NOTA · PREMISSA, PODER E RECONSTRUÇÃO

Thanos e a tirania da premissa

Quando uma experiência particular é convertida em verdade universal, a conclusão pode parecer necessária justamente porque tudo aquilo que poderia contrariá-la foi excluído do raciocínio

Thanos talvez seja um dos personagens mais interessantes do Universo Cinematográfico Marvel precisamente porque o seu problema não está na ausência de racionalidade, mas na presença de uma racionalidade fechada sobre si mesma. Ele não é apresentado como alguém movido pela riqueza, pelo prazer, pela conquista territorial ou mesmo pela pretensão convencional de governar o universo. Ao final de Vingadores: Guerra Infinita, depois de realizar aquilo a que dedicara a própria existência, ele não se senta em um trono, não exige submissão dos sobreviventes e não funda um império; retira-se para uma cabana, contempla o nascer do sol e acredita ter cumprido uma missão. Depois de assistir à ruína de Titã, convenceu-se de que o universo inteiro estava ameaçado pelo mesmo problema e passou a exterminar populações em nome daquilo que entendia como salvação. É justamente isso que o torna intelectualmente mais perturbador: Thanos não precisa mentir sobre a finalidade que persegue. É perfeitamente possível que acredite sinceramente estar fazendo o bem. O problema, portanto, não está apenas na finalidade, tampouco apenas nos meios; está na estrutura do pensamento que lhe permitiu converter uma experiência particular, cuja própria explicação causal permanece discutível, em lei geral aplicável a mundos diferentes, populações diferentes, histórias diferentes e circunstâncias absolutamente distintas. Antes de perguntar se os fins justificam os meios, é necessário formular uma pergunta ainda mais elementar: de onde vieram esses fins e por que Thanos acredita que os meios escolhidos conduzem a eles?

A reconstrução deve começar em Titã, mas já aqui surge a primeira dificuldade. O que Thanos efetivamente possui é um acontecimento: Titã entrou em colapso. Esse é o fenômeno inicial. Todo o restante já pertence ao domínio da interpretação. Do fato de que uma civilização entrou em colapso não resulta, por necessidade lógica, que o colapso tenha ocorrido porque havia população excessiva diante de recursos insuficientes; tampouco resulta automaticamente que essa escassez tenha produzido conflitos, que esses conflitos tenham sido a causa decisiva da destruição da sociedade ou, sobretudo, que a redução arbitrária de cinquenta por cento da população teria impedido o desfecho. O personagem reconstrói retrospectivamente a história de seu planeta por meio de uma cadeia causal que lhe parece evidente. A diferença metodológica é gigantesca: uma coisa é afirmar que Titã entrou em colapso; outra é afirmar que Titã entrou em colapso por excesso populacional; outra, ainda mais distante, é concluir que Titã teria sobrevivido caso metade de sua população tivesse sido eliminada. A primeira proposição descreve um acontecimento. A segunda atribui causalidade. A terceira constrói um contrafactual. Thanos trata as três como se fossem uma única verdade.

O esquema, então, começa precisamente aqui:

Titã colapsou ↓ Thanos atribui o colapso ao excesso de população diante de recursos limitados ↓ Excesso populacional + escassez de recursos teriam produzido conflito e guerra ↓ Thanos conclui que reduzir a população teria evitado o colapso ↓ Uma explicação possível é convertida em explicação verdadeira ↓ Uma solução hipotética é convertida em solução comprovada ↓ A experiência de um planeta é generalizada para outros planetas ↓ Planetas diferentes passam a ser tratados como se reproduzissem o mesmo fenômeno de Titã ↓ A eliminação de metade da população transforma-se em regra universal ↓ Com as Joias do Infinito, a regra universal deixa de ser aplicada planeta por planeta e passa a ser executada sobre metade de toda a vida do universo ↓ Uma premissa particular, possivelmente incompleta e talvez falsa, produz aquilo que Thanos passa a tratar como uma conclusão necessária.

