NOTA · INTELIGÊNCIA, PODER E JUSTIÇA
Saruman e a transformação da inteligência em tirania
A inteligência sem humildade e a fabricação racional da injustiça
Há personagens cuja queda se explica por uma fraqueza facilmente reconhecível, por uma ambição elementar, por um ressentimento visível ou por uma ignorância que os impede de compreender a extensão do mal ao qual aderem. Saruman pertence a uma categoria muito mais inquietante. Sua tragédia não nasce da falta de inteligência, mas de sua abundância; não decorre da incapacidade de compreender o mundo, mas da convicção de que, por compreendê-lo melhor do que os demais, teria adquirido o direito de substituí-lo por outro concebido segundo a sua própria vontade. É precisamente por isso que sua trajetória me interessa. Saruman não é apenas um personagem que escolhe o lado errado de uma guerra. Ele representa a inteligência que se desprende da verdade, a técnica que deixa de servir à realidade e a razão que, intoxicada por sua própria potência, passa a considerar a existência concreta um material imperfeito a ser corrigido. Sua queda começa muito antes de sua aliança com Sauron, porque começa no instante em que ele deixa de contemplar aquilo que existe e passa a enxergar todas as coisas apenas conforme a utilidade que poderiam possuir dentro de seu projeto de poder.
Saruman fora enviado à Terra-média não para governá-la, mas para auxiliá-la; não para impor uma ordem própria, mas para compreender a ordem ameaçada e contribuir para sua preservação. A diferença entre essas duas posições é decisiva. Quem auxilia reconhece que o objeto de sua atuação possui uma realidade anterior à sua vontade, uma estrutura própria, uma dignidade que não depende da conveniência do intérprete. Quem pretende dominar, ao contrário, reduz tudo aquilo que encontra à condição de instrumento. Florestas deixam de ser florestas e se convertem em combustível; povos deixam de ser povos e passam a ser forças mobilizáveis; conhecimento deixa de ser abertura à verdade e se transforma em mecanismo de previsão, controle e vantagem. Saruman não perde inicialmente a capacidade de ver. Ele perde a disposição de respeitar o que vê. Continua observando o mundo, mas já não o contempla; continua estudando as forças que nele atuam, mas já não procura compreendê-las em sua totalidade; continua empregando a razão, mas a razão se encontra subordinada a uma finalidade que antecede qualquer investigação. A conclusão já está escolhida, e todos os fenômenos passam a ser reorganizados para conduzir até ela.
Existe nisso uma diferença fundamental entre reconstruir e fabricar. Reconstruir um fenômeno significa reconhecer que ele possui uma forma, ainda que essa forma se encontre encoberta por fragmentos, discursos, acontecimentos contraditórios ou interpretações interessadas. A reconstrução exige que o intérprete atravesse a complexidade sem destruir aquilo que procura compreender. Ela não consiste em reunir os elementos de qualquer maneira, nem em selecionar apenas os dados capazes de confirmar uma expectativa. Reconstruir é restituir ao objeto sua unidade inteligível, permitindo que sua conclusão surja de suas próprias premissas. Fabricar, por sua vez, significa determinar antecipadamente o resultado e deformar os elementos até que eles se ajustem à arquitetura desejada. Saruman fabrica. Ele não recebe o mundo como um fenômeno dotado de sentido próprio, mas como matéria bruta à espera de sua intervenção superior. Onde existe diversidade, ele vê desordem; onde existe autonomia, ele identifica resistência; onde existe beleza que não pode ser imediatamente utilizada, ele encontra desperdício. Sua inteligência já não reconstrói o real: ela o desmonta para produzir uma realidade artificial mais compatível com sua vontade.
É significativo que a voz seja um dos grandes instrumentos de Saruman. Ele não domina somente por exércitos, máquinas ou fortalezas. Domina pela palavra, pela capacidade de apresentar a submissão como prudência, a covardia como realismo, a traição como inevitabilidade e o abandono de princípios como sinal de maturidade. Sua voz não elimina a razão; ela a imita. Não ordena de maneira grosseira quando pode persuadir de maneira sofisticada. Saruman conhece o vocabulário da sensatez e sabe utilizá-lo para revestir decisões previamente comprometidas com o poder. É essa característica que o torna particularmente perigoso. O mal declarado provoca resistência; o mal apresentado como conclusão racional pode obter colaboração. A voz de Saruman não pretende apenas convencer alguém de uma proposição isolada. Ela procura reorganizar a percepção daquele que a escuta, fazendo com que o mundo inteiro pareça confirmar aquilo que ele deseja impor. Quando a linguagem assume essa função, deixa de transmitir ou esclarecer o sentido e passa a ocultá-lo por meio de uma aparência impecável de coerência.
