NOTA · PODER, VONTADE E MANIPULAÇÃO
O poder que não precisa mandar
Quando a vontade de quem obedece se torna o instrumento mais eficiente da vontade de quem domina
O poder costuma ser reconhecido por seus sinais mais grosseiros. Uma ordem, uma ameaça, uma sanção, uma arma, uma hierarquia, uma dependência econômica, uma autoridade capaz de fazer prevalecer aquilo que deseja independentemente da concordância daquele sobre quem atua. Nesse sentido elementar, poder é capacidade de imposição. Alguém deseja uma coisa, outro deseja algo diferente, e a vontade mais forte prevalece. Não há grande mistério nessa estrutura. A dominação é visível precisamente porque existe resistência. Quem obedece sabe que não queria obedecer; quem cede sabe que cedeu; quem suporta uma imposição percebe, ao menos em alguma medida, que uma vontade exterior venceu a sua. A força possui, portanto, uma estranha limitação: ainda que consiga controlar o comportamento, conserva intacta a consciência da derrota. Pode conquistar o corpo sem conquistar o julgamento, obter a conduta sem obter adesão, produzir silêncio sem produzir convencimento. Por isso, apesar de sua aparência impressionante, talvez a força represente uma das formas menos sofisticadas de poder.
A coerção é também dispendiosa. Toda vontade vencida permanece potencialmente resistente. Aquele que age apenas porque teme uma consequência precisa continuar temendo; aquele que obedece somente porque existe fiscalização precisa continuar sendo fiscalizado; aquele que se submete em razão da ameaça pode deixar de fazê-lo quando a ameaça desaparece. O poder ostensivo necessita renovar constantemente as condições de sua própria eficácia. Precisa vigiar, advertir, punir, recordar sua existência. Quanto mais frequentemente necessita demonstrar força, mais evidente se torna que a vontade daquele sobre quem incide nunca foi verdadeiramente incorporada ao mecanismo. Existe obediência, mas não colaboração. Existe submissão, mas permanece um adversário.
Há, contudo, um poder de natureza muito mais sofisticada. Ele não pretende simplesmente vencer uma vontade contrária. Procura atuar antes que essa vontade se consolide. Em vez de ordenar ao outro que faça determinada coisa, organiza as condições dentro das quais determinada coisa será percebida pelo outro como desejável. Não substitui necessariamente a liberdade de escolha por coerção; interfere na arquitetura pela qual a escolha é formada. Modifica informações, incentivos, expectativas, medos, conceitos, comparações, alternativas e interpretações até que a vontade daquele sobre quem se exerce o poder passe a apontar espontaneamente para o resultado desejado por quem o exerce.
A diferença é profunda. No poder rudimentar, A deseja X, B deseja Y e A dispõe de meios suficientes para obrigar B a realizar X. No poder sofisticado, A continua desejando X, mas já não necessita obrigar B. Basta fazer com que B passe a desejar X também. O resultado exterior pode ser exatamente o mesmo, mas a estrutura interna da relação foi transformada. Na primeira hipótese, B pensa: “não quero, mas preciso fazer”. Na segunda: “é exatamente isso que quero”. A obediência desaparece da experiência subjetiva porque aquilo que objetivamente realiza o interesse alheio passa a ser experimentado como expressão da própria autonomia.
Esse segundo modelo contém, porém, uma possibilidade ainda mais inquietante. Nem sempre aquilo que A pretende que B faça é também benéfico para B. O poder sofisticado pode alcançar seu grau máximo precisamente quando consegue produzir uma inversão: aquilo que prejudica o sujeito passa a ser percebido por ele como aquilo que o beneficia. Nesse caso, B não apenas executa uma vontade exterior sem percebê-la como exterior. Pode empenhar-se sinceramente na realização de uma conduta contrária aos próprios interesses, defendê-la, justificá-la, desejá-la e até resistir a qualquer tentativa de mostrar-lhe o dano que produz. O dominado já não precisa ser arrastado para aquilo que lhe faz mal. Caminha sozinho. Mais do que isso: pode considerar violência qualquer tentativa de impedi-lo de continuar caminhando.
É nesse ponto que o poder deixa de ser mera capacidade de imposição e se aproxima da capacidade de organizar a percepção do real. Quem controla apenas o comportamento precisa agir continuamente sobre ações. Quem consegue influenciar as categorias pelas quais o outro interpreta benefício, prejuízo, liberdade, necessidade, sucesso, fracasso, segurança ou perigo atua em nível anterior à própria decisão. Não precisa determinar cada resposta individual se conseguiu previamente participar da formação das perguntas. Não precisa escolher pelo outro se delimitou o campo no qual as alternativas aparecem. Não precisa dizer qual caminho deve ser seguido quando conseguiu fazer com que todos os demais pareçam absurdos, perigosos ou inexistentes.