É difícil não perceber aí uma versão extrema, quase caricatural, do problema malthusiano. Thomas Robert Malthus, no Ensaio sobre o Princípio da População, construiu sua célebre preocupação a partir da diferença entre o potencial de crescimento populacional e a capacidade de expansão dos meios de subsistência. Não é necessário transformar Thanos em leitor de Malthus para perceber a afinidade estrutural: população cresce, recursos possuem limites, a desproporção produz sofrimento e mecanismos de contenção. A aproximação, contudo, deve terminar aí. Malthus procurava formular uma teoria sobre dinâmica populacional; Thanos converte um diagnóstico semelhante em autorização para uma política universal de extermínio. E é exatamente nessa passagem que surge o problema mais grave. Mesmo que se concedesse, apenas para argumentar, que Titã efetivamente tivesse colapsado por uma relação entre crescimento populacional e escassez, disso não decorreria que todos os planetas estivessem na mesma situação; e, mesmo que determinado planeta enfrentasse efetivamente escassez decorrente de excesso populacional, disso não decorreria que a eliminação de metade de sua população fosse a única resposta possível, a melhor resposta possível ou sequer uma resposta adequada. Entre o diagnóstico e a medida existe um universo inteiro de alternativas que Thanos simplesmente elimina.

Esse ponto permite compreender por que Aristóteles constitui um contraponto quase perfeito ao Titã Louco. Na Política, Aristóteles não procura simplesmente descobrir abstratamente a melhor forma de governo e impô-la indiferentemente a qualquer comunidade. Sua classificação distingue governos de um, de poucos ou de muitos e combina esse critério com a orientação do poder para o bem comum ou para interesses particulares. Mais importante do que decorar sua classificação é perceber o método: a investigação aristotélica considera as condições concretas da comunidade política e admite que a melhor constituição possível para uma cidade determinada não corresponda ao modelo ideal em abstrato. Há população, distribuição de riqueza, composição social, costumes e condições historicamente determinadas. Em outras palavras, Aristóteles pergunta pelo objeto antes de prescrever a solução. Thanos procede ao contrário: possui antecipadamente a solução e passa a reconstruir todos os objetos de maneira que caibam nela.

É precisamente nesse sentido que a história das formas de governo oferece uma refutação intelectual do método thanosiano. Maquiavel, séculos depois, reorganiza o problema já nas primeiras linhas de O Príncipe, reduzindo a grande classificação à distinção fundamental entre repúblicas e principados; mas O Príncipe não esgota Maquiavel, e talvez seja justamente a leitura isolada dessa obra que tenha produzido uma das maiores caricaturas da história da teoria política. O texto foi dedicado a Lorenzo de’ Medici e deve ser compreendido dentro das circunstâncias políticas e pessoais do autor, afastado do serviço público depois da restauração dos Médici em Florença. Nos Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, emerge com ainda maior clareza a dimensão republicana de seu pensamento, a preocupação com liberdade, conflito, instituições, corrupção e conservação da república. A conhecida fórmula segundo a qual os fins justificam os meios, incessantemente atribuída a Maquiavel, sequer corresponde a uma frase literal de O Príncipe. Reduzi-lo a isso empobrece justamente um autor que, além de O Príncipe e dos Discursos, escreveu a História de Florença, A Arte da Guerra e uma obra literária extraordinária como A Mandrágora. O Maquiavel interessante para pensar Thanos não é a caricatura daquele que permite qualquer atrocidade em nome de uma finalidade, mas o observador que estuda povos, conflitos, instituições, circunstâncias, virtù, fortuna e diferentes modos de aquisição e conservação do poder. Thanos, paradoxalmente, é muito menos maquiaveliano do que parece: sua regra é rígida demais para um pensamento político fundado na extraordinária importância das circunstâncias.

Montesquieu aprofunda ainda mais essa objeção. Do Espírito das Leis é, entre muitas outras coisas, uma monumental tentativa de compreender por que instituições e leis não podem ser adequadamente examinadas fora do complexo de relações no qual existem. Forma de governo, extensão territorial, costumes, economia, religião, comércio, condições geográficas e clima entram no esforço explicativo. Algumas das formulações climáticas de Montesquieu evidentemente pertencem ao horizonte intelectual de seu tempo e foram posteriormente criticadas, mas a intuição metodológica continua poderosa: uma instituição que funciona em determinado contexto não pode ser transplantada mecanicamente para outro e presumida igualmente adequada. Rousseau, por caminho próprio, também reconhece em Do Contrato Social que nem toda forma de governo convém a todos os países, relacionando diferenças políticas a condições materiais, riqueza, território e clima. É importante distinguir os dois autores: a grande sistematização da relação entre clima, leis e formas políticas é sobretudo montesquiana; Rousseau, porém, igualmente recusa a ideia de uma forma institucional universalmente apropriada. Thanos faz exatamente o que esses autores nos ensinam a não fazer: encontra uma resposta supostamente adequada à experiência de uma sociedade e a universaliza sem reconstruir as condições das demais.

Vico e Hegel permitem levar a crítica ainda mais longe, porque introduzem o tempo naquilo que Thanos transforma em estrutura imóvel. A Ciência Nova de Giambattista Vico pensa povos e instituições em desenvolvimento histórico, articulando transformações de mentalidades, linguagens, direitos e formas políticas. Hegel, por sua vez, elabora uma compreensão declaradamente histórica da realização da liberdade, na qual as formas políticas somente podem ser compreendidas dentro do desenvolvimento histórico do espírito. Em sua filosofia da história, o Oriente aparece associado à experiência inicial do despotismo, enquanto o desenvolvimento histórico da liberdade avança por diferentes formas e alcança configurações distintas no mundo europeu, reservando-se ainda à América uma abertura para aquilo que pertenceria ao futuro. Pode-se discordar de inúmeros aspectos dessa construção, mas seu contraste com Thanos é especialmente produtivo: aquilo que para Hegel é processo, para Thanos é repetição. O Titã Louco olha para civilizações diferentes e não enxerga histórias; enxerga cópias de Titã. Não reconhece desenvolvimento, aprendizagem institucional, transformação tecnológica, reorganização econômica, mudança cultural ou capacidade política. Onde existe multiplicidade fenomenológica, ele vê identidade causal.

Isso nos leva à pergunta que provavelmente é mais devastadora para o raciocínio de Thanos: por que cinquenta por cento? Mesmo aceitando todas as premissas anteriores, por que metade? Por que não dez por cento, vinte por cento ou sessenta por cento? Por que uma população deveria ser reduzida independentemente da proporção entre habitantes e recursos daquele planeta? Por que eliminar metade de um mundo abundantemente sustentável produziria algum benefício? Por que eliminar metade de outro mundo cuja população já estivesse abaixo da capacidade de suporte não agravaria sua situação? O critério aparentemente justo de Thanos, aleatório e sem distinguir ricos e pobres, é precisamente aquilo que revela sua absoluta insensibilidade ao fenômeno. Ele trata igualmente situações desiguais. A aleatoriedade pode retirar do procedimento uma escolha discriminatória entre indivíduos, mas não lhe confere racionalidade. Uma amputação aleatoriamente distribuída continua sendo uma amputação; o fato de o médico sortear qual membro remover não transforma a cirurgia em tratamento adequado.

Existe uma objeção ainda mais forte. Nem todos os mundos sujeitos à política de Thanos necessariamente enfrentavam superpopulação, falta de recursos ou guerras produzidas pela disputa desses recursos. Pode-se perfeitamente imaginar civilizações que houvessem atingido populações elevadas e aprendido a conviver com isso por meio de tecnologia, organização econômica, distribuição, expansão territorial ou formas institucionais capazes de administrar pacificamente a escassez. Mesmo diante de recursos efetivamente limitados, o conflito não é uma consequência necessária. Sociedades podem cooperar. Podem alterar hábitos. Podem redistribuir. Podem inovar. Podem estabelecer limites ao crescimento populacional por meios voluntários. Podem desenvolver novas fontes de energia. Podem migrar. Podem comerciar. Podem reorganizar suas instituições. Portanto, mesmo a sequência excesso populacional, escassez, conflito e colapso não possui a necessidade que Thanos lhe atribui. Ela é, no máximo, uma das trajetórias possíveis.