A linguagem, contudo, não se torna falsa apenas quando contém afirmações factualmente mentirosas. Ela também pode tornar-se falsa quando distribui verdades parciais dentro de uma estrutura destinada a produzir uma conclusão enganosa. Saruman compreende forças reais, identifica perigos verdadeiros e percebe corretamente a dimensão do poder que se ergue em Mordor. O vício não está necessariamente em cada elemento isolado de seu discurso, mas na arquitetura que os reúne. Ele transforma a força do inimigo em justificativa para a rendição; converte a dificuldade da resistência em prova de sua inutilidade; apresenta a proximidade da derrota como fundamento para a adesão ao próprio agente que a produziria. Trata-se de uma perversão estrutural da racionalidade. As premissas podem conter fragmentos verdadeiros, mas a relação estabelecida entre elas foi organizada para legitimar uma conclusão decidida de antemão. É uma lógica exteriormente elegante e interiormente corrompida, porque seu propósito não é descobrir aquilo que necessariamente decorre do real, mas dar aparência de necessidade ao resultado que mais favorece quem argumenta.
Essa corrupção da linguagem possui uma relevância evidente para o Direito. Uma peça jurídica, uma decisão ou uma manifestação institucional pode reunir leis existentes, precedentes autênticos e acontecimentos efetivamente demonstrados e, ainda assim, produzir uma representação profundamente falsa do caso. Basta que os elementos sejam fragmentados, que algumas premissas sejam silenciadas, que outras recebam um peso artificial e que a conclusão anteceda o percurso argumentativo. A falsidade jurídica mais sofisticada raramente se apresenta como invenção integral. Ela se constrói mediante a disposição estratégica de verdades incompletas. O intérprete sarumaniano não precisa criar uma norma inexistente; basta retirar a norma de seu sistema, separar o fato de sua história e isolar a conduta das circunstâncias que lhe conferem significado. Depois disso, poderá apresentar como inevitável uma conclusão que somente se tornou possível porque o fenômeno foi previamente mutilado. É justamente contra esse tipo de operação que a reconstrução se dirige: não para ornamentar a argumentação com complexidade, mas para impedir que a complexidade seja fraudulentamente reduzida em benefício do poder.
Saruman também revela como a técnica pode sobreviver à perda da sabedoria. Ele continua capaz de construir, organizar, calcular e produzir. Isengard torna-se eficiente, ordenada e poderosa. Nada ali é improvisado. A destruição da floresta, a produção de armas e a criação de exércitos obedecem a uma racionalidade operacional rigorosa. O problema não é a ausência de método, mas a ausência de uma finalidade que possa justificar moralmente o método empregado. A eficiência, quando separada da verdade e da responsabilidade, não corrige o mal; apenas o torna mais veloz. Uma estrutura pode funcionar perfeitamente para uma finalidade inteiramente degradada. Uma argumentação pode ser tecnicamente impecável e ainda assim servir à injustiça. Uma instituição pode cumprir seus procedimentos e, apesar disso, produzir sistematicamente a desfiguração dos fenômenos submetidos à sua apreciação. A técnica não possui, por si mesma, a capacidade de estabelecer a legitimidade daquilo que realiza. Quando ela se torna autorreferente, passa a avaliar suas ações apenas pela possibilidade de execução, e não pela qualidade do resultado que produz sobre o mundo.
É nesse ponto que Saruman se distancia radicalmente de Gandalf. A diferença entre ambos não reside apenas na escolha de lados opostos. Gandalf também possui conhecimento, autoridade e poder, mas não se relaciona com o mundo como proprietário de seu sentido. Ele influencia sem pretender substituir, orienta sem anular a liberdade e age reconhecendo que nenhuma inteligência individual contém a totalidade do real. Saruman, ao contrário, considera a autonomia alheia um obstáculo à realização de sua visão. A humildade de Gandalf não decorre de fraqueza, assim como a arrogância de Saruman não decorre de força. Uma nasce da consciência de que o real excede o intérprete; a outra nasce da incapacidade de aceitar esse excesso. Saruman não suporta aquilo que não controla, porque tudo o que permanece fora de sua arquitetura recorda os limites de sua inteligência. Sua vontade de domínio é, nesse sentido, uma reação contra a existência de uma realidade que não pode ser inteiramente reduzida aos seus conceitos.
Também por isso a natureza precisa ser destruída em Isengard. A floresta representa uma ordem que Saruman não criou, um tempo que não pode acelerar e uma vida que não lhe deve obediência. As árvores crescem segundo ritmos próprios, guardam memórias que antecedem seus projetos e existem sem necessitar da autorização de sua razão instrumental. Para a inteligência dominadora, essa autonomia é intolerável. O que não pode ser integrado deve ser eliminado; o que não pode ser utilizado parece não possuir valor. Entretanto, a destruição da floresta não constitui apenas um dano colateral da industrialização de Isengard. Ela materializa o modo de pensar de Saruman. Antes de derrubar árvores, ele já havia derrubado intelectualmente qualquer distinção entre existência e utilidade. Antes de converter a natureza em combustível, havia convertido todos os seres em funções. A devastação exterior apenas torna visível uma devastação anterior ocorrida no campo da compreensão.