A questão central deixa, então, de ser simplesmente se houve liberdade formal. Alguém pode ter escolhido sem qualquer arma apontada para si e ainda assim ter realizado uma decisão profundamente condicionada. Pode ter selecionado livremente uma das alternativas que lhe foram apresentadas sem jamais perceber que a seleção das alternativas já constituía uma forma de poder. Pode ter recebido informações verdadeiras, mas incompletas; argumentos corretos, mas dispostos de maneira assimétrica; possibilidades reais, mas apresentadas com valores emocionais inteiramente diferentes. A escolha existe, mas sua arquitetura pode ter sido cuidadosamente organizada.
Por isso, a pergunta “ele escolheu?” é insuficiente. É preciso perguntar também quem definiu aquilo entre o que ele poderia escolher, quem nomeou os riscos, quem apresentou os benefícios, quem decidiu aquilo que permaneceria invisível, quem construiu as premissas a partir das quais uma determinada conclusão pareceria inevitável e, sobretudo, quem se beneficia quando a decisão é tomada. A liberdade não desaparece necessariamente porque alguém interferiu nesse campo, mas sua existência formal já não basta para demonstrar autonomia substancial. A vontade pode continuar sendo juridicamente imputável ao sujeito enquanto sua formação revela uma sucessão de influências, assimetrias e escolhas anteriores que jamais foram por ele percebidas.
Max Weber oferece o ponto de partida ao compreender o poder como possibilidade de fazer prevalecer a própria vontade apesar da resistência. Dahl também permanece próximo dessa estrutura ao observar que A exerce poder sobre B quando consegue fazer com que B pratique algo que, de outro modo, não praticaria. Bachrach e Baratz acrescentam uma dimensão mais sutil: há poder antes mesmo da decisão, no controle da agenda, na capacidade de impedir que determinados conflitos se tornem formuláveis. Lukes avança ainda mais ao apontar uma terceira dimensão, na qual o poder alcança a formação das próprias preferências. Nesse estágio, já não basta perguntar quem venceu a disputa. Talvez a disputa sequer tenha existido porque uma das partes aprendeu antecipadamente a desejar aquilo que convinha à outra.
Foucault percebeu com enorme precisão que o poder moderno se torna extraordinariamente eficiente quando consegue dispensar sua presença constante. O modelo disciplinar não depende apenas de uma autoridade que vigia de fora; sua perfeição surge quando o indivíduo incorpora a vigilância e passa a reproduzir sobre si mesmo a disciplina esperada. O Panóptico é tão poderoso justamente porque a fiscalização efetiva pode tornar-se secundária. Basta que exista a possibilidade de observação para que o sujeito comece a se comportar como se estivesse permanentemente sendo visto. O vigia pode retirar-se parcialmente porque deixou dentro do vigiado uma espécie de substituto funcional de si próprio.
Essa estrutura oferece uma chave fundamental para compreender o poder sofisticado: sua maior conquista consiste em transferir ao destinatário os custos da própria dominação. O sujeito fiscaliza a si mesmo, cobra de si aquilo que lhe foi exigido, pune a própria inadequação, corrige espontaneamente suas condutas e pode interpretar tudo isso como manifestação de responsabilidade pessoal. A ordem externa foi transformada em obrigação interior. O poder economiza energia porque aquele sobre quem ele incide passou a executar gratuitamente parte do trabalho necessário à sua conservação.
Gramsci percebeu fenômeno semelhante ao investigar a hegemonia. Uma ordem duradoura não pode sobreviver exclusivamente da força. Precisa conseguir que determinados interesses particulares se apresentem como interesses gerais, que determinada visão de mundo pareça simplesmente natural, que aquilo que foi construído historicamente assuma a aparência de evidência. A hegemonia é poderosa porque reduz a necessidade de coerção direta. Os próprios sujeitos reproduzem categorias que mantêm a ordem na qual estão inseridos.
Bourdieu aprofundaria essa lógica ao mostrar como a violência simbólica pode operar justamente sem ser reconhecida como violência. As classificações pelas quais interpretamos o mundo não surgem do nada. Certas hierarquias podem parecer legítimas porque os próprios instrumentos pelos quais são percebidas já foram produzidos dentro da estrutura que as sustenta. O indivíduo encontra-se então diante de uma realidade cuja organização antecede sua consciência particular e pode terminar reconhecendo como justa, natural ou inevitável uma disposição que lhe é objetivamente desfavorável.