Há ainda um problema empírico extraordinariamente grave. Antes de possuir as Joias do Infinito, Thanos já executava sua política planeta por planeta. Ele, portanto, dispunha de algo que o formulador inicial de uma hipótese ainda não possuiria: resultados posteriores à intervenção. Isso deveria produzir aquilo que qualquer método minimamente sério exigiria: retorno ao fenômeno, verificação da hipótese, comparação entre previsão e resultado e revisão das premissas diante da experiência. Se a intervenção não eliminasse fome, guerra, desigualdade ou conflito, a hipótese teria de ser reconsiderada. Se os mundos reconstruíssem suas populações e reproduzissem os mesmos problemas, a solução demonstraria caráter apenas temporário. Se determinados planetas jamais tivessem experimentado o problema diagnosticado em Titã, a universalidade da tese cairia por terra. Thanos, contudo, continua. Aquilo que deveria funcionar como experiência capaz de corrigir a teoria transforma-se em simples etapa de execução da teoria.

É justamente esse ponto que torna a afirmação de Thanos de que somente ele sabe tão interessante. Pode haver nela uma informação oculta, algo que efetivamente somente ele conhecesse; mas pode haver também algo muito mais perturbador: a transformação de uma interpretação pessoal em monopólio da verdade. Thanos não parece um personagem habituado ao diálogo porque o diálogo colocaria sua própria premissa em risco. Gadamer lembraria que compreender implica abertura para aquilo que o outro e o próprio objeto podem dizer contra nossas antecipações. A pré-compreensão não precisa desaparecer, porque isso seria impossível, mas precisa permanecer exposta à possibilidade de revisão. Thanos faz o inverso. Seu horizonte não se funde com o horizonte dos outros mundos; ele os absorve. Titã torna-se a medida do universo. Sua experiência deixa de constituir uma perspectiva e converte-se no próprio critério de realidade. Ele não reconstrói o fenômeno porque já conhece, antes de observá-lo, aquilo que pretende encontrar.

Existe, entretanto, uma hipótese fascinante que Eternos tornou inevitável discutir. Descobre-se no filme que os Celestiais implantam sementes em planetas e que a Emergência depende do desenvolvimento de uma população inteligente suficientemente numerosa para fornecer a energia necessária ao nascimento de um novo Celestial. A Emergência de Tiamut destruiria a Terra. O estalo de Thanos retardou esse processo e a posterior restauração das pessoas fez a população terrestre voltar a atingir o estágio necessário à Emergência. Ajak, impressionada justamente pela capacidade da humanidade de lutar para trazer de volta aqueles que haviam desaparecido, decide que aquele mundo merece ser preservado. Surge daí uma hipótese tentadora: e se aquilo que somente Thanos sabia não fosse apenas a escassez de recursos? E se ele conhecesse o mecanismo dos Celestiais e soubesse que populações crescentes aproximavam determinados mundos de sua destruição pela Emergência?

A hipótese é extraordinária para fins interpretativos, mas deve permanecer exatamente onde a evidência a coloca: como hipótese. Sabemos que a redução da população retardou a Emergência da Terra. Não sabemos que Thanos tenha realizado o estalo com essa finalidade. Confundir esses dois enunciados seria repetir justamente o erro que estamos atribuindo ao personagem: tomar uma inferência possível e convertêla em fato demonstrado. E mesmo que uma obra futura revelasse que Thanos conhecia os Celestiais, o problema metodológico não desapareceria. Pelo contrário, ganharia uma nova forma. Reduzir a população pela metade impediria definitivamente uma Emergência? Não. No máximo retardaria o momento em que a população voltasse a atingir o limiar necessário. O próprio caso terrestre demonstra a precariedade da solução: as pessoas retornaram e o processo foi retomado. Nesse cenário, Thanos não teria criado uma solução, mas uma moratória paga com incontáveis vidas. Teria confundido adiamento com resolução.

Essa distinção é central também no Direito. Uma medida pode produzir temporariamente determinado efeito e ainda assim ser incapaz de resolver o problema que a justificou. Pode afastar um sintoma sem enfrentar sua causa. Pode interromper uma consequência e conservar intacta a estrutura que a reproduz. Pode, inclusive, criar danos superiores àqueles que pretendia evitar. O Direito, sobretudo quando interfere intensamente na liberdade, no patrimônio ou em outros direitos fundamentais, não pode contentar-se com a identificação de uma finalidade legítima. A pergunta seguinte é inevitável: o meio escolhido é adequado para promovêla? Existe outro meio menos gravoso capaz de produzir resultado equivalente ou superior? O sacrifício imposto mantém relação justificável com o benefício pretendido? A teoria da proporcionalidade torna particularmente clara essa estrutura. Thanos fracassa já na adequação quando não demonstra que seu método resolve aquilo que pretende resolver; fracassa na necessidade porque sequer examina alternativas; e explode qualquer ideia de proporcionalidade em sentido estrito porque transforma incontáveis vidas conscientes em instrumento de uma política cuja eficácia permanente não demonstrou.

Suponha-se um planeta efetivamente ameaçado por escassez. Antes do extermínio, existiriam perguntas quase ilimitadas: é possível aumentar a produção? Redistribuir recursos? Alterar o regime de propriedade? Desenvolver novas tecnologias? Explorar fontes energéticas diferentes? Estabelecer intercâmbio com outros mundos? Reduzir desperdícios? Modificar instituições? Reformar o governo? Reorganizar incentivos econômicos? Controlar voluntariamente a taxa de crescimento populacional? Migrar parte da população? Expandir territorialmente a civilização? Em um universo no qual existem viagens interestelares, tecnologia extraordinária e, finalmente, seis Joias capazes de reconfigurar a própria realidade, a pobreza imaginativa da solução de Thanos torna-se ainda mais impressionante. Ele obtém poder praticamente ilimitado e continua aprisionado à solução que concebera quando ainda não possuía esse poder. Poderia aumentar recursos; prefere diminuir pessoas. Poderia reconstruir condições materiais; prefere destruir sujeitos. Poderia utilizar as Joias para responder às necessidades diferentes de mundos diferentes; prefere uma operação aritmética universal. A onipotência instrumental não corrige a pobreza metodológica.

O problema aparece de maneira semelhante em Inferno, de Dan Brown. Bertrand Zobrist parte da preocupação com a superpopulação e leva uma lógica populacional ao extremo, desenvolvendo uma intervenção biológica de alcance global. A semelhança com Thanos não está somente na obsessão malthusiana, mas sobretudo na estrutura paternalista da decisão: alguém se atribui conhecimento suficiente para escolher unilateralmente aquilo que deverá acontecer à humanidade inteira. O indivíduo deixa de ser sujeito e torna-se variável. Pessoas transformam-se em números; números, em curvas populacionais; curvas, em problemas de otimização; e a intervenção sobre seres humanos passa a ser defendida pela magnitude do resultado projetado. O perigo aparece exatamente quando uma abstração verdadeira em alguma medida — recursos são finitos, populações exercem pressão sobre recursos, instituições podem entrar em colapso — deixa de ser uma informação relevante para transformar-se em autorização automática para uma conclusão que já estava desejada.

É inevitável, então, aproximar o problema da velha fórmula atribuída a Maquiavel segundo a qual os fins justificariam os meios, ainda que essa redução jamais faça justiça à complexidade do pensamento maquiaveliano. Antes mesmo de discutir se determinada finalidade pode justificar determinado meio, existe uma questão anterior que Thanos ignora: esse meio efetivamente conduz ao fim alegado? Porque não basta apresentar uma finalidade elevada para legitimar qualquer caminho. Se o extermínio de metade da população não resolve permanentemente a escassez, se a população pode voltar a crescer, se guerras podem decorrer de motivos inteiramente distintos, se a desigualdade pode permanecer entre os sobreviventes, se os sistemas políticos responsáveis por conflitos continuam os mesmos e se a distribuição dos recursos permanece intacta, então a relação instrumental entre meio e fim sequer foi demonstrada. A fórmula já nasce defeituosa antes de chegar ao problema moral. Não se sabe se os meios produzem os fins.

David Hume oferece aqui uma advertência decisiva. Proposições sobre aquilo que é não produzem sozinhas proposições sobre aquilo que deve ser. Ainda que fosse empiricamente verdadeiro que determinado planeta possui habitantes em número superior à sua capacidade material, não nasce desse fato a norma segundo a qual metade deles deve morrer. Entre o ser e o dever-ser existe uma premissa normativa que precisa ser revelada. Thanos a esconde. Sua estrutura argumentativa parece ser apenas factual — população, recursos, equilíbrio —, mas depende de uma proposição moral colossal: seria legítimo sacrificar aleatoriamente seres conscientes contra sua vontade para maximizar a sobrevivência futura dos demais. Essa proposição não é conclusão científica de nenhuma teoria demográfica. É uma escolha moral anterior, que Thanos introduz silenciosamente no raciocínio e depois apresenta como se fosse consequência inevitável dos números.

Kelsen, por outro caminho, também ajudaria a desnudar a operação. Nenhuma descrição causal do mundo produz, por si mesma, validade normativa. O universo do ser e o universo do dever-ser não se confundem simplesmente. No Direito, uma premissa fática verdadeira não basta para determinar uma consequência jurídica sem que se identifique a norma que conecta fato e consequência. No raciocínio de Thanos ocorre justamente uma fusão clandestina dos planos: há escassez; portanto é necessário reduzir pessoas. É necessário reduzir pessoas; portanto é legítimo matá-las. É legítimo matá-las; portanto metade deve morrer. Metade deve morrer; portanto aquele que possui o poder de fazê-lo tem o dever de fazê-lo. Finalmente, quem se opõe à execução apenas não compreendeu a verdade. Cada passagem contém uma nova premissa. Thanos, contudo, apaga as passagens intermediárias e apresenta somente o início e o fim.

Esse é um perigo cotidiano do raciocínio jurídico. Uma decisão pode possuir aparência formalmente impecável porque a conclusão segue logicamente das premissas escolhidas e ainda assim estar completamente errada porque as premissas foram mal reconstruídas. O silogismo não salva quem errou o ponto de partida. Se a premissa maior não é aplicável, se a premissa menor descreve inadequadamente os fatos ou se elementos relevantes foram excluídos da reconstrução, a perfeição inferencial apenas conduz com maior eficiência ao erro. É perfeitamente possível raciocinar corretamente a partir de premissas falsas. Mais perigoso ainda é raciocinar corretamente a partir de premissas verdadeiras cujo âmbito de validade foi indevidamente universalizado. Titã pode realmente ter entrado em colapso. Isso não significa que a explicação oferecida por Thanos seja verdadeira. Mesmo que seja verdadeira para Titã, não significa que seja verdadeira para todos os mundos. Mesmo que seja verdadeira para vários mundos, não significa que a mesma resposta seja adequada a todos. E mesmo que determinada redução populacional produzisse algum benefício temporário, ainda não decorreria daí que matar exatamente metade dos habitantes fosse uma conclusão necessária.

A Reconstrução Fenomenológica Aplicada encontra aí um exemplo quase didático daquilo que pretende impedir. Antes da conclusão necessária, existe reconstrução. Antes da aplicação, existe fenômeno. Antes da regra, existem condições de incidência. Antes de afirmar que determinado sentido deve prevalecer, é necessário identificar aquilo que foi observado, aquilo que foi inferido, aquilo que permanece desconhecido, aquilo que foi silenciado e aquilo que foi acrescentado pelo próprio intérprete. A conclusão necessária não é aquela afirmada com maior convicção. Tampouco é aquela para a qual se dispõe de maior poder de execução. Necessidade conclusiva é produto de uma estrutura na qual as premissas relevantes foram suficientemente reconstruídas, as relações entre elas foram demonstradas, alternativas foram submetidas à crítica e a conclusão restante é aquela que resiste ao processo. Thanos faz quase exatamente o inverso: começa pela conclusão, reconstrói Titã em função dela e, depois, reconstrói o universo inteiro à imagem de Titã.

No Direito, isso corresponde ao juiz que decide primeiro e seleciona depois os fatos e precedentes capazes de ornamentar a decisão; ao advogado que encontra uma tese conveniente e força o caso concreto a caber nela; ao intérprete que transforma um precedente produzido sob circunstâncias específicas em regra universal sem reconstruir sua razão de decidir; ao legislador que observa o fracasso de uma política pública em determinado contexto e presume que a mesma causa explica fenômenos semelhantes em qualquer lugar; ou ao jurista que confunde repetição de enunciados com demonstração. O precedente, aliás, permite enxergar de forma exemplar o defeito thanosiano. Decisões judiciais não deveriam ser aplicadas porque duas causas possuem palavras semelhantes. É necessário perguntar quais fatos foram juridicamente relevantes, qual problema estava sendo solucionado, quais normas incidiam, quais razões sustentaram a conclusão e se essas razões permanecem compatíveis com o novo caso. Sem reconstrução, analogia vira identidade imaginária. Thanos é o intérprete que encontra um precedente chamado Titã e passa a aplicá-lo a todo o universo.

Stephen Toulmin também permite perceber o elemento ausente. Entre os dados e a conclusão existe uma garantia que autoriza a passagem de um para outro, e essa garantia pode, ela própria, exigir suporte. Thanos possui o dado de que Titã colapsou e deseja chegar à conclusão de que metade do universo deve desaparecer. Entre uma proposição e outra existe uma quantidade gigantesca de garantias não demonstradas. Titã colapsou porque havia população excessiva. A população excessiva necessariamente gera colapso. A redução populacional necessariamente impede esse colapso. Cinquenta por cento é a proporção adequada. Todos os mundos encontram-se submetidos à mesma relação causal. Nenhuma solução menos destrutiva alcançaria o mesmo resultado. A preservação futura dos sobreviventes legitima moralmente o extermínio dos demais. Thanos não demonstra nenhuma dessas proposições porque sua certeza subjetiva ocupa o lugar do ônus argumentativo.

Surge um aspecto extremamente relevante de todo o personagem: o poder transforma erro metodológico em tragédia quando elimina os mecanismos capazes de corrigi-lo. Uma pessoa comum pode estar absolutamente convencida de uma premissa falsa e produzir danos limitados. Um magistrado, um governante, uma instituição ou um ser com as seis Joias do Infinito pode converter a mesma certeza epistemologicamente defeituosa em realidade para milhões ou trilhões de pessoas. Quanto maior o poder de produzir consequências, maior deveria ser a exigência de reconstrução, contraditório, revisão e justificação. Thanos possui poder quase absoluto e, justamente por isso, não precisa convencer ninguém. A falta de diálogo não é um traço lateral de sua personalidade; integra o problema. Ele não possui tribunal, oposição, revisão, contraditório, controle, comunidade científica ou população capaz de rejeitar sua política. Ele acumula simultaneamente diagnóstico, norma, julgamento e execução.

Talvez seja essa a distância definitiva entre Thanos e o Direito. O Direito moderno não existe apenas para produzir decisões; existe também para impedir que a certeza individual de alguém adquira imediatamente força sobre a vida dos demais. Contraditório, fundamentação, competência, procedimento, recurso, prova, proporcionalidade, legalidade e controle não são obstáculos burocráticos colocados entre a autoridade e a boa solução. São tecnologias civilizatórias desenvolvidas porque seres humanos erram, porque autoridades erram e, sobretudo, porque autoridades absolutamente convencidas de que não erram podem ser extraordinariamente perigosas. Aquele que verdadeiramente possui uma conclusão necessária não deveria temer a reconstrução que a testa. Se a conclusão somente permanece necessária enquanto perguntas são proibidas, alternativas são descartadas e premissas permanecem ocultas, provavelmente nunca houve necessidade lógica; houve apenas poder.

É nesse sentido que a eventual bondade da finalidade de Thanos não o absolve metodologicamente. Admitamos, no grau máximo de generosidade possível, que ele queira efetivamente preservar a vida. Ainda assim, uma boa finalidade não transforma uma premissa falsa em verdadeira, não transforma uma generalização indevida em universal válido, não torna adequado um meio inadequado, não transforma uma medida temporária em solução permanente e não elimina alternativas que jamais foram examinadas. Os fins não possuem a capacidade mágica de retroagir sobre a estrutura argumentativa e torná-la correta. Antes mesmo de perguntar se um fim pode justificar determinado meio, é necessário verificar se o meio conduz realmente ao fim, se o fim foi adequadamente identificado, se o problema existe nos termos em que foi descrito e se a própria relação entre problema e finalidade não nasceu de uma reconstrução defeituosa.

Provavelmente, por isso, o epíteto Titã Louco seja intelectualmente mais preciso do que parece. A loucura de Thanos não consiste necessariamente em ausência de lógica. Consiste numa lógica que perdeu o mundo. Ele possui uma teoria suficientemente organizada para explicar tudo, mas justamente por explicar tudo tornou-se incapaz de aprender qualquer coisa. Possui uma premissa para Titã e encontra Titã em todos os lugares. Possui uma solução e encontra em todos os fenômenos o problema que a solução exige. Possui uma finalidade e converte cada vida concreta em unidade estatística sacrificável diante dela. Quando finalmente adquire as Joias do Infinito, recebe poder suficiente para remodelar o universo, mas não adquire aquilo que lhe faltava desde o começo: dúvida.

Talvez seja essa a principal aproximação entre Thanos, o Direito e o método. O grande erro intelectual nem sempre está na conclusão absurda. Frequentemente ele começou muito antes, quando uma interpretação foi tratada como fato, uma hipótese como certeza, uma experiência como regra, uma regra como universal e uma possibilidade como necessidade. Quando finalmente chegamos à conclusão, ela parece inevitável porque todas as alternativas foram eliminadas durante o caminho. A Reconstrução Fenomenológica Aplicada exige percorrer justamente o percurso inverso: retornar ao fenômeno, separar acontecimento de interpretação, reconstruir as premissas, identificar os saltos inferenciais, verificar o âmbito de validade das regras, procurar elementos ausentes, confrontar explicações concorrentes, testar a compatibilidade da aplicação e somente então alcançar a conclusão. Não para impedir conclusões firmes, mas para permitir que sejam verdadeiramente firmes.

Thanos diz, em essência, que somente ele sabe. Talvez essa seja sua frase mais reveladora. Porque aquele que somente sabe não pergunta; aquele que não pergunta não reconstrói; aquele que não reconstrói não percebe aquilo que sua própria premissa deixou de fora. E quem dispõe de poder suficiente pode então fazer algo ainda mais perigoso do que cometer um erro: pode transformar o próprio erro em realidade e, depois, apontar para a realidade que produziu como prova de que sempre esteve certo.

O estalo, nesse sentido, é apenas o último ato. A verdadeira tragédia ocorreu muito antes, no momento em que Thanos olhou para as ruínas de Titã, construiu uma explicação e decidiu que nunca mais precisaria submetê-la a qualquer pergunta.

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