A trajetória de Saruman demonstra ainda que a inteligência pode tornar-se prisioneira daquilo que inicialmente pretende controlar. Ele acredita que poderá aproximar-se de Sauron sem verdadeiramente se submeter a ele, utilizar suas forças sem compartilhar integralmente de seus fins e participar do novo poder até encontrar a oportunidade de ocupá-lo. Essa pretensão é característica de quem se imagina sempre superior às circunstâncias que escolhe. Saruman supõe que sua consciência permanecerá intacta enquanto instrumentaliza o mal; não percebe que o instrumento também modifica aquele que o emprega. Ao aceitar a lógica de Sauron, ainda que sob o pretexto de futuramente superá-lo, Saruman já se tornou incapaz de produzir qualquer alternativa verdadeira. Pode disputar a posição de comando, mas não consegue mais questionar a estrutura do domínio. Sua rebelião contra o senhor que pretende servir não representa libertação, porque ambos compartilham a mesma concepção fundamental: a ideia de que a ordem somente pode existir quando toda pluralidade for submetida a uma vontade central.
Essa é uma das formas mais profundas de derrota intelectual. Saruman ainda imagina estar pensando por conta própria quando já pensa dentro das categorias do adversário. Deseja substituir Sauron, mas não superar o mundo de Sauron. Sua divergência é pessoal, não estrutural. Ele não discorda do princípio do domínio absoluto; discorda apenas da identidade daquele que deverá exercê-lo. Em muitos campos da vida institucional, política e jurídica, ocorre algo semelhante. Pessoas se apresentam como opositoras de uma determinada forma de poder, embora preservem intactos seus pressupostos, seus métodos e sua linguagem. Pretendem apenas ocupar o lugar central da estrutura que afirmavam combater. A verdadeira reconstrução exige mais do que inverter posições entre vencedores e vencidos. Exige investigar a forma interna do sistema, identificar as premissas que tornam suas consequências possíveis e verificar se a própria arquitetura não produz necessariamente aquilo que se declara rejeitar.
A queda de Saruman também possui algo de profundamente melancólico porque, mesmo depois de perder sua fortaleza, seus exércitos e sua posição, ele continua incapaz de abandonar a necessidade de dominar. Quando já não pode governar grandes forças, passa a exercer crueldade em escala menor. Isso revela que o poder não fora apenas um instrumento externo utilizado em determinado momento; havia se convertido na própria forma de sua relação com os outros. Saruman não sabe mais existir sem reduzir, humilhar ou manipular. Sua grandeza anterior torna sua pequenez final ainda mais significativa. A inteligência que poderia ter contribuído para a preservação do mundo termina empregada em vinganças mesquinhas, porque se tornou incapaz de encontrar qualquer finalidade além da afirmação de si mesma. O declínio exterior não produz a restauração interior. Perder os meios de dominar não significa renunciar ao princípio do domínio.
Não vejo Saruman, portanto, apenas como uma advertência contra a ambição. Essa leitura seria correta, mas insuficiente. Ele é uma advertência contra a inteligência que rompe seu vínculo com a realidade, contra a palavra que conserva a aparência da razão enquanto abandona seu compromisso com a verdade, contra a técnica que mede seu êxito apenas pela eficiência e contra o intérprete que acredita ter compreendido tanto o objeto a ponto de adquirir o direito de deformá-lo. Sua queda demonstra que a razão não se protege automaticamente da corrupção pelo simples fato de ser razão. Quanto mais refinada for uma inteligência, mais refinadas também poderão ser as justificativas produzidas para seus próprios desvios. A ignorância pode errar por não enxergar; a inteligência corrompida enxerga, seleciona, reorganiza e constrói uma explicação na qual o próprio erro passa a parecer uma conclusão necessária.
A Reconstrução Fenomenológica Aplicada se coloca no sentido oposto dessa operação. Reconstruir não significa dominar intelectualmente o fenômeno, mas permitir que sua estrutura se torne perceptível sem ser substituída pelas preferências do intérprete. Isso exige rigor, mas também contenção; exige inteligência, mas igualmente humildade; exige capacidade de organizar os fragmentos, mas proíbe que sejam organizados conforme uma conclusão artificialmente antecipada. A conclusão necessária não é aquela que o autor consegue impor por meio de habilidade retórica. É aquela que permanece depois que todas as premissas relevantes foram recuperadas, confrontadas e distribuídas segundo a forma interna do próprio objeto. Onde Saruman procura fazer o mundo caber em sua vontade, a reconstrução procura fazer a vontade do intérprete recuar o suficiente para que o mundo possa aparecer.
Talvez a maior advertência contida em Saruman seja a de que não basta possuir inteligência para estar protegido contra a desfiguração do real. Em determinadas circunstâncias, a inteligência pode ser exatamente o instrumento que torna essa desfiguração mais convincente. O compromisso decisivo não é com a própria capacidade de interpretar, mas com aquilo que deve limitar e orientar essa capacidade. A inteligência somente preserva sua dignidade quando aceita que não é a criadora do fenômeno, quando reconhece que o conhecimento não concede propriedade sobre o objeto conhecido e quando se dispõe a abandonar uma conclusão desejada diante de premissas que a tornem insustentável. Saruman perde-se porque já não admite que a realidade possa contrariá-lo. No instante em que a verdade deixa de ser aquilo que corrige o intérprete e passa a ser aquilo que o intérprete pretende produzir, a sabedoria termina, ainda que o conhecimento permaneça.
É por isso que sua história não trata apenas da corrupção de um mago, da aliança com um inimigo ou da derrota de uma fortaleza. Ela trata da transformação da inteligência em tirania. Saruman conhecia muitas coisas, mas deixou de se permitir ser transformado por aquilo que conhecia. Escutava apenas para responder, examinava apenas para utilizar e interpretava apenas para dominar. Sua voz continuava bela, sua razão continuava articulada e sua técnica continuava poderosa, mas nenhuma dessas qualidades conservava a finalidade que poderia torná-las legítimas. Ao final, sua queda não decorre da ausência de grandeza, mas da incapacidade de compreender que a verdadeira grandeza não consiste em submeter o mundo à própria forma. Consiste em possuir força suficiente para contemplá-lo, inteligência suficiente para reconstruí-lo e humildade suficiente para não desfigurá-lo.
Bastidores
Ao escrever sobre Saruman e sobre a corrupção de uma inteligência que deixa de reconstruir o mundo para pretender substituí-lo, tornou-se inevitável pensar nas palantíri, as pedras de visão que atravessam discretamente a narrativa de O Senhor dos Anéis e que, embora não ocupem o centro visível da história, interferem de maneira decisiva em quase todos os seus grandes movimentos. Saruman possuía a pedra de Orthanc; Denethor utilizava secretamente a pedra de Anor, conservada em Minas Tirith; Sauron, por sua vez, havia se apoderado da pedra de Ithil, tomada quando Minas Ithil caiu e se converteu em Minas Morgul. Os três eram personagens dotados de inteligência, força de vontade e posição de comando. Nenhum deles era um observador ingênuo, desprovido de experiência ou incapaz de compreender a gravidade daquilo que via. Ainda assim, cada qual, de uma forma própria, perdeu-se diante da pedra. Não porque as palantíri produzissem necessariamente imagens falsas, mas porque ver uma imagem verdadeira não equivale a compreender a verdade do fenômeno ao qual ela pertence.
As palantíri eram antigas pedras de visão trazidas a partir da tradição de Númenor e distribuídas entre os reinos dos Dúnedain na Terra-média. Serviam tanto para observar lugares distantes quanto para estabelecer comunicação entre si, especialmente quando duas pessoas utilizavam simultaneamente pedras diferentes. Eram instrumentos destinados a reis, governantes e guardiões legitimamente autorizados, e seu uso exigia força de vontade, concentração e conhecimento. Algumas podiam ser direcionadas para observar acontecimentos remotos no espaço e também imagens de tempos passados, embora não revelassem o futuro. Não eram objetos que inventavam livremente ilusões, como se projetassem fantasias sem qualquer relação com a realidade. O perigo era mais refinado. Aquilo que mostravam podia ser verdadeiro e, apesar disso, levar a uma conclusão falsa, porque nenhuma imagem isolada contém necessariamente o sentido completo daquilo que representa.
Essa distinção é essencial. Uma mentira evidente pode ser enfrentada pela simples demonstração de que o fato apresentado nunca ocorreu. Uma verdade fragmentada é muito mais perigosa, porque sua força persuasiva decorre justamente daquilo que possui de verdadeiro. Quando uma pessoa vê um exército marchando, vê realmente o exército; quando contempla navios negros aproximando-se de uma cidade, vê realmente os navios; quando observa fortalezas, tropas e máquinas de guerra sendo preparadas, não está diante de uma invenção. Entretanto, não vê necessariamente quem comanda aquelas forças, qual é sua finalidade, o que ocorreu antes da cena, o que acontecerá depois dela ou quais acontecimentos simultâneos poderiam alterar inteiramente seu significado. A pedra apresenta um recorte. O observador, quase sempre convencido de que recebeu uma totalidade, preenche sozinho aquilo que não lhe foi mostrado. É nesse preenchimento que ingressam o medo, a ambição, o ressentimento, a esperança, o orgulho e todas as conclusões que já se encontravam silenciosamente preparadas dentro daquele que olhava.
Saruman ocupa inicialmente a posição mais evidente nesse sistema. Ele é um dos Istari, os magos enviados à Terra-média para auxiliar os povos livres na resistência contra Sauron. Entre eles, era considerado o mais elevado em autoridade e conhecimento, presidindo inclusive o Conselho Branco. Sua especialidade abrangia os artefatos do inimigo, os Anéis de Poder e as formas pelas quais a vontade poderia ser transformada em domínio. Instalado em Isengard e senhor da inexpugnável torre de Orthanc, Saruman encontrou ali uma das palantíri que haviam pertencido aos antigos governantes de Gondor. Em vez de revelar sua existência ao Conselho ou utilizá-la apenas como instrumento de vigilância legítima, conservou-a em segredo e passou a olhar cada vez mais longe, até dirigir sua atenção a Barad-dûr, onde Sauron possuía a pedra de Ithil. Nesse encontro de olhares, Saruman, que imaginava estar ampliando seu conhecimento e antecipando os movimentos do inimigo, terminou alcançado pela vontade daquele que pretendia observar.
Isso não significa que Saruman se tenha convertido imediatamente em um servo obediente e sem vontade. Sua situação era mais complexa. Ele temia Sauron, colaborava com ele, escondia informações e, simultaneamente, pretendia encontrar o Um Anel para tornar-se um poder independente. Desejava utilizar o inimigo, retardá-lo, imitá-lo e, no momento oportuno, substituí-lo. Ocorre que a palantír lhe mostrava continuamente a dimensão do poder acumulado em Mordor. Saruman via as forças de Sauron, suas fortalezas, sua capacidade de mobilização e a extensão crescente de sua sombra. Quanto mais via, mais acreditava estar sendo realista. Sua rendição moral podia então apresentar-se como inteligência estratégica. Resistir parecia ingenuidade; colaborar parecia prudência; construir uma força própria parecia a única resposta racional. A pedra não precisava mostrar uma única imagem falsa. Bastava mostrar repetidamente a força de Sauron sem mostrar, com a mesma intensidade, todas as formas de resistência, os acontecimentos imprevisíveis, as fragilidades do inimigo e, sobretudo, a possibilidade de que um hobbit insignificante atravessasse Mordor carregando o objeto do qual dependia toda aquela estrutura de poder.
Saruman não foi enganado porque viu algo que não existia. Foi enganado porque confundiu a parte visível com a totalidade existente. Viu o poder de Sauron e concluiu que esse poder era inevitável. Viu a guerra que se aproximava e concluiu que somente uma potência semelhante poderia sobreviver a ela. Viu a industrialização, a concentração de forças e o domínio da matéria e interpretou tudo isso como a forma necessária do futuro. Sua leitura da palantír apenas fortaleceu aquilo que já ocorria dentro dele: a substituição da sabedoria pela eficiência, da fidelidade pela conveniência e da contemplação pela vontade de controle. A pedra não criou o Saruman que destruiu as árvores de Isengard, produziu exércitos e tentou submeter Rohan. Ela ofereceu ao Saruman que já desejava dominar uma sucessão de imagens capazes de fazer seu desejo parecer uma conclusão imposta pelos acontecimentos.
Denethor representa um caso diferente e, por isso mesmo, talvez mais trágico. Ele não era aliado de Sauron, não pretendia servir-lhe e não compartilhava conscientemente de seus objetivos. Denethor II era o Regente Governante de Gondor, descendente de uma longa linhagem de senescais que administravam o reino na ausência dos reis. Era pai de Boromir e Faramir, senhor de Minas Tirith e responsável pela defesa do principal reino humano que ainda resistia diretamente à força de Mordor. Diferentemente da representação mais simplificada que por vezes se faz dele, Denethor não era um homem originariamente tolo, incompetente ou indiferente ao destino de seu povo. Era inteligente, austero, politicamente experiente e dotado de uma força de vontade extraordinária. Sabia que Gondor se encontrava na linha de frente de uma guerra cuja duração ultrapassava sua própria vida e havia dedicado sua existência à preservação de uma cidade cercada pela memória de perdas sucessivas.
Em Minas Tirith permanecia a pedra de Anor, assim chamada porque a cidade fora anteriormente denominada Minas Anor. Seu uso havia sido abandonado durante séculos, sobretudo porque se temia que Sauron tivesse capturado a pedra correspondente de Minas Ithil. Denethor, porém, ousou utilizá-la. Ao contrário de Saruman, não foi simplesmente submetido pela vontade de Sauron. Sua força, sua legitimidade como governante de Gondor e seu direito de utilizar a pedra impediram que o Senhor do Escuro assumisse completo controle sobre aquilo que ele via. Denethor conseguiu obter informações verdadeiras, observar movimentos militares e ampliar extraordinariamente seu conhecimento. O uso, entretanto, custou-lhe um esforço imenso, contribuiu para seu envelhecimento e o colocou continuamente diante de imagens selecionadas ou exploradas por Sauron para produzir desespero.
É importante compreender a sutileza dessa derrota. Sauron não precisava fazer Denethor acreditar que Mordor possuía um exército inexistente. Possuía efetivamente exércitos gigantescos. Não precisava inventar o cerco de Gondor, porque o cerco era real. Não precisava ocultar inteiramente a verdade, pois a própria verdade, quando recortada e ordenada segundo uma finalidade, poderia tornar-se instrumento de destruição. Denethor via as forças que avançavam, os povos aliados a Sauron, a vastidão de Mordor e a desproporção aparente entre os recursos do inimigo e aqueles que ainda restavam a Gondor. O que não via era Frodo avançando secretamente com o Anel; não compreendia o plano de Gandalf; não conhecia integralmente a função reservada a Aragorn; não podia perceber como atos pequenos, improváveis e dispersos acabariam interferindo sobre o resultado da guerra. Sua visão era extensa, mas não era completa. Seu erro consistiu em acreditar que a amplitude de seu campo visual equivalia à totalidade do campo histórico.
Esse problema se torna particularmente evidente quando Denethor observa a aproximação dos navios negros. As embarcações dos Corsários de Umbar subiam o rio em direção a Minas Tirith, e tudo indicava que transportavam novas forças para completar a destruição de Gondor. A imagem era verdadeira. Os navios existiam, eram os navios do inimigo e efetivamente se aproximavam da batalha. O que a imagem não mostrava, ou o que Denethor não conseguiu alcançar em sua leitura, era que os Corsários haviam sido derrotados e que os navios agora eram conduzidos por Aragorn e por forças aliadas que vinham em auxílio da cidade. Aquilo que parecia confirmar definitivamente a derrota era, em seu contexto integral, uma das condições da vitória. Denethor não alucinou os navios. Ele os interpretou a partir de uma estrutura de sentido incompleta e de uma desesperança que já havia se tornado sua principal chave de leitura.
A morte de Boromir, o ferimento aparentemente mortal de Faramir, o cerco da cidade e as imagens contempladas na pedra convergiram dentro de Denethor até produzirem uma conclusão que lhe parecia necessária: Gondor cairia, sua linhagem terminaria e tudo aquilo que havia guardado seria tomado por Sauron ou entregue a um rei cuja chegada ele percebia também como uma ameaça à sua própria casa. A partir daí, o Regente decide morrer e levar consigo Faramir, ainda vivo, para a fogueira. Seu suicídio não é simplesmente resultado de uma imagem falsa, mas de uma reconstrução fracassada. Denethor possuía inúmeros elementos verdadeiros, porém já não conseguia organizá-los de maneira aberta à possibilidade de um resultado diferente. A conclusão da derrota passou a comandar a interpretação de todas as premissas. Cada novo fato era recebido como confirmação do fim, inclusive os acontecimentos que, corretamente compreendidos, indicavam a aproximação da salvação.
A palantír de Denethor permaneceu marcada por sua morte. Ele subiu à pira funerária segurando a pedra e queimou com ela nas mãos. Depois disso, segundo a tradição narrada, somente alguém de vontade excepcional poderia utilizá-la sem contemplar as mãos de Denethor consumindo-se nas chamas. A própria pedra, destinada a mostrar lugares distantes e tempos passados, tornou-se então prisioneira de uma única imagem: o gesto final daquele que, tendo visto tantas coisas, já não conseguia ver qualquer possibilidade além de sua derrota.
Sauron, por sua vez, parecia ocupar uma posição diferente. Era ele quem detinha a pedra de Ithil e quem procurava controlar aquilo que Saruman e Denethor contemplavam. Depois da queda de Minas Ithil diante dos Nazgûl, a cidade transformou-se em Minas Morgul, e sua palantír foi levada para Barad-dûr. Por meio dela, Sauron entrou em contato com a pedra de Orthanc, submeteu Saruman a sua influência e descobriu o uso secreto que Denethor fazia da pedra de Anor. A princípio, portanto, ele parece ser o único dos três que compreende plenamente o funcionamento do instrumento. Não seria a vítima das imagens, mas seu organizador; não seria o enganado, mas aquele que seleciona, direciona e explora o que os outros veem. Ainda assim, Sauron também se perde na leitura da palantír, porque o poder de controlar o campo visual de outra pessoa não lhe concede automaticamente a capacidade de interpretar corretamente aquilo que surge diante de seus próprios olhos.
Isso aparece quando Peregrin Took, o hobbit Pippin, toma a pedra de Orthanc por curiosidade e olha para ela. Sauron o encontra e o interroga, mas interpreta aquela aparição a partir de suas próprias expectativas. Ele sabe que Saruman procurava o Um Anel, acredita que a pedra ainda está em Orthanc e conclui que Pippin é um prisioneiro capturado por Saruman, possivelmente o portador do Anel que ele tanto procurava. A imagem de Pippin é verdadeira. O hobbit efetivamente esteve em contato com o Anel e realmente se encontra diante da pedra que pertencera a Saruman. Nada disso, contudo, significa aquilo que Sauron pensa que significa. Sua conclusão decorre de uma narrativa prévia dentro da qual ele encaixa rapidamente a imagem recebida.
Mais tarde, Aragorn utiliza deliberadamente a pedra de Orthanc e revela-se a Sauron. Mostra-se como herdeiro de Isildur e exibe Andúril, a espada reforjada a partir daquela que havia cortado o Anel da mão do Senhor do Escuro. Aragorn não mente. Ele realmente é o herdeiro dos reis, possui legitimamente a pedra e carrega a espada de Elendil. Entretanto, escolhe o momento e a forma de sua aparição para induzir Sauron a uma interpretação específica: a de que o herdeiro de Isildur talvez esteja de posse do Um Anel e pretenda utilizá-lo contra Mordor. A partir disso, Sauron precipita sua guerra, concentra sua atenção sobre os grandes líderes militares do Ocidente e deixa de considerar seriamente a hipótese que jamais conseguira compreender: a de que seus adversários desejavam destruir o Anel em vez de empregá-lo.
Sauron é enganado, portanto, pelo mesmo mecanismo que utilizou contra Saruman e Denethor. Vê algo verdadeiro, mas interpreta essa verdade segundo os limites de sua própria natureza. Como ele jamais renunciaria voluntariamente ao poder do Anel, não consegue imaginar que outra pessoa pudesse fazê-lo. Como considera o domínio o objetivo necessário de toda inteligência elevada, interpreta Aragorn como um rival que deseja assumir seu lugar. Como ele próprio utilizaria qualquer vantagem imediatamente, supõe que seus inimigos agirão segundo a mesma lógica. A limitação de Sauron não está na extensão de sua visão, mas na estreiteza do princípio pelo qual interpreta tudo o que vê. Pode observar territórios imensos, influenciar outras pedras e acompanhar exércitos, mas permanece incapaz de compreender atos fundados em piedade, renúncia, amizade, sacrifício e misericórdia. Seu campo visual é gigantesco; sua compreensão do humano é miseravelmente pequena.
Os três personagens são, dessa forma, derrotados de maneiras diferentes pelo mesmo erro fundamental. Saruman vê o poder e o confunde com inevitabilidade. Denethor vê a ameaça e a confunde com derrota consumada. Sauron vê a capacidade de seus adversários e a interpreta como uma reprodução de sua própria vontade de domínio. Cada qual acredita estar em posição privilegiada porque enxerga mais do que os demais. Nenhum percebe que a visão pode ampliar o número de elementos disponíveis sem corrigir o princípio defeituoso que os organiza. Ao contrário, quanto mais imagens recebem, mais seguros se tornam de uma conclusão que já estava presente antes delas.
As palantíri mostram, assim, que a percepção jamais é inteiramente passiva. Mesmo diante de uma imagem verdadeira, existe sempre alguém selecionando o que observar, escolhendo uma direção, determinando a duração do olhar e atribuindo uma relação entre aquilo que apareceu e todo o restante que permaneceu invisível. As pedras não ofereciam ordinariamente sons como uma conversa exterior comum, embora pudessem permitir uma comunicação mental entre usuários suficientemente fortes. O ponto central permanece o mesmo: elas transmitiam conteúdos sem oferecer automaticamente sua interpretação integral. A percepção chegava; o sentido precisava ser reconstruído. Quando essa reconstrução era dominada pelo medo, pelo orgulho ou pela ambição, a verdade parcial passava a cumprir a função de uma mentira completa.
Por isso as palantíri possuem uma relação tão direta com aquilo que procuro evitar na Reconstrução Fenomenológica Aplicada. Um documento pode ser verdadeiro; uma fotografia pode ser autêntica; uma frase pode ter sido efetivamente pronunciada; um precedente pode existir; um artigo de lei pode ter exatamente o conteúdo transcrito; uma conduta pode ter ocorrido precisamente da forma descrita. Nada disso significa que a conclusão apresentada a partir desses elementos seja necessariamente verdadeira. A falsidade mais sofisticada não depende da fabricação de provas inexistentes. Ela pode resultar da seleção de fatos reais, da supressão de seus contextos, da separação entre um acontecimento e aquilo que o tornou possível e da disposição calculada dos fragmentos dentro de uma narrativa previamente estabelecida.
No processo judicial, cada parte oferece ao julgador uma espécie de palantír. Mostra-lhe documentos, depoimentos, mensagens, datas, imagens, recortes de acontecimentos e interpretações jurídicas. Cada uma afirma, de maneira mais ou menos explícita, que aquilo que aparece no interior de sua pedra corresponde à totalidade do caso. O risco começa quando o intérprete confunde a visibilidade do fragmento com a completude do fenômeno. O fato de algo poder ser visto não significa que tudo tenha sido visto; o fato de uma prova ser verdadeira não significa que a narrativa construída ao redor dela também seja; o fato de uma conclusão parecer imediatamente coerente não significa que decorra necessariamente das premissas. Muitas injustiças não surgem da ausência absoluta de informação, mas do excesso de confiança produzido por uma informação parcial.
Saruman, Denethor e Sauron não eram pessoas incapazes de interpretar. Eram precisamente os personagens que mais confiavam em sua capacidade de fazê-lo. Os três acreditavam possuir força suficiente para olhar sem serem dominados pelo que viam. Saruman julgava poder observar Sauron e utilizá-lo; Denethor acreditava poder conhecer todos os movimentos do inimigo e governar a partir de uma posição de superioridade informacional; Sauron imaginava que, controlando o acesso às imagens, controlaria também o sentido que delas necessariamente decorreria. Nenhum deles compreendeu que o maior perigo não se encontrava dentro da pedra, mas na estrutura mental daquele que se inclinava sobre ela.
A palantír não cria sozinha o desespero de Denethor, a ambição de Saruman ou a incapacidade de Sauron de compreender a renúncia. Ela amplia essas disposições e oferece a cada uma delas matéria verdadeira para construir sua própria prisão. É por isso que todos veem e, apesar disso, nenhum vê o bastante. Saruman não consegue enxergar um futuro que não reproduza a lógica de Sauron. Denethor não consegue enxergar uma salvação que não esteja sob seu controle. Sauron não consegue enxergar uma ação que não procure o poder. Aquilo que permanece fora da pedra é justamente o que determinará a história: a coragem dos pequenos, a lealdade que não pode ser calculada, a misericórdia anteriormente concedida a Gollum, a resistência de pessoas aparentemente insignificantes e a decisão de destruir o instrumento de domínio em vez de reivindicá-lo.
Talvez essa seja a razão pela qual Aragorn é o único dos grandes personagens que utiliza conscientemente uma palantír sem ser propriamente derrotado por ela. Não porque seja imune ao risco ou possua conhecimento ilimitado, mas porque se aproxima da pedra com uma finalidade definida, com legitimidade sobre o instrumento e sem confundir aquilo que verá com a totalidade do real. Ele não procura entregar-se indefinidamente à contemplação das imagens, nem obter a segurança impossível de quem deseja antecipar todos os acontecimentos. Usa a pedra para um ato específico: revelar-se a Sauron, disputar o controle do olhar e induzir o inimigo a precipitar seus movimentos. Mesmo assim, Aragorn reconhece o perigo e o custo da operação. Sua força não está em acreditar que pode ver tudo, mas em saber que não vê.
As palantíri são, em última análise, instrumentos de visão que demonstram os limites da própria visão. Elas permitem alcançar o que está distante, recuperar imagens do passado e observar acontecimentos que nenhum olhar natural poderia acompanhar. Não permitem, contudo, escapar da responsabilidade de interpretar. A pedra pode mostrar a cena; não pode reconstruir sozinha o fenômeno. Pode oferecer a premissa; não garante a conclusão. Pode revelar um acontecimento verdadeiro; não entrega necessariamente a posição que ele ocupa na totalidade da história. Entre aquilo que aparece e aquilo que é compreendido permanece sempre o intérprete, com sua força, suas limitações, seus desejos e seus medos.
É esse o ponto que se encontra por trás da nota sobre Saruman. Ele se corrompeu não apenas porque desejou poder, mas porque passou a tratar sua percepção como medida suficiente da realidade. Denethor se desesperou porque acreditou que aquilo que não podia ver já não poderia existir. Sauron fracassou porque imaginou que todos os seres interpretavam o mundo segundo a mesma lógica que o governava. Os três possuíam pedras capazes de atravessar distâncias, mas nenhum instrumento era capaz de libertá-los daquilo que carregavam dentro de si. Em cada caso, a palantír mostrou algo verdadeiro e o observador produziu, a partir dessa verdade, uma conclusão falsa.
A advertência permanece válida muito além da Terra-média. Nem tudo o que é falso nasce de uma imagem fabricada, de um documento adulterado ou de uma afirmação objetivamente mentirosa. Há falsidades produzidas por verdades isoladas. Há condenações construídas com fatos autênticos retirados de sua história. Há certezas fundadas em percepções precisas, porém incompletas. Há intérpretes que enxergam muito e compreendem pouco, justamente porque a extensão de sua visão os tornou incapazes de reconhecer aquilo que lhes falta. A reconstrução começa quando se abandona a vaidade de quem acredita ter visto tudo e se admite que toda imagem, por mais verdadeira que seja, pode ainda constituir apenas a superfície visível de uma realidade muito maior.
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