La Boétie talvez tenha formulado uma das perguntas mais perturbadoras da teoria política: como tantos podem servir a tão poucos? A servidão voluntária revela que o poder não se sustenta apenas na superioridade física daquele que domina, mas também na colaboração de inúmeras pessoas que reproduzem o mecanismo. A tirania, nesse sentido, nunca é exclusivamente um homem acima de uma multidão. É uma cadeia de dependências, recompensas, interesses, hábitos e medos que faz a própria sociedade trabalhar na manutenção daquilo que a subordina. O dominado pode tornar-se, em alguma medida, administrador de sua própria sujeição.
Essa observação permite compreender uma forma particularmente sofisticada de domínio: a transformação do prejuízo objetivo em benefício subjetivamente percebido. A obtém uma vantagem. B sofre uma perda. Entretanto, B acredita sinceramente que a decisão lhe foi favorável. Nesse estágio, não existe apenas obediência inconsciente; existe adesão à própria lesão. A pessoa pode perder dinheiro acreditando ter feito um excelente negócio, renunciar a direitos convencida de que ganhou liberdade, aceitar uma posição inferior imaginando ter recebido proteção, afastar-se de quem lhe faria bem acreditando defender a própria felicidade, comprometer seu futuro persuadida de que está finalmente tomando as rédeas da própria vida.
O mecanismo pode ser representado de maneira simples: A deseja X; X beneficia A; X prejudica B; B, se conhecesse integralmente a estrutura da situação, tenderia a rejeitar X; A interfere nas condições pelas quais B interpreta X; B passa a considerar X benéfico; B escolhe X livremente; B sofre o prejuízo produzido por X; B continua acreditando que a decisão foi boa para si. Nesse último ponto encontra-se algo mais profundo do que a submissão. A própria percepção do dano foi neutralizada. O poder não apenas conseguiu produzir uma conduta contrária aos interesses do sujeito, mas também conseguiu interferir nos critérios pelos quais ele poderia reconhecer posteriormente que foi prejudicado. A derrota torna-se quase perfeita porque deixa de ser percebida como derrota.
Essa forma de poder não exige necessariamente mentira. Muitas vezes, seu refinamento consiste justamente em trabalhar quase exclusivamente com verdades parciais. Uma informação pode ser verdadeira e ainda assim conduzir a uma compreensão profundamente falsa quando isolada de seu contexto. Um benefício pode existir e ser cuidadosamente destacado enquanto prejuízos maiores permanecem ocultos. Uma escolha pode produzir satisfação imediata e dano futuro. Uma exceção pode ser transformada em regra, um risco reduzido pode ser apresentado como inexistente, uma probabilidade pequena pode adquirir dimensão emocional gigantesca. Manipular não significa necessariamente inventar fatos; frequentemente significa escolher quais fatos ocuparão o centro da consciência.
Nietzsche ajuda a compreender o problema quando nos obriga a perguntar pela genealogia dos valores. Aquilo que alguém percebe como evidentemente desejável pode possuir uma história que desconhece. O sujeito deseja, mas de onde veio esse desejo? Considera determinada coisa boa, mas quem lhe ensinou a reconhecer o bem naquela forma? Julga-se autônomo, mas quantas de suas preferências foram formadas antes mesmo que tivesse instrumentos para interrogá-las? Não se trata de reduzir toda vontade humana à manipulação exterior, mas de abandonar a ingenuidade de imaginar que desejos surgem isoladamente de estruturas culturais, familiares, econômicas, linguísticas e políticas.
Rousseau também oferece uma contribuição decisiva ao perceber que a desigualdade mais estável não é necessariamente aquela que depende continuamente da força, mas aquela que consegue converter relações historicamente produzidas em relações socialmente reconhecidas. O problema político torna-se então mais complexo do que simplesmente identificar quem possui armas ou autoridade formal. Há poder quando determinadas instituições conseguem produzir sujeitos capazes de desejar aquilo que mantém essas mesmas instituições funcionando.
No Direito, essa distinção tem consequências evidentes. A ordem jurídica conhece perfeitamente o poder coercitivo: obrigação, sanção, execução, restrição, nulidade, pena. Entretanto, o Direito moderno também demonstra preocupação crescente com situações nas quais existe formalmente consentimento, mas o consentimento foi obtido dentro de uma estrutura profundamente assimétrica. Vícios da vontade, erro, dolo, coação, abuso, práticas enganosas, deveres de informação, proteção do consumidor, boa-fé objetiva e controle de cláusulas abusivas partem, em níveis diferentes, de uma intuição comum: dizer “sim” não encerra necessariamente a investigação sobre a validade de uma decisão.
Esse ponto é central. O consentimento é indispensável, mas não é uma palavra mágica capaz de transformar qualquer relação em relação legítima. Uma pessoa pode consentir sem compreender, compreender parcialmente, decidir sob pressão estrutural ou avaliar incorretamente aquilo que lhe é apresentado porque alguém deliberadamente organizou as informações disponíveis. Quanto mais sofisticada a manipulação, menos aparência ela possui de coação. A liberdade formal permanece intacta enquanto sua substância pode ter sido profundamente comprometida.
O mercado oferece exemplos especialmente nítidos. A publicidade mais rudimentar diz ao consumidor que compre. A mais sofisticada procura construir uma identidade na qual determinada compra aparece como expressão de quem ele é ou de quem gostaria de ser. Plataformas não precisam mandar que alguém permaneça conectado durante horas; podem organizar estímulos capazes de tornar a permanência espontânea. Empresas não precisam necessariamente impedir que alguém cancele um serviço; podem desenhar procedimentos suficientemente inconvenientes para que a inércia se torne a escolha mais provável. A decisão final continua pertencendo ao usuário, mas a arquitetura que torna uma decisão mais fácil do que outra não é neutra.
Nas relações pessoais, a estrutura pode tornar-se ainda mais delicada porque o poder opera através de elementos emocionalmente intensos: afeto, medo de abandono, culpa, necessidade de aprovação, dependência, esperança, promessa de futuro. Uma pessoa pode ordenar explicitamente que outra faça determinada coisa. Essa é a modalidade mais simples. Muito mais eficiente é criar uma relação na qual o outro aprenda a antecipar desejos, evitar conflitos, ajustar espontaneamente comportamentos e interpretar essas adaptações como demonstrações livres de amor, lealdade ou cuidado. Aquele que domina já não precisa pedir. O outro aprendeu sozinho aquilo que deve fazer.
Byung-Chul Han percebe um aspecto contemporâneo dessa estrutura ao sugerir que certas formas de poder transformam obrigação em projeto pessoal. O sujeito acredita estar apenas perseguindo suas próprias metas enquanto reproduz exigências externas de produtividade, exposição e desempenho. Torna-se simultaneamente explorador e explorado. A lógica é importante justamente porque mostra que a ausência de um senhor visível não elimina necessariamente a relação de poder. A forma mais eficiente de comando pode ser aquela na qual o comando já não precisa possuir voz.
Há, entretanto, uma distinção indispensável. Nem toda influência é manipulação. Toda convivência humana altera vontades. Pais influenciam filhos, professores transformam alunos, amigos modificam decisões, livros alteram convicções, argumentos reorganizam pensamentos. Persuadir alguém oferecendo razões que podem ser livremente examinadas não equivale a controlar silenciosamente as condições de sua decisão. A diferença fundamental está no respeito à capacidade do outro de compreender o jogo no qual participa. Persuasão procura apresentar razões. Manipulação procura produzir uma conclusão. Persuasão aceita a possibilidade de fracasso. Manipulação estrutura as condições para tornar determinada resposta mais provável. Persuasão dialoga com a autonomia. Manipulação utiliza a aparência de autonomia como instrumento.
Por isso, talvez seja possível imaginar uma escala. A força atua contra a vontade; a coerção restringe alternativas; a autoridade obtém obediência; a persuasão modifica juízos; a hegemonia organiza horizontes de interpretação; a manipulação interfere na formação da própria vontade. O estágio extremo ocorre quando essa vontade modificada conduz o sujeito ao prejuízo e, ainda assim, ele interpreta a perda como benefício. Nesse ponto, o poder alcança algo que a força jamais conseguiria produzir sozinha: uma espécie de cumplicidade subjetiva com a própria derrota. Aquele que sofre o dano não apenas participa da ação que o produz, mas pode defendê-la contra terceiros, agradecer a quem o prejudicou, acreditar que finalmente foi ouvido, respeitado, libertado ou beneficiado e transformar qualquer advertência externa em ameaça à decisão que imagina exclusivamente sua. A manipulação tornou-se tão eficiente que aquele sobre quem ela incide passa a proteger o próprio mecanismo que o prejudica.
É justamente por essa razão que o poder sofisticado pode ser muito mais perigoso do que a violência ostensiva. A violência produz uma oposição reconhecível entre aquele que agride e aquele que sofre a agressão; a manipulação pode produzir dano enquanto obscurece a própria origem desse dano. A primeira tende a permitir que a vítima identifique contra quem ou contra o que deve resistir; a segunda pode levá-la a resistir justamente àqueles que tentam revelar a estrutura que a prejudica. Não se trata apenas de fazer alguém obedecer sem perceber que obedece, mas de alcançar uma situação muito mais profunda, na qual o indivíduo participa ativamente da produção da própria perda e continua convencido de que está promovendo o próprio bem. A força precisa vencer aquele que resiste; o poder sofisticado pode conseguir algo extraordinariamente mais eficiente: fazer desaparecer a própria razão pela qual alguém resistiria.
Hannah Arendt certamente advertiria contra a utilização indiscriminada da palavra poder, sobretudo porque distingue poder de violência e associa o primeiro à capacidade coletiva de agir em conjunto. Sua objeção é valiosa porque recorda que nem todo poder deve ser compreendido como dominação e que existem formas legítimas, cooperativas e propriamente políticas de exercício do poder. Essa distinção, contudo, reforça a necessidade de separar fenômenos que frequentemente são tratados como se fossem equivalentes. Aquele que depende permanentemente da violência pode ser menos poderoso do que aparenta, precisamente porque continua enfrentando vontades que lhe são contrárias; aquele que consegue obter colaboração sem revelar integralmente as condições dessa colaboração alcança uma influência mais profunda, porque transfere ao próprio destinatário parte do trabalho necessário à realização de seus objetivos.
Talvez, portanto, o poder rudimentar possa ser definido como a capacidade de produzir uma conduta apesar da vontade daquele que a pratica, enquanto o poder sofisticado começa quando a vontade daquele que pratica a conduta é convertida no próprio instrumento pelo qual o resultado desejado será produzido. Sua modalidade mais inquietante, porém, aparece quando essa transformação não conduz sequer a um resultado reciprocamente vantajoso. O poder alcança então um grau adicional: alguém consegue fazer com que outra pessoa realize aquilo que lhe interessa, embora essa mesma conduta produza prejuízo para quem a executa, e ainda consegue preservar no destinatário a convicção sincera de que aquilo que lhe causa mal constitui, na verdade, aquilo que mais lhe convém. Já não existe simples obediência, porque o sujeito deseja agir; já não existe apenas desconhecimento, porque ele acredita compreender; já não existe sequer percepção de sacrifício, porque a perda foi reinterpretada como benefício.
Nesse ponto, desaparecem progressivamente a ordem, a ameaça, a coerção ostensiva e até mesmo a consciência de que existem interesses contrapostos. Uma parte obtém aquilo que desejava; a outra suporta as consequências desfavoráveis da decisão, mas continua a compreendê-la como expressão de sua própria autonomia e, eventualmente, como demonstração de inteligência, coragem, liberdade ou cuidado consigo mesma. O êxito daquele que exerce o poder deixa de ser medido apenas pela realização de sua vontade e passa a incluir algo muito mais sofisticado: a capacidade de determinar também o significado que o outro atribuirá ao resultado. Não basta que a perda aconteça; é possível fazer com que ela seja percebida como ganho. Não basta produzir submissão; pode-se produzir adesão. Não basta obter a conduta desejada; pode-se fazer com que aquele que a pratica a reivindique como absolutamente sua.
A força, no fundo, possui uma limitação que o poder sofisticado procura superar: ela revela a existência do conflito. Quem precisa obrigar alguém reconhece, pelo próprio ato de obrigá-lo, que existe uma vontade contrária à sua. O exercício mais elaborado do poder desloca-se para momento anterior, procurando participar da formação dessa vontade, organizar suas premissas, selecionar suas referências e influenciar os critérios pelos quais benefício e prejuízo serão posteriormente reconhecidos. Sua realização máxima talvez não esteja, portanto, em conseguir que alguém faça aquilo que não queria fazer, mas em conseguir que queira profundamente aquilo que outro queria que fizesse, inclusive quando essa vontade construída o conduz contra seus próprios interesses.
Por isso, talvez a forma mais simples de poder seja também a menos intrigante. Forçar alguém a agir exige superioridade suficiente para vencer sua resistência. O poder verdadeiramente sofisticado pretende algo diferente: tornar a resistência desnecessária. Seu triunfo máximo acontece quando aquele que perde participa voluntariamente da produção da própria perda, interpreta-a fielmente como benefício e continua convencido de que nenhuma vontade, além da sua própria, esteve presente na decisão. Nesse instante, o poder já não precisa mandar, ameaçar ou sequer aparecer. Fez algo muito mais eficiente: transformou a vontade daquele sobre quem incidia no instrumento de sua própria realização e conseguiu fazer com que o mal suportado por ele fosse experimentado, até o fim, como um bem escolhido para si.
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