NOTA · TEMPO, CONSCIÊNCIA E EXPECTATIVA
Existe presente sem expectativa?
O instante que nunca está sozinho: consciência, duração, simultaneidade, memória, antecipação, desejo, irreversibilidade e as múltiplas teorias do agora
Perguntar se existe presente sem expectativa parece, à primeira vista, formular apenas uma questão psicológica: seria possível permanecer integralmente no agora, sem imaginar, desejar, temer ou calcular aquilo que virá depois? Mas essa formulação inicial é insuficiente, porque pressupõe que sabemos o que significa “presente”, quando talvez poucas palavras escondam tamanho desacordo filosófico, científico e fenomenológico. O presente pode ser entendido como ponto matemático sem extensão; como intervalo mínimo da consciência; como fronteira móvel entre aquilo que já não existe e aquilo que ainda não existe; como única dimensão temporal verdadeiramente real; como simples posição perspectivística dentro de um universo em que passado, presente e futuro existem igualmente; como construção neurocognitiva; como experiência corporal; como convenção linguística; como efeito da memória de curtíssima duração; como intervalo de integração perceptiva; como acontecimento físico local; como relação de simultaneidade; como horizonte existencial; como estrutura histórica; como categoria social e política; ou ainda como ilusão produzida por uma consciência incapaz de apreender a totalidade temporal de uma vez. Antes de responder se existe presente sem expectativa, portanto, é necessário perguntar: qual presente? O presente de Aristóteles (384–322 a.C.) não é exatamente o presente de Agostinho de Hipona (354–430); o presente de Immanuel Kant (1724–1804) não é o presente de Henri Bergson (1859–1941); o presente de William James (1842–1910) não é o presente de Edmund Husserl (1859–1938); o presente de Albert Einstein (1879–1955) não é o presente de Martin Heidegger (1889–1976); o presente de John McTaggart Ellis McTaggart (1866–1925) não é o presente de Arthur Prior (1914–1969); o presente de Hermann Minkowski (1864–1909) não é o presente de Ilya Prigogine (1917–2003); o presente de Maurice Merleau-Ponty (1908–1961) não é o presente de George Herbert Mead (1863–1931); o presente de Alfred North Whitehead (1861–1947) não é o presente de Gilles Deleuze (1925–1995). Aristóteles percebeu que o agora separa e simultaneamente conecta o antes e o depois: ele não é simplesmente uma parte do tempo no mesmo sentido em que uma extensão espacial contém partes, porque o agora funciona como limite e articulação. Agostinho aprofundou o paradoxo perguntando como podemos falar de passado e futuro se o primeiro já não existe e o segundo ainda não existe; sua resposta desloca a temporalidade para a alma, na célebre estrutura de memória do passado, atenção ao presente e expectativa do futuro. A formulação é extraordinariamente importante porque já impede uma concepção do presente como ponto puro: o presente humano é uma distensão da alma. Plotino (204/205–270), antes de Agostinho, relacionara a temporalidade à vida da alma que se desdobra, contrapondo-a à eternidade inteligível. Boécio (c. 477–524) definiria a eternidade como posse simultânea e perfeita de uma vida interminável, criando uma oposição entre temporalidade sucessiva e presença eterna. Tomás de Aquino (1225–1274) retomaria essa diferenciação ao pensar Deus como fora da sucessão temporal ordinária. Essas concepções metafísicas são relevantes porque revelam que o presente pode ser compreendido tanto como instante passageiro quanto como forma superior de presença sem sucessão. Séculos depois, Kant (1724–1804) romperia com a ideia de tempo como propriedade das coisas em si, concebendo-o como forma a priori da sensibilidade, condição segundo a qual fenômenos são ordenados. O presente, nessa perspectiva, não é simplesmente algo encontrado no mundo independentemente de nós, mas uma posição dentro da forma temporal pela qual toda experiência possível é organizada. Hegel (1770–1831) mostraria a instabilidade do “agora”: quando digo “agora é noite”, a proposição deixa de ser verdadeira quando chega o dia; o agora que pretendia captar singularmente torna-se universal precisamente porque cada agora substitui outro. O presente, assim, revela uma negatividade interna: ele é aquilo que é deixando de ser. Kierkegaard (1813–1855) pensaria o instante como intersecção entre temporalidade e eternidade, conferindo ao momento uma densidade existencial que ultrapassa a sucessão cronológica. Bergson atacaria frontalmente a espacialização do tempo: não vivemos instantes justapostos como pontos numa régua, mas uma duração contínua na qual estados se penetram, transformando-se qualitativamente. William James (1842–1910) chamaria de “presente especioso” a extensão temporal imediatamente apreendida pela consciência: não vivemos um ponto infinitesimal, mas um pequeno campo dentro do qual sucessão e continuidade podem ser percebidas. Husserl (1859–1938) reconstruiria essa experiência com precisão inédita ao distinguir impressão primordial, retenção e protensão: o que soa agora se apresenta numa impressão atual; o que acabou de soar permanece retido sem ser mera recordação; e o que poderá vir já é antecipado protensionalmente. É por isso que ouvimos uma melodia em vez de uma sequência de sons sem relação. O presente fenomenológico é, desde o princípio, uma estrutura tripla. Ele não é apenas “agora”: é agora-retendo-o-que-passou-e-protendendo-o-que-vem. Heidegger (1889–1976) recusará ainda mais radicalmente a supremacia do presente vulgar ao pensar a temporalidade como êxtase: futuro, passado e presente não são caixas sucessivas, mas modos pelos quais a existência se temporaliza. O ser humano é antecipação de possibilidades, já-ter-sido e presença junto às coisas, de maneira que o futuro possui prioridade existencial porque o Dasein se projeta. Merleau-Ponty (1908–1961) incorporará o corpo a essa estrutura: o corpo não ocupa apenas um agora geométrico, ele se encontra lançado em hábitos, possibilidades motoras e antecipações perceptivas. Paul Ricoeur (1913–2005) mostrará que o tempo humano se torna inteligível narrativamente, e a narrativa, por sua vez, reorganiza passado, presente e futuro. Assim, antes mesmo de alcançarmos física, neurociência ou metafísica analítica, já encontramos uma primeira conclusão: talvez o presente puro seja uma abstração criada precisamente pela tentativa de separar aquilo que, na experiência, nunca aparece separado. O agora humano parece conter espessura, memória imediata, orientação, corpo, linguagem, antecipação e possibilidade. A pergunta “existe presente sem expectativa?” começa então a transformar-se em outra: se retirássemos toda protensão do presente, ainda restaria alguma experiência reconhecível como presente?
ESQUEMA I — AS GRANDES FAMÍLIAS DO PRESENTE
presente-limite → Aristóteles
presente da alma → Agostinho
presente transcendental → Kant
presente dialético → Hegel
instante existencial → Kierkegaard
duração → Bergson
presente especioso → William James
presente retencional-protensional → Husserl
presente extático → Heidegger
presente corporal → Merleau-Ponty
presente narrativo → Ricoeur
presente físico-relacional → Einstein/Minkowski
presente ontológico exclusivo → presentismo
presente perspectivo dentro do bloco → eternalismo
presente como passagem real → teorias do becoming
A filosofia analítica do tempo torna a questão ainda mais difícil porque nela o problema deixa de ser apenas “como experimentamos o presente?” e passa a ser “o presente possui alguma realidade ontológica privilegiada?”. John McTaggart Ellis McTaggart (1866–1925) formulou uma distinção decisiva entre duas maneiras de ordenar acontecimentos. Na chamada série A, os eventos são futuros, tornam-se presentes e depois tornam-se passados; na série B, os eventos são simplesmente anteriores ou posteriores uns aos outros. Para McTaggart, a série A pareceria necessária para a mudança genuína, mas produziria contradições, levando-o à célebre conclusão de que o tempo é irreal. Mesmo que sua conclusão tenha sido rejeitada por muitos, o vocabulário que criou organizou grande parte dos debates posteriores. O presentismo sustenta, em sua formulação mais forte, que somente o presente existe: Napoleão Bonaparte (1769–1821) existiu, mas não existe mais; seres humanos do século XXIII talvez venham a existir, mas ainda não existem; apenas aquilo que é presente possui realidade plena. O passado seria aquilo que existiu e o futuro aquilo que poderá existir. A teoria do bloco crescente, associada em diferentes formulações a pensadores como Charlie Dunbar Broad (1887–1971), aceita a existência do passado e do presente, mas não do futuro: a realidade aumentaria continuamente à medida que novos acontecimentos se tornam atuais. O “spotlight móvel”, em versões contemporâneas, tenta combinar um universo de eventos existentes com um presente metafisicamente privilegiado que se desloca através deles, como se uma luz incidisse sucessivamente sobre diferentes regiões temporais. O eternalismo sustenta, de modo oposto, que acontecimentos passados, presentes e futuros são igualmente reais; “presente” seria então, em alguma medida, semelhante a “aqui”: uma expressão indexical dependente da posição de quem fala. Bertrand Russell (1872–1970), embora sua filosofia do tempo tenha atravessado diferentes fases, contribuiu para leituras relacionais nas quais relações de anterioridade e posterioridade podem ser tomadas como fundamentais. Arthur Prior (1914–1969), fundador da lógica temporal moderna, resistiu a uma redução completa da temporalidade às relações atemporais da série B e construiu uma lógica em que expressões como “foi o caso”, “é o caso” e “será o caso” possuem importância formal. Prior percebeu que existe algo existencialmente relevante na passagem: saber que determinada dor “acabou” não parece equivaler simplesmente a saber que ela ocorre em posição anterior numa série temporal. Richard Gale (1932–2015), Quentin Smith (1952–2020), Ned Markosian (1955–), Dean Zimmerman (1961–), Trenton Merricks (1965–), Craig Bourne, Kristie Miller, Laurie Paul (1966–), Simon Prosser e tantos outros desenvolveram variantes e críticas das teorias A e B, discutindo passagem temporal, persistência, indexicalidade, verdade de proposições sobre o futuro e compatibilidade entre metafísica temporal e relatividade. A teoria da “linha vermelha”, o branching time e concepções de futuros abertos procuram explicar uma realidade em que o passado estaria determinado, enquanto o futuro consistiria num feixe de possibilidades ainda não atualizadas. Charles Sanders Peirce (1839–1914), ao defender elementos de indeterminação real, ofereceu recursos para conceber um futuro não inteiramente fixado. Aristóteles já havia formulado o célebre problema dos futuros contingentes a partir da batalha naval: se hoje já for verdadeiro ou falso de modo necessário que haverá batalha amanhã, pareceria que o futuro está determinado. A lógica modal e temporal posterior refinaria essa dificuldade. Saul Kripke (1940–2022), embora mais conhecido pela semântica modal e filosofia da linguagem, forneceu instrumentos decisivos para pensar mundos possíveis e modalidades. David Lewis (1941–2001) levaria o realismo modal a extremos, sustentando a realidade de mundos possíveis distintos do atual, ainda que isso não equivalha diretamente a uma teoria do tempo. A importância dessas disputas para nossa pergunta é profunda. Se o presentismo estiver correto, a expectativa possui um estatuto ontológico peculiar: esperamos aquilo que literalmente ainda não existe. Se o eternalismo estiver correto, aquilo que chamamos “futuro” talvez já faça parte da estrutura total do espaço-tempo, embora não esteja presente para nós. Se o bloco crescente estiver correto, o presente seria precisamente a fronteira ontológica em que realidade nova se acrescenta. Se uma teoria de futuros ramificados estiver correta, a expectativa se dirige não a um futuro único, mas a uma pluralidade de futuros possíveis. E se o presentismo for combinado a uma teoria forte da passagem, o “agora” talvez seja a própria borda criadora da realidade. Em qualquer uma dessas alternativas, a expectativa muda de significado. Ela pode ser relação com o inexistente, perspectiva parcial sobre o já-real, abertura a possibilidades reais ou participação cognitiva numa fronteira metafísica de atualização. O problema não é semântico: diferentes teorias do presente implicam diferentes teorias da liberdade, da responsabilidade, do arrependimento, da esperança e da história. Se o futuro não existe, nossas decisões parecem participar efetivamente de sua constituição; se existe como parte de um bloco, torna-se necessário explicar por que experimentamos passagem e abertura; se vários futuros são possíveis, o presente seria nó de bifurcações; se apenas relações de anterioridade e posterioridade existem, a sensação de “agora passando” exigiria explicação psicológica. O presente não é apenas quando estamos. Dependendo da teoria escolhida, ele pode ser tudo o que existe, a extremidade do que existe, uma perspectiva sobre aquilo que existe igualmente ou uma aparência construída por seres temporais finitos.
ESQUEMA II — QUATRO ONTOLOGIAS DO AGORA
PRESENTISMO passado = não mais existente presente = único existente futuro = ainda inexistente
BLOCO CRESCENTE passado = existente presente = fronteira atual futuro = inexistente
ETERNALISMO passado = existente presente = existente futuro = existente agora = posição perspectivística
MOVING SPOTLIGHT todos os tempos = existentes um deles = metafisicamente presente passagem = deslocamento da atualidade
A física moderna abalou violentamente a concepção intuitiva de um presente universal. Isaac Newton (1643–1727) formulara uma concepção de tempo absoluto que fluiria uniformemente por si mesmo, independentemente dos acontecimentos. Dentro desse quadro, parecia relativamente natural supor um “agora” cósmico: todos os acontecimentos poderiam, em princípio, ser classificados segundo um mesmo tempo universal. Gottfried Wilhelm Leibniz (1646–1716) recusou essa substancialização, concebendo espaço e tempo de maneira relacional: o tempo expressaria ordem de sucessões, não uma entidade independente que correria por trás dos acontecimentos. A disputa Newton-Leibniz anteciparia questões que reapareceriam de maneira radical na física posterior. Ernst Mach (1838–1916) criticaria concepções absolutas de espaço e movimento, influenciando o ambiente intelectual no qual Albert Einstein (1879–1955) formularia a relatividade especial. A grande transformação aparece quando a simultaneidade deixa de ser absoluta. Dois acontecimentos espacialmente separados que são simultâneos para um observador podem não ser simultâneos para outro em movimento relativo. Hermann Minkowski (1864–1909) reformulou geometricamente a relatividade, concebendo espaço e tempo integrados num espaço-tempo quadridimensional. A famosa imagem do universo-bloco, embora seja uma interpretação filosófica e não simples tradução obrigatória da física, encontra aí poderosa inspiração: se diferentes observadores recortam de maneiras distintas aquilo que chamam de simultâneo, onde localizar um único presente universal? Einstein (1879–1955) chegou a considerar a distinção entre passado, presente e futuro como algo de persistência subjetiva extraordinária, embora sua posição pessoal não encerre o debate metafísico. Kurt Gödel (1906–1978), ao encontrar soluções das equações da relatividade geral contendo curvas temporais fechadas, utilizou a relatividade para questionar a objetividade de um tempo universal em fluxo. Hans Reichenbach (1891–1953) investigou a estrutura do espaço-tempo e a convencionalidade envolvida em definições de simultaneidade. Adolf Grünbaum (1923–2018) defendeu leituras segundo as quais a passagem temporal não pertence necessariamente à estrutura física fundamental. Hilary Putnam (1926–2016) argumentou que a relatividade favoreceria uma ontologia em que acontecimentos distantes temporalmente possuem realidade. Howard Stein (1929–2011), Roberto Torretti (1930–2022), John Earman (1942–), Tim Maudlin (1958–), Craig Callender (1968–), Huw Price (1953–), Carlo Rovelli (1956–) e outros ofereceram análises mais refinadas, muitas vezes resistindo a inferências simplistas entre relatividade e eternalismo. Rovelli, particularmente, enfatiza que a física contemporânea pode exigir o abandono de uma noção universal de presente, mas não a eliminação de toda temporalidade; em determinadas formulações de gravidade quântica, o tempo pode surgir relacionalmente das interações entre sistemas. Julian Barbour (1937–), em posição mais radical, propôs uma física na qual o tempo fundamental poderia desaparecer, restando configurações ou “agoras” numa estrutura atemporal. Lee Smolin (1955–), ao contrário, insiste em recuperar a realidade do tempo e da mudança, chegando a defender que leis naturais podem possuir historicidade. George Ellis (1939–) propôs versões de um bloco em evolução, buscando conciliar relatividade com uma realidade que se torna. Henri Bergson (1859–1941), em sua controvérsia com Einstein, insistiu em que o tempo vivido não poderia ser esgotado pelo tempo medido fisicamente. Embora Bergson tenha sido frequentemente retratado como derrotado pela física relativística, a questão filosófica que levantou permanece: a descrição física de relações temporais substitui ou apenas complementa a descrição fenomenológica da duração? A física pode medir intervalos sem, necessariamente, explicar o caráter vivido do agora. É possível conhecer todas as coordenadas espaço-temporais de uma sinfonia gravada sem, por isso, reproduzir a experiência de escutá-la. O presente físico e o presente fenomenológico podem não coincidir. O primeiro pode ser local, relacional, dependente de referenciais; o segundo possui espessura consciente. O que chamamos cotidianamente de “agora no mundo” mistura essas duas dimensões sem perceber. Quando dizemos “agora é 18h”, utilizamos uma convenção de sincronização social fundada em relógios físicos; quando dizemos “este instante parece interminável”, descrevemos duração vivida; quando dizemos “o acidente está acontecendo agora em outra cidade”, supomos determinada estrutura de simultaneidade; quando dizemos “meu passado parece presente”, falamos de outra temporalidade. O presente é, portanto, uma palavra que ocupa vários níveis ontológicos simultaneamente. Não existe qualquer garantia de que o “agora” da física, o “agora” da consciência, o “agora” da gramática e o “agora” da vida social sejam a mesma coisa.
O segundo grande problema físico do presente surge da seta do tempo. Muitas equações fundamentais são, em larga medida, temporalmente simétricas: funcionam matematicamente tanto numa direção quanto noutra. Entretanto, nossa experiência do mundo não é simétrica. Lembramos o passado e não o futuro; copos quebram e não se recompõem espontaneamente; organismos envelhecem; fumaça se dispersa; calor flui espontaneamente de regiões mais quentes para mais frias; documentos queimados não se reconstituem. Ludwig Boltzmann (1844–1906) relacionou essa assimetria à termodinâmica estatística e à entropia. Rudolf Clausius (1822–1888) havia formulado o conceito de entropia dentro da termodinâmica e ajudado a estabelecer a segunda lei. Arthur Eddington (1882–1944) popularizou a expressão “seta do tempo”, associando-a à direção de crescimento da entropia. Hans Reichenbach (1891–1953) desenvolveu uma filosofia da direção temporal vinculada a processos irreversíveis. Ilya Prigogine (1917–2003) insistiu no caráter criativo e irreversível do tempo em sistemas longe do equilíbrio, rejeitando a redução da temporalidade a mera aparência macroscópica. Huw Price (1953–) examinou o chamado preconceito temporal de nossa perspectiva, perguntando por que tratamos passado e futuro de maneiras assimétricas. David Albert (1954–) e Barry Loewer (1945–) desenvolveram abordagens que relacionam a seta termodinâmica a condições iniciais de baixa entropia do universo. Sean Carroll (1966–) tornou amplamente conhecida a questão cosmológica de por que o passado remoto teria entropia extraordinariamente baixa. Roger Penrose (1931–) relacionou a seta temporal a propriedades cosmológicas e à gravidade, desenvolvendo hipóteses sobre a baixa entropia gravitacional inicial. Essa discussão interfere diretamente na ontologia do presente. Se a direção temporal emerge de condições físicas e estatísticas, talvez nossa percepção de passagem esteja ancorada na assimetria física de processos que produzem registros: memórias são vestígios do passado porque o universo permite a formação de correlações e registros numa direção temporal específica. Um presente cognitivo poderia depender precisamente da existência de um mundo em que informações sobre estados anteriores deixam rastros nos estados posteriores. A memória não é apenas psicológica; é também uma forma física de registro. Fotografias, fósseis, cicatrizes, arquivos e cérebros são configurações presentes correlacionadas com acontecimentos passados. Não possuímos vestígios do futuro porque a estrutura causal e termodinâmica não se organiza simetricamente para nós. O presente seria, então, a posição a partir da qual existem registros de uma direção e abertura causal para outra. Essa assimetria produz uma diferença fenomenológica gigantesca entre memória e expectativa. Podemos lembrar a infância, mas não lembrar o ano que vem; podemos antecipar o próximo minuto, mas não modificar diretamente o minuto anterior. A irreversibilidade dá peso ao presente porque aquilo que fazemos nele transforma-se imediatamente em passado indisponível. Nietzsche (1844–1900), ao imaginar o eterno retorno, transformou essa irreversibilidade num teste existencial: quereríamos viver cada instante novamente? Walter Benjamin (1892–1940) via o presente histórico como agora carregado de tensões do passado, um Jetztzeit capaz de romper a narrativa homogênea do progresso. Ernst Bloch (1885–1977) via no presente o lugar do ainda-não-consciente e das possibilidades utópicas. Heidegger (1889–1976) conectou temporalidade à finitude, especialmente à antecipação da morte. Hans Jonas (1903–1993), diante do poder tecnológico, projetaria essa assimetria para a ética: atos presentes podem produzir consequências irreversíveis para gerações futuras incapazes de responder. Assim, a seta do tempo não é apenas uma direção física; ela estrutura responsabilidade. O presente é grave porque passa, e passa de maneira que não nos permite reabrir simetricamente aquilo que acabamos de fechar.
ESQUEMA III — AS QUATRO SETAS QUE CONVERGEM NO AGORA
seta termodinâmica → aumento de entropia
seta causal → causas precedem efeitos na experiência ordinária
seta psicológica → lembramos o passado, antecipamos o futuro
seta histórica → decisões tornam-se irreversivelmente antecedentes
convergência das setas → experiência de passagem
O presente neuropsicológico acrescenta nova camada ao problema porque a consciência não parece operar em instantes fisicamente infinitesimais, mas integrar informações dentro de janelas temporais. William James (1842–1910), com seu “presente especioso”, antecipou uma questão hoje investigada experimentalmente: qual é a extensão temporal dentro da qual acontecimentos sucessivos são percebidos como pertencentes a uma unidade imediata? Ernst Pöppel (1940–) estudou mecanismos temporais da percepção e sugeriu janelas de integração que poderiam organizar a experiência consciente em diferentes escalas. Francisco Varela (1946–2001) combinou fenomenologia, neurociência e dