito romano de propriedade não é simplesmente nosso direito de propriedade ainda incompleto; as corporações medievais não são empresas modernas em estágio embrionário; o soberano de Bodin não é um chefe do Executivo esperando a invenção da separação dos poderes; o estado de natureza hobbesiano não é uma pesquisa antropológica fracassada sobre sociedades pré-estatais; a vontade geral de Rousseau não é um plebiscito eletrônico aguardando tecnologia. Quando categorias são arrancadas da arquitetura conceitual em que possuíam função, elas sobrevivem linguisticamente e morrem teoricamente.
A própria ideia de Estado ilustra esse processo. Utilizamos a mesma palavra para organizar experiências políticas radicalmente diferentes e depois corremos o risco de supor que o objeto permaneceu idêntico. A pólis grega, a res publica romana, os reinos medievais, as monarquias territoriais da primeira modernidade, o Estado soberano pós-westfaliano — se utilizarmos essa periodização com todas as cautelas que ela exige —, o Estado constitucional liberal, o Estado administrativo, o Estado social e as formas contemporâneas de governança não constituem simples variações quantitativas de uma essência institucional invariável. Há continuidades, certamente, mas também transformações na territorialidade, na soberania, na administração, na cidadania, na representação, na fiscalidade, no monopólio da violência, na relação entre público e privado e na própria compreensão do político. A teoria geral do Estado empobrece quando transforma esse processo numa genealogia linear cujo ponto culminante coincide convenientemente com o sistema institucional do autor que escreve.
Carl Schmitt, embora intelectualmente e politicamente carregado de problemas que não podem ser ignorados, compreendeu com extraordinária acuidade que os conceitos fundamentais da teoria do Estado possuem história e que sua significação depende de estruturas políticas determinadas. Sua observação de que conceitos da moderna teoria do Estado carregam secularizações de conceitos teológicos produziu uma hipótese influente precisamente porque recusa a neutralidade histórica do vocabulário político. Ainda que se rejeite sua teoria decisória ou suas conclusões normativas, permanece fecunda a advertência de que conceitos não flutuam acima do tempo. “Soberania”, “representação”, “exceção”, “povo”, “constituição” e “Estado” não conservam necessariamente idêntico conteúdo apenas porque conservam o mesmo nome.
A linguagem constitui, portanto, uma espécie de arquivo clandestino da História. Palavras permanecem enquanto seus campos semânticos se deslocam. Koselleck fez desse problema uma parte central da história dos conceitos ao investigar como transformações sociais e políticas alteram o conteúdo temporal de categorias fundamentais. “Revolução”, por exemplo, já não significa simplesmente aquilo que significava em contextos anteriores à modernidade política. “Progresso”, “crise”, “democracia”, “emancipação”, “Estado” e “sociedade” carregam sedimentações históricas. Utilizá-las sem reconstruir suas transformações é imaginar que autores separados por séculos participaram de uma conversa conduzida no mesmo idioma conceitual. Não participaram. O historiador é quem os coloca numa mesma sala; por isso possui o dever de explicar em que medida eles realmente podem conversar.
Esse dever metodológico conduz a uma conclusão mais incômoda: a História não possui obrigação de produzir conforto. Não precisa confirmar que caminhamos inevitavelmente para melhor, nem provar que toda civilização está condenada a decair, nem demonstrar que a liberdade sempre vencerá, nem que o autoritarismo sempre retornará, nem que o capitalismo necessariamente terminará, nem que determinada forma de governo representa o estágio final da organização política. Francis Fukuyama tornou célebre, em contexto muito específico e com uma sofisticação frequentemente esquecida por seus críticos, a expressão “fim da História”, associada ao triunfo normativo da democracia liberal depois da Guerra Fria. O percurso posterior demonstrou, de qualquer modo, a fragilidade de qualquer leitura que confunda predominância histórica momentânea com encerramento das possibilidades políticas. A História possui uma crueldade particular com todas as proclamações de definitividade.
A teoria das formas de governo deveria aprender com isso. Nenhuma classificação pode ser tratada como catálogo eterno de essências políticas. Monarquia, aristocracia, democracia, república, tirania, oligarquia, despotismo, cesarismo, autoritarismo, totalitarismo, presidencialismo, parlamentarismo e inúmeras outras categorias respondem a problemas analíticos diferentes. Algumas classificam a titularidade da soberania; outras, a estrutura institucional; outras, os mecanismos de legitimação; outras, os modos de exercício do poder; outras ainda, patologias políticas. Colocá-las numa única linha evolutiva produz confusão conceitual. Uma monarquia constitucional parlamentar contemporânea pode compartilhar estruturalmente muito mais com uma república parlamentar do que com uma monarquia absoluta do século XVII. A permanência do substantivo “monarquia” não garante identidade do fenômeno. A análise histórica precisa reconstruir a totalidade institucional antes de permitir que o rótulo governe a conclusão.
Também a democracia merece essa cautela. Quando se afirma que Atenas inventou a democracia, a frase pode ser útil, mas se torna perigosa caso faça imaginar continuidade direta entre a assembleia ateniense, com suas exclusões estruturais, e uma democracia constitucional contemporânea fundada em representação, sufrágio universal, direitos fundamentais, burocracia permanente, partidos políticos e controle jurisdicional. Chamar ambas de democracia estabelece uma relação; não demonstra identidade. A História dos conceitos exige investigar exatamente o que permaneceu e o que se transformou. Sem isso, o passado torna-se uma coleção de protótipos do presente.
Há aqui uma dimensão ainda mais profunda, que é a do tempo vivido. Santo Agostinho, ao refletir sobre o tempo nas Confissões, percebeu a estranheza de passado, presente e futuro: o passado já não é, o futuro ainda não é, e o presente parece escapar continuamente. A História enfrenta esse paradoxo em escala coletiva. Aquilo que estudamos como passado foi, para alguém, presente absoluto. Cada documento histórico nasceu sem saber que se tornaria documento histórico. Uma carta diplomática podia ser apenas uma carta; um discurso, uma intervenção circunstancial; uma lei, solução provisória; uma pequena revolta, acontecimento local cuja importância posterior ninguém antecipava. A posteridade modifica o estatuto das coisas sem modificar aquilo que elas eram quando aconteceram. Há uma distância entre importância histórica posterior e significado contemporâneo que precisa ser permanentemente reconstruída.
Collingwood levou essa preocupação ao centro da filosofia da História ao sustentar que compreender uma ação histórica envolve reconstruir o pensamento que nela se expressava. Independentemente das dificuldades de sua formulação, permanece valiosa sua recusa de uma história composta apenas por fatos externos. César atravessar o Rubicão não é inteligível apenas como movimento físico de um corpo e de tropas através de um rio. É ação porque existe dentro de um universo de intenções, instituições, proibições, expectativas e significados políticos. O mesmo gesto físico, separado desse contexto, seria outro acontecimento. A História é feita de fatos significados, não de movimentos nus da matéria. A reconstrução histórica precisa, portanto, perguntar não somente o que ocorreu, mas o que aquilo significava para aqueles que agiram.
Entretanto, reconstruir intenções não autoriza reduzir acontecimentos às intenções dos agentes. Estruturas frequentemente produzem consequências que ninguém desejou; ações coletivas geram resultados não planejados; instituições desenvolvem dinâmicas próprias; decisões tomadas por razões locais podem produzir efeitos globais. Adam Smith, ao falar em mecanismos pelos quais interesses particulares podem produzir efeitos não intencionados, e posteriormente autores das ciências sociais que investigaram consequências não previstas da ação, ajudam a perceber que a História não é nem roteiro estrutural nem soma de vontades individuais. Ela emerge da interação entre agentes, estruturas, instituições, contingências e efeitos que escapam ao controle de todos. Quem conhece o resultado tende a reconstruir uma inteligência coordenadora que nunca existiu.
O acaso também precisa recuperar sua dignidade historiográfica. Isso não significa transformar História em loteria, mas reconhecer que acontecimentos de baixa previsibilidade podem alterar estruturas duradouras. Uma morte inesperada, uma sucessão dinástica, uma doença, uma tempestade durante operação militar, um erro de comunicação, uma decisão tomada por poucos votos ou o gesto individual de uma pessoa situada em ponto institucional decisivo podem modificar trajetórias. Fernand Braudel corretamente deslocou atenção para estruturas de longa duração, geografias, economias e temporalidades lentas, mostrando que a História não pode ser reduzida à espuma dos acontecimentos. A lição, contudo, não precisa eliminar o acontecimento; pode situá-lo. Longa duração e contingência não são inimigas. Estruturas delimitam o campo dentro do qual acontecimentos ganham efeitos, enquanto acontecimentos podem acelerar, redirecionar ou romper estruturas.
O problema aparece com particular clareza nas revoluções. Depois que uma revolução triunfa, seus antecedentes são reorganizados como causas revolucionárias: crises fiscais, desigualdades, disputas políticas, mudanças intelectuais, tensões sociais, fracassos institucionais. Tudo parece convergir para o desfecho. Entretanto, crises fiscais existiram sem revoluções, desigualdades sobreviveram durante séculos, ideias radicais circularam sem derrubar governos, revoltas fracassaram, reformas desarmaram conflitos e regimes encontraram meios de sobreviver. A explicação histórica precisa demonstrar por que, naquela configuração específica, certos fatores interagiram de modo a produzir ruptura. Transformar cada antecedente em prenúncio é substituir causalidade por montagem retrospectiva.
O mesmo ocorre com a queda de regimes. Depois que uma monarquia desaparece, descobrimos sua decadência em todas as décadas anteriores; depois que um império cai, cada crise parece sinal de colapso; depois que um partido perde hegemonia, sua derrota parece ter começado muito antes. Mas instituições podem permanecer em crise por longos períodos e recuperar estabilidade. O conceito de decadência é particularmente traiçoeiro porque frequentemente é identificado apenas depois que se conhece a queda. Gibbon, ao investigar o declínio e a queda do Império Romano, construiu uma das grandes narrativas históricas do Ocidente, mas a própria palavra “declínio” já organiza séculos de transformações em função de um resultado conhecido. Historiografias posteriores mostraram que aquilo que aparece como decadência sob um enquadramento pode ser descrito como transformação sob outro. Nenhuma dessas palavras é neutra.
A leitura retrospectiva também produz heróis prematuros e vilões retroativos. Um personagem é elevado porque suas ideias se aproximam das nossas; outro é condenado não apenas pelo que fez, mas porque estava “do lado errado da História”. Essa expressão, tão comum, contém uma metafísica inteira escondida. Pressupõe que a História tenha lados, direção e tribunal. Frequentemente significa apenas que determinado projeto perdeu ou que hoje rejeitamos seus valores. A derrota histórica e a condenação moral podem coincidir, mas não são a mesma coisa. O nazismo merece condenação absoluta não porque perdeu a guerra, mas porque seu sistema político e moral foi criminoso. Se tivesse vencido, continuaria criminoso. A vitória militar dos Aliados não produziu retroativamente a imoralidade do adversário. Essa distinção parece evidente nesse exemplo extremo, mas é sistematicamente esquecida em casos menos dramáticos.
Por isso a deontologia precisa permanecer independente da teleologia histórica. O dever não nasce da vitória. Uma norma não se torna justa porque prevaleceu; uma instituição não se torna legítima porque sobreviveu; um movimento não se torna moralmente superior porque triunfou. Kant é incontornável aqui porque sua filosofia prática procura precisamente um fundamento normativo que não dependa do curso contingente dos acontecimentos. Ainda que se discorde de sua arquitetura moral, existe uma diferença radical entre perguntar o que ocorreu e perguntar o que deve ser. O sucesso pertence ao primeiro domínio; a legitimidade, ao segundo. A tentativa de deduzir um do outro constitui uma das confusões mais persistentes da filosofia política.
O presente também precisa ser libertado desse erro. Assim como não deveríamos olhar para 1789 sabendo antecipadamente o que ocorrerá em 1793, não deveríamos olhar para 2026 como se estivéssemos secretamente vivendo o capítulo introdutório de algo cuja conclusão já estivesse escrita. Não sabemos quais instituições permanecerão, quais tecnologias transformarão relações sociais, quais Estados desaparecerão ou surgirão, quais concepções jurídicas parecerão incompreensíveis daqui a dois séculos, quais pensadores atuais serão esquecidos e quais notas aparentemente periféricas serão consideradas decisivas. Nosso presente é tão aberto quanto qualquer presente passado já foi. A única razão pela qual o século XVIII parece caminhar para o século XIX é que nós já conhecemos o século XIX. Para aqueles que estavam no século XVIII, o século XIX não existia.
Essa percepção produz uma forma particular de humildade epistemológica. Não a humildade vazia que renuncia à afirmação, mas a que distingue aquilo que sabemos daquilo que apenas conseguimos reconstruir probabilisticamente. O historiador pode demonstrar condicionamentos, tendências, estruturas e causalidades poderosas. Pode sustentar que determinadas alternativas eram extremamente improváveis. Pode identificar processos cuja reversão exigiria mudanças extraordinárias. O que não deveria fazer sem demonstração é converter força causal em necessidade metafísica. O impossível precisa ser distinguido do improvável; o improvável, do não realizado; o não realizado, do impensável. Muitas alternativas desaparecem dos livros justamente porque perderam. Enquanto estavam vivas, contudo, podiam organizar expectativas, alianças, medos e estratégias. Ignorá-las é reescrever o passado segundo o conhecimento dos vencedores.
Reconstruir essas possibilidades não significa escrever História contrafactual como fantasia. Significa recuperar o horizonte dentro do qual os agentes decidiam. Se determinada decisão parece absurda porque conhecemos sua consequência desastrosa, é indispensável perguntar quais informações estavam disponíveis naquele momento. Se uma estratégia militar terminou em catástrofe, isso não demonstra que fosse irracional ex ante. Se uma constituição fracassou, isso não prova que seu fracasso estivesse contido em cada artigo desde a promulgação. Se um estadista recusou acordo posteriormente considerado vantajoso, é preciso saber se suas vantagens eram perceptíveis então. A racionalidade de uma decisão não pode ser julgada exclusivamente pelo resultado que só surgiu depois dela.
Isso vale também para o Direito contemporâneo. Um magistrado, um advogado, um legislador ou um administrador decide sem acesso ao futuro. O resultado posterior pode revelar que uma escolha produziu consequências ruins, mas não altera automaticamente a qualidade racional da decisão no momento em que foi tomada. A responsabilidade exige considerar informações disponíveis, deveres existentes, alternativas possíveis e riscos cognoscíveis. Julgar qualquer decisão apenas pelo desfecho é cometer o chamado viés retrospectivo em sua forma jurídica. O método exige reconstruir o momento decisório antes de avaliar o agente.
Nesse ponto, História e fenomenologia podem se encontrar de modo especialmente fecundo. Reconstruir um fenômeno histórico não consiste em retirar dele todas as interpretações até encontrar um fato puro escondido sob as narrativas. Tal fato puro raramente está disponível. Consiste em identificar as camadas pelas quais o fenômeno aparece: documentos, instituições, linguagens, expectativas, relações materiais, categorias normativas, experiências individuais, estruturas sociais e posteriores sedimentações interpretativas. A reconstrução não busca uma ingenuidade pré-interpretativa impossível; busca impedir que uma única camada se faça passar pela totalidade.
A História se torna intelectualmente perigosa quando oferece certeza demais. Seus melhores trabalhos frequentemente produzem o efeito contrário: ampliam o número de coisas que precisam ser consideradas antes de uma conclusão. Uma instituição que parecia simples revela origens contraditórias; um acontecimento que parecia inevitável recupera alternativas; um herói adquire ambiguidades; um vilão deixa de ser inexplicável sem deixar de ser condenável; uma revolução perde seu roteiro; uma forma de governo deixa de parecer etapa natural da evolução política; um conceito conhecido revela significados que já não reconhecemos nele. Conhecer profundamente o passado não significa torná-lo mais semelhante a nós. Significa permitir que ele recupere sua estranheza.
Essa estranheza possui também uma função política. Quem acredita que a História necessariamente progride tende a considerar conquistas institucionais irreversíveis. Direitos parecem definitivamente adquiridos; democracias parecem suficientemente consolidadas; barbáries parecem confinadas ao passado. A experiência histórica não autoriza esse conforto. Instituições dependem de práticas que as sustentem; direitos dependem de estruturas capazes de garanti-los; democracias podem degradar-se; sociedades sofisticadas podem produzir violência extrema. A ausência de direção necessária vale para o pior e para o melhor. Se nada garante a decadência inevitável, nada garante o progresso automático. A liberdade política não é presente da História. É construção humana e, por isso mesmo, pode ser perdida por seres humanos.
A mesma ausência de garantia torna a responsabilidade deontológica mais séria, não menos. Se o futuro estivesse previamente determinado, nossas escolhas teriam importância apenas aparente. Se a História necessariamente conduzisse a determinada ordem, agir seria cumprir um papel escrito antes de nós. A contingência devolve peso à decisão. Justamente porque o futuro não está pronto, responsabilidade significa participar de sua construção sem possuir domínio sobre seus resultados. A ética da ação política começa onde termina a superstição do destino.
Arendt percebeu algo semelhante ao atribuir à ação humana a capacidade de iniciar. Natalidade, em sua filosofia, não é simplesmente nascimento biológico; é condição da possibilidade do novo. Cada ação introduz algo cujo curso não pode ser completamente controlado. Essa imprevisibilidade é simultaneamente problema e grandeza da política. Promessas, instituições e responsabilidades existem em parte porque seres humanos agem num mundo de consequências abertas. Uma filosofia da História que transforme todo acontecimento em manifestação necessária de um processo maior reduz precisamente essa dimensão da ação.
O passado, portanto, não deveria ser tratado como estrada que inevitavelmente conduziu até nós. Somos uma de suas consequências possíveis, não sua finalidade. As sociedades anteriores não existiram para preparar nossa democracia, nosso Direito, nossa ciência, nossas instituições ou nossos conceitos morais. Seus habitantes amaram, temeram, governaram, erraram, criaram, destruíram, esperaram e morreram dentro de presentes que lhes pertenciam. Alguns imaginaram futuros que nunca chegaram. Outros combateram por ordens que desapareceram. Muitos participaram de processos cujos resultados jamais conheceriam. Reduzi-los a personagens secundários de nossa genealogia significa negar a autonomia de seus mundos.
Compreender historicamente exige então um gesto intelectual quase contraintuitivo: esquecer temporariamente aquilo que sabemos que aconteceu depois. Não para apagar conhecimento, mas para impedir que ele colonize o objeto. Diante de cada acontecimento importante, deveria ser possível perguntar: o que ainda não havia acontecido? O que ainda estava aberto? Que alternativas eram imagináveis? Que informações faltavam? Que conceitos possuíam significados diferentes? Quem acreditava em futuros que perderam? Quais estruturas pareciam permanentes e desapareceram? Quais fenômenos pareciam provisórios e permaneceram? Essas perguntas devolvem movimento ao passado.
Também devolvem densidade à teoria das formas de governo. Em vez de organizar Aristóteles, Políbio, Maquiavel, Bodin, Hobbes, Pufendorf, Montesquieu, Rousseau, Tocqueville, Hegel, Marx, Weber e tantos outros numa fila em que cada autor entrega ao seguinte um pedaço do sistema político contemporâneo, torna-se possível reconhecer projetos intelectuais distintos confrontando problemas distintos. Há diálogos, influências, permanências e rupturas, mas elas precisam ser demonstradas, não presumidas. A História do pensamento político deixa de ser uma escada e torna-se uma constelação.
Talvez seja justamente essa imagem que melhor preserve a dignidade do passado. Uma constelação não possui uma única linha necessária. Seus pontos podem ser conectados de modos diferentes conforme a pergunta formulada, desde que as conexões sejam intelectualmente justificadas. Aristóteles pode dialogar com Montesquieu sobre formas de governo; Hobbes com Schmitt sobre soberania; Rousseau com Arendt sobre participação; Vico com Hegel sobre História; Weber com Tocqueville sobre modernidade; Gadamer com Skinner sobre compreensão; Koselleck com Ricoeur sobre temporalidade. Nenhum desses diálogos exige fingir que os autores participaram da mesma conversa. O trabalho intelectual está precisamente em construir a relação sem destruir as diferenças.
A historiografia alcança sua maturidade quando consegue explicar por que algo aconteceu sem afirmar que precisava acontecer, compreender os agentes sem transformar compreensão em absolvição, julgar práticas sem exigir que o passado possuísse o vocabulário integral do presente, identificar estruturas sem expulsar a contingência, reconhecer causalidades sem fabricar destinos e utilizar conceitos sem esquecer que eles próprios possuem história. Epistemologia, ontologia e deontologia encontram-se nesse ponto. A primeira pergunta o que podemos saber; a segunda pergunta que espécie de realidade atribuímos aos acontecimentos e às possibilidades; a terceira pergunta como podemos avaliá-los. Confundir esses planos produz História ruim e filosofia pior.
O presente é herdeiro do passado, mas não sua conclusão necessária. Somos feitos de acontecimentos que poderiam ter encontrado outros cursos, instituições que poderiam ter desaparecido, derrotas que poderiam ter sido vitórias, ideias que sobreviveram enquanto outras igualmente plausíveis foram esquecidas. A consciência dessa contingência não diminui a inteligibilidade histórica. Ao contrário, torna-a mais rigorosa porque recusa a facilidade de confundir sequência com necessidade.
No fim, a leitura retrospectiva contém uma espécie de arrogância temporal: porque chegamos depois, imaginamos que chegamos acima. Conhecemos o resultado e por isso acreditamos conhecer o caminho; conhecemos o caminho realizado e por isso esquecemos todos os caminhos abandonados; habitamos uma ordem política determinada e por isso reorganizamos milênios de pensamento para que pareçam convergir até ela. A História, porém, nunca prometeu convergir conosco. Nenhuma civilização recebeu certificado de culminação. Nenhuma forma de governo recebeu garantia de permanência. Nenhuma geração recebeu o privilégio de ser o ponto final do tempo humano.
O passado não aconteceu para chegar até nós. A frase pode parecer pequena, mas suas consequências atravessam praticamente todo o campo das ciências humanas. Significa que Aristóteles não pensava para preparar Montesquieu, que Bodin não escrevia para tornar possível nosso constitucionalismo, que Hobbes não precisava ser corrigido por Rousseau para que a História pudesse prosseguir, que Hegel não encerrou a filosofia, que Marx não descobriu um calendário necessário do futuro, que as revoluções não conheciam previamente seus próprios resultados e que as constituições não carregam dentro de si a história de sua aplicação. Significa também que não somos aquilo que o passado precisava produzir. Somos aquilo que, entre incontáveis possibilidades, efetivamente surgiu.
Tal constatação modifica inclusive a relação com o futuro. Se o presente não é conclusão necessária do passado, o futuro tampouco será conclusão necessária do presente. Há estruturas que pesam, causalidades que condicionam, instituições que limitam, interesses que constrangem e tendências que podem ser identificadas com enorme rigor; permanece, contudo, um espaço no qual decisões, contingências, encontros, erros e ações humanas produzem aquilo que ainda não existe. Quem compreende isso deixa de procurar na História um oráculo. Procura nela algo muito mais valioso: um laboratório gigantesco da complexidade humana.
A maturidade histórica começa quando deixamos de perguntar apenas como o passado produziu aquilo que somos e passamos a perguntar também aquilo que poderia ter produzido, aquilo que foi perdido, aquilo que não venceu, aquilo que permaneceu invisível e aquilo que nossa própria posição temporal nos impede de perceber. Nesse momento, o passado deixa de ser prólogo. Recupera sua condição de mundo.
E somente quando o passado volta a ser mundo, em vez de caminho, torna-se possível verdadeiramente compreendê-lo.
Bastidores
Minha relação com a História começou muito antes de eu possuir qualquer instrumento teórico para explicar por que ela me fascinava tanto. Aos doze anos, economizei durante algum tempo o dinheiro que recebia de mesada para importar da Inglaterra um livro dedicado à leitura dos hieróglifos egípcios. Não se tratava de uma obra de curiosidades sobre o Egito nem de uma introdução superficial àquilo que aquelas figuras representavam: eu queria estudar a escrita hieroglífica propriamente dita, aquela que havia permanecido durante tantos séculos inacessível à leitura moderna e cujo processo de decifração ganhou impulso decisivo depois da descoberta, em 1799, durante a campanha francesa no Egito, daquilo que conheceríamos como Pedra de Roseta. Nela, um mesmo decreto aparecia registrado em três escritas: hieróglifos egípcios, demótico e grego antigo. O grego podia ser lido; as escritas egípcias, naquele momento, não. Aquela justaposição tornou-se uma chave extraordinária e, depois de esforços que envolveram diferentes estudiosos, especialmente Thomas Young e Jean-François Champollion, permitiu que no início do século XIX se abrisse novamente uma porta para uma língua cuja leitura havia sido perdida durante aproximadamente um milênio e meio. Hoje a Pedra de Roseta encontra-se no British Museum, em Londres, e talvez poucas peças materializem de maneira tão perfeita aquilo que sempre me impressionou na História: durante séculos, uma civilização inteira continuou falando diante de nós, gravada em pedra, e nós simplesmente já não sabíamos escutá-la.
Eu tinha uma razão muito simples para querer aprender aquilo aos doze anos: pretendia ser egiptólogo. Durante praticamente todo o ensino básico, História foi a disciplina na qual mais naturalmente me encontrei, não porque eu tivesse especial interesse em memorizar datas, nomes de reis ou sucessões de guerras, mas porque alguma coisa na distância temporal sempre exerceu sobre mim uma atração muito particular. Impressionava-me perceber que seres humanos separados de mim por dois, três, quatro ou cinco mil anos haviam observado o céu, organizado Estados, criado sistemas de escrita, calculado, legislado, construído, comercializado, guerreado, amado, cultuado seus mortos, elaborado teologias e produzido formas artísticas de uma sofisticação que sobreviveria muito mais do que eles próprios. A História nunca me pareceu um depósito de formas primitivas esperando que o presente viesse aperfeiçoá-las. Ao contrário: quanto mais eu conhecia o passado, menos conseguia admitir aquela espécie de presunção cronológica segundo a qual a humanidade contemporânea, simplesmente porque chegou depois, estaria necessariamente colocada acima daqueles que chegaram antes. O intervalo de milhares de anos cria uma ilusão curiosa. Sabemos que os egípcios viveram há muito tempo e, por isso, quase inconscientemente, substituímos “antigo” por “rudimentar”. Então olhamos para a escrita, para a engenharia, para a administração, para a arquitetura monumental, para os conhecimentos astronômicos e para a organização política que produziram e somos obrigados a enfrentar uma realidade muito menos confortável: aquelas pessoas não eram seres humanos incompletos aguardando nossa chegada. Eram seres humanos tão humanos quanto nós, submetidos a outros conhecimentos, outras instituições, outras cosmologias, outros recursos técnicos e outras condições materiais, mas plenamente capazes de inteligência, criação, abstração e beleza.
Talvez por isso sempre tenha me causado alguma irritação a facilidade com que explicações extraterrestres ou fantasiosas aparecem quando uma realização antiga parece grande demais para aquilo que esperamos dos antigos. As pirâmides tornam-se extraordinariamente precisas e imediatamente alguém precisa imaginar uma intervenção exterior; um conjunto megalítico revela alinhamentos astronômicos e surge a hipótese de algum conhecimento misteriosamente recebido; pedras monumentais aparecem trabalhadas com extraordinária perícia e aquilo que deveria provocar admiração pela capacidade humana passa a ser utilizado como argumento para negar justamente a autoria humana. Nunca consegui encontrar beleza nessa solução. Para mim, ela diminui o fenômeno que pretende engrandecer. A explicação extraordinária não está em supor que alguém veio de fora ensinar seres humanos a construir; está em reconhecer que seres humanos, naquele tempo, naquele território, com os recursos e conhecimentos que desenvolveram, fizeram aquilo. Não é necessário tornar o passado sobrenatural para que ele seja admirável. Sua humanidade basta.
Essa percepção deixou de ser apenas livresca quando tive a oportunidade de conhecer o Peru. A experiência de estar diante das estruturas incas produziu em mim uma impressão que fotografias jamais haviam conseguido produzir com igual intensidade. Machu Picchu impressiona naturalmente pela monumentalidade, pela implantação da cidade na paisagem andina, pela relação entre arquitetura, relevo, água, agricultura e dimensão religiosa, mas aquilo que mais me interessava era justamente perceber que aquele espaço não havia sido construído contra a montanha: ele havia sido pensado com ela. Os terraços cumpriam funções agrícolas, contribuíam para drenagem e estabilidade do terreno e participavam de uma engenharia que precisava compreender um ambiente extremamente particular. Em Moray, por sua vez, os extraordinários terraços concêntricos são frequentemente associados a experimentações agrícolas e às diferenças microclimáticas produzidas pelas distintas elevações, ainda que as funções exatas do complexo continuem objeto de investigação. O que me interessa nesses lugares não é transformá-los em demonstrações de que os incas possuíam secretamente a ciência contemporânea; fazer isso seria praticar precisamente o anacronismo que critico. Interessa-me algo maior: eles possuíam a ciência deles, a técnica deles, o conhecimento acumulado deles e uma capacidade de observar, testar, adaptar e transmitir soluções adequada ao mundo em que viviam.
Cusco talvez tenha produzido em mim impressão ainda mais profunda. É impossível caminhar por determinados pontos da cidade sem perceber uma sobreposição histórica quase brutal: sobre ou junto das fundações e paredes incas encontram-se construções coloniais espanholas, e as duas ordens permanecem materialmente diante dos olhos. As pedras incas, algumas delas enormes, foram talhadas e encaixadas com uma precisão extraordinária, frequentemente sem argamassa, em sistemas de alvenaria cuja resistência inclusive aos terremotos se revelou notável. Costumo dizer, deliberadamente entre aspas, que parecem “cortadas a laser”, não porque eu imagine qualquer laser perdido no Império Inca, evidentemente, mas porque nossos olhos contemporâneos foram treinados a associar tamanha regularidade e precisão a instrumentos modernos. A frase revela mais sobre nós do que sobre eles. Diante de uma pedra perfeitamente ajustada a outra, nossa primeira pergunta costuma ser “como conseguiram fazer isso sem as nossas máquinas?”, quando talvez uma pergunta melhor fosse simplesmente “como conseguiram fazer isso?”. A primeira já parte da pressuposição de inferioridade técnica; a segunda admite que existe um conhecimento a ser reconstruído.
Existe algo de particularmente perturbador em contemplar essas obras sabendo o que aconteceu depois. A chegada europeia às Américas desencadeou uma das maiores catástrofes demográficas conhecidas. As estimativas variam enormemente porque estamos tratando de populações para as quais não possuímos censos modernos, mas estudos contemporâneos situam a população indígena americana em torno de cinquenta ou sessenta milhões de pessoas às vésperas da conquista e apontam sua redução para apenas cinco ou seis milhões em meados do século XVII; uma estimativa bastante citada calcula aproximadamente cinquenta e seis milhões de mortes entre 1492 e 1600. Seria historicamente inadequado atribuir todas essas mortes a assassinatos diretos praticados pelos conquistadores: epidemias trazidas do Velho Mundo tiveram peso devastador, ao lado da guerra, do trabalho compulsório, dos deslocamentos, da fome, da destruição das estruturas econômicas e políticas e de outras consequências da colonização. Mas essa precisão causal não diminui a dimensão humana do acontecimento; ao contrário, permite enxergá-lo em toda a sua extensão. Povos inteiros foram atingidos, sociedades foram desestruturadas, línguas desapareceram, conhecimentos foram perdidos e populações que possuíam suas próprias histórias passaram durante séculos a aparecer nas narrativas escritas pelos vencedores como cenário da história de outra civilização.
Existe ainda uma diferença brutal entre aquilo e as grandes atrocidades contemporâneas que não está na capacidade humana de sofrer, mas na quantidade de vestígios que chegaram até nós. Não havia câmeras fotográficas acompanhando a destruição de uma aldeia, filmadoras registrando a queda de uma cidade, celulares nas mãos daqueles que estavam sendo submetidos à violência, arquivos digitais produzindo milhões de testemunhos simultâneos. O silêncio documental não significa ausência do acontecimento. Essa é uma das lições mais difíceis da História: aquilo que conseguimos conhecer não corresponde necessariamente àquilo que aconteceu, mas àquilo que aconteceu e, por alguma cadeia de contingências, deixou vestígios capazes de sobreviver. Uma pessoa cuja voz nunca foi registrada não sofreu menos; uma comunidade que não deixou um cronista não existiu menos; uma atrocidade sem fotografia não foi menos atroz. O arquivo é condição do conhecimento histórico, mas não constitui o limite ontológico do passado. Há infinitamente mais coisas que aconteceram do que coisas que conseguimos demonstrar que aconteceram.
Talvez por isso eu tenha me emocionado assistindo, neste ano, a uma cerimônia ligada à Copa do Mundo em que diferentes povos e tradições históricas eram evocados enquanto dançarinos apareciam com trajes associados às suas culturas. O que me atingiu não foi simplesmente o espetáculo, mas aquela sucessão visual de mundos humanos separados por séculos e milênios, cada qual tendo experimentado o próprio presente como nós experimentamos o nosso. Quando se chega à Grécia Antiga, por exemplo, existe uma tendência quase irresistível de dizer imediatamente: ali nasceu a democracia. A frase está correta em determinado sentido e profundamente incompleta em outro. Os próprios gregos conheciam a palavra dēmokratía, formada a partir de dêmos e krátos, mas aquilo que ela significava dentro das disputas políticas gregas não corresponde automaticamente ao conteúdo valorativo que a palavra “democracia” possui hoje. Para Platão, a democracia podia constituir uma forma política profundamente problemática; em Aristóteles, a classificação é ainda mais reveladora, porque a politeía, governo constitucional dos muitos orientado ao bem comum, aparece entre as formas corretas, enquanto dēmokratía, em seu sentido técnico naquela classificação, aparece entre as formas desviadas, quando os muitos governam segundo o interesse particular de sua própria parcela. Além disso, “todos” nunca significava todos no sentido contemporâneo: mulheres, escravizados, estrangeiros e outros grupos estavam excluídos da cidadania plena. Ainda assim, entre aqueles reconhecidos como cidadãos, a participação política podia ser muito mais direta do que a existente nas democracias representativas atuais. Olhar para Atenas apenas para descobrir nela uma versão inicial de nossas instituições seria perder exatamente sua originalidade.
E, ainda assim, que mundo intelectual extraordinário aquele foi. A filosofia grega não nos deixou apenas respostas; deixou muitas das perguntas que ainda formulamos. O que existe? O que podemos conhecer? O que significa conhecer? O que torna uma ação justa? Qual é a melhor forma de governo? O que distingue uma lei legítima de uma ordem imposta? O que é a virtude? O que é a beleza? Qual é a natureza do tempo? Em que consiste uma demonstração? Até que ponto aquilo que percebemos corresponde ao real? Séculos e milênios depois, continuamos utilizando categorias elaboradas naquele ambiente intelectual não porque os gregos possuíssem todas as respostas, mas porque alcançaram um grau de abstração suficiente para formular problemas cuja estrutura continua reconhecível. Chamar esse povo simplesmente de “antigo” é cronologicamente verdadeiro e intelectualmente inútil se o adjetivo for utilizado para sugerir simplicidade.
Roma produz em mim impressão semelhante. Há uma tendência popular de reduzir os romanos às legiões, aos gladiadores, às perseguições, às guerras e à brutalidade imperial, como se uma civilização que também produziu extraordinária violência não pudesse simultaneamente possuir elevada sofisticação jurídica, administrativa, arquitetônica e hidráulica. Roma construiu estradas, aquedutos, pontes, sistemas de escoamento, edifícios monumentais e uma estrutura administrativa capaz de operar sobre territórios imensos segundo os padrões daquele tempo. No Direito, porém, sua permanência é ainda mais visível. Boa parte das categorias com as quais o jurista de tradição civilista continua pensando as relações entre pessoas e bens carrega uma genealogia romana: posse, propriedade, obrigações, contratos, sucessões, servidões, usufruto e inúmeras distinções conceituais foram reelaboradas durante séculos, naturalmente, e seria grosseiro dizer que nosso Direito é simplesmente o Direito Romano sobrevivente. A afirmação intelectualmente interessante é outra: continuamos conversando com problemas que juristas romanos já haviam isolado e organizado conceitualmente há quase dois mil anos.
Durante a Idade Média essa presença tornou-se particularmente importante. Não existia um único ordenamento uniforme que governasse aquilo que hoje chamamos Europa. Havia direitos locais, costumes, normas feudais, estatutos urbanos, ordenações principescas, direito régio e direito canônico, entre várias outras fontes. A redescoberta e o estudo sistemático do Corpus Iuris Civilis de Justiniano, sobretudo a partir da tradição universitária medieval, fizeram do Direito Romano um dos componentes centrais do ius commune, aquela cultura jurídica erudita compartilhada em grande parte da Europa continental. Séculos depois, as codificações modernas absorveriam, reelaborariam e reorganizariam inúmeras dessas categorias. O Brasil, recebendo em grande medida a tradição jurídica portuguesa e continental europeia, recebeu também esse longuíssimo processo. Quando hoje um civilista distingue posse de propriedade, propriedade de mera detenção, direitos pessoais de direitos reais, usufruto de propriedade plena, bens corpóreos de incorpóreos ou discute modos de aquisição, ele não está simplesmente repetindo Roma, mas tampouco começa do zero. Por detrás de palavras que parecem pertencer naturalmente ao Direito existe uma história intelectual imensa.
Essa sempre foi uma das coisas que mais me encantaram: perceber que o tempo não destrói tudo. Algumas ideias atravessam impérios, religiões, revoluções, mudanças linguísticas e transformações econômicas; algumas desaparecem e retornam; outras permanecem com o mesmo nome e mudam completamente de conteúdo. A História nunca me pareceu uma exposição de cadáveres intelectuais. Ela é, em muitos sentidos, a demonstração de que os mortos continuam participando das categorias com as quais os vivos pensam.
E tudo isso já seria suficiente para desconfiar profundamente do eurocentrismo, porque nem mesmo o vastíssimo patrimônio grego e romano autoriza reduzir a história da inteligência humana ao Mediterrâneo e à Europa. Enquanto determinadas tradições europeias atravessavam períodos específicos de transformação, sociedades islâmicas preservavam, traduziam, discutiam e ampliavam conhecimentos filosóficos, médicos, astronômicos e matemáticos; a própria palavra “álgebra” denuncia uma genealogia que frequentemente desaparece da narrativa escolar. Matemáticos indianos desenvolveram conceitos fundamentais para os sistemas numéricos que utilizamos; conhecimentos chineses transformaram tecnologias, administração, engenharia e ciência; sociedades africanas produziram estruturas políticas, comerciais e intelectuais extremamente sofisticadas; povos das Américas construíram sistemas agrícolas, calendários, estradas, centros urbanos, obras hidráulicas e formas próprias de organização política muito antes de qualquer europeu saber que aqueles continentes existiam. Não há uma única marcha da inteligência partindo de um ponto e chegando inevitavelmente até nós. Há múltiplas experiências humanas, comunicando-se em alguns momentos, ignorando-se em outros, transmitindo conhecimentos, destruindo conhecimentos e reinventando soluções.
Talvez o que mais me incomode na maneira como frequentemente tratamos essas sociedades esteja naquela associação quase automática entre violência e inferioridade. Egípcios guerrearam; gregos guerrearam; romanos foram extraordinariamente violentos; incas conquistaram outros povos; sociedades pré-colombianas conheceram sacrifícios, conflitos e formas de dominação que hoje rejeitamos. Nada disso precisa ser suavizado. O erro começa quando a violência se torna a categoria total por meio da qual descrevemos o passado, enquanto aplicamos ao presente um critério muito mais indulgente. O século XX, produzido por sociedades industrializadas, alfabetizadas, burocraticamente sofisticadas e cientificamente avançadas, conheceu guerras mundiais, genocídios, campos de extermínio, armas químicas e nucleares e formas industrializadas de assassínio que nenhuma sociedade antiga seria tecnicamente capaz de executar. A tecnologia não converteu automaticamente o ser humano em criatura moralmente superior. Se utilizarmos a violência como escala exclusiva de civilização, talvez o espelho contemporâneo seja muito menos confortável do que gostaríamos.
A palavra “bárbaro” contém, nesse sentido, uma ironia histórica quase perfeita. Para os gregos, barbaros designava originalmente aquele cuja língua era percebida como incompreensível, o estrangeiro cuja fala soava como uma repetição indistinta. Aquele que não compreendemos torna-se o bárbaro. Séculos depois, repetimos o mecanismo quando olhamos para uma civilização da qual restaram fragmentos, não compreendemos plenamente suas técnicas, sua religião, seus conceitos ou sua organização e convertemos nossa ignorância em inferioridade deles. É uma inversão epistemológica extraordinária: sabemos menos sobre determinado povo e, exatamente porque sabemos menos, julgamo-nos autorizados a dizer que ele sabia pouco.
Aos doze anos, evidentemente, eu não organizava essas intuições em categorias de epistemologia, ontologia, historiografia ou filosofia da História. Eu simplesmente queria ler hieróglifos. Hoje consigo perceber que aquela curiosidade infantil já carregava, em forma embrionária, uma questão que continuaria me acompanhando: como é possível reconstruir um mundo sem obrigá-lo a parecer com o nosso? Aprender uma escrita morta me fascinava precisamente porque significava tentar permitir que aquelas pessoas voltassem a falar em seus próprios signos, e não apenas através daquilo que outros haviam dito sobre elas. Há alguma coisa de profundamente respeitosa no ato de reconstrução histórica quando ele é bem feito: durante alguns instantes, suspendemos a arrogância de saber o que veio depois e tentamos encontrar um povo antes que ele se torne “passado”.
Por isso sempre vi enorme beleza na História. Não uma beleza romântica que transforma civilizações antigas em paraísos perdidos, porque elas não foram. Houve escravidão, guerras, perseguições, dominação, misoginia, exploração e crueldade em escalas que precisam ser estudadas sem qualquer complacência. A beleza está em outra coisa: na capacidade humana de produzir mundo. Um ser humano olha para uma pedra e imagina uma construção; olha para o céu e identifica regularidades; observa uma cheia e cria técnicas de irrigação; percebe que a memória individual desaparece e inventa uma escrita; encontra um conflito e produz uma norma; confronta a morte e constrói um ritual; pergunta por que existe alguma coisa em vez de nada e produz filosofia; precisa dividir terras, transmitir patrimônio, cobrar uma dívida ou distinguir aquilo que pertence a alguém daquilo que apenas está sob seu poder e constrói categorias jurídicas. Muito antes de nós, seres humanos já estavam realizando aquela mesma operação fundamental que ainda realizamos: recebendo um mundo que não escolheram e tentando torná-lo inteligível.
Essa é também a razão pela qual nunca consegui aceitar a História como uma escada em cujo último degrau estaríamos nós. Não somos a resposta para a qual egípcios, incas, gregos e romanos constituíram perguntas imperfeitas. Não somos a finalidade de suas experiências. A pirâmide não foi construída para que hoje compreendêssemos engenharia egípcia; Machu Picchu não existiu para se tornar patrimônio visitado por turistas; Aristóteles não escreveu para fornecer notas de rodapé à teoria política contemporânea; os juristas romanos não formularam suas categorias para que um advogado brasileiro pudesse utilizá-las dois mil anos depois. Todas essas pessoas habitavam presentes completos. Possuíam problemas cuja solução importava naquele momento, amores que não sabiam que seriam esquecidos, disputas cujo resultado desconheciam e futuros que muitas vezes jamais ocorreram.
Talvez por isso a frase que deu origem a esta nota tenha para mim um significado tão profundamente pessoal: o passado não aconteceu para chegar até nós. Eu comecei a suspeitar disso antes mesmo de saber formular a suspeita. Comecei quando um menino de doze anos economizou a própria mesada porque queria entender o que diziam aqueles pequenos pássaros, olhos, serpentes, homens, linhas e formas inscritos por pessoas mortas havia milênios. Queria ser egiptólogo porque aquilo não me parecia morto. Continuou não me parecendo.
Hoje não pretendo mais ser egiptólogo. O caminho que segui foi outro. Permaneceram, contudo, a mesma curiosidade e o mesmo incômodo diante de qualquer explicação que diminua aquilo que pretende explicar. Continuo olhando para uma pirâmide e preferindo atribuí-la aos homens que a construíram; para as pedras de Cusco e preferindo investigar a técnica dos incas a inventar uma técnica extraterrestre; para Atenas e preferindo compreender o significado que cidadania e dēmokratía possuíam ali a convertê-las numa cópia rudimentar de nossas instituições; para Roma e preferindo reconhecer a complexidade de seu Direito a tratá-la apenas como sociedade brutal; para as civilizações americanas e preferindo reconhecer que a violência de sua destruição também destruiu conhecimentos que talvez jamais recuperemos. Há nisso mais do que interesse histórico. Existe uma posição acerca do próprio ser humano.
Porque, ao fim, aquilo que sempre me fascinou no passado nunca foi sua antiguidade. Foi sua humanidade. A mesma espécie que hoje envia instrumentos ao espaço, escreve códigos, constrói computadores, discute inteligência artificial e observa galáxias distantes foi capaz, milhares de anos antes, de erguer monumentos, desenvolver linguagens, calcular ciclos celestes, organizar cidades, criar sistemas jurídicos, experimentar culturas agrícolas, produzir música, poesia, matemática, medicina, filosofia e religião com os instrumentos intelectuais e materiais que possuía. Não precisamos diminuir aqueles homens para perceber que avançamos em muitos campos. O conhecimento humano pode acumular-se sem que a inteligência tenha começado conosco.
A História, quando levada a sério, produz precisamente essa espécie de humildade. Ela nos obriga a reconhecer que pessoas que não possuíam eletricidade podiam ser intelectualmente sofisticadas, que sociedades capazes de extrema violência podiam produzir extraordinária beleza, que povos derrotados podiam saber coisas que seus vencedores ignoravam, que civilizações desaparecidas não eram ensaios fracassados de nós mesmos e, principalmente, que chegar depois não significa chegar acima. Talvez por isso eu continue olhando para o passado da mesma maneira que aquele menino olhava para os hieróglifos: não como alguma coisa silenciosa que aguarda nossa explicação, mas como alguma coisa que já estava falando muito antes de nós e diante da qual nossa primeira obrigação intelectual é aprender a escutar.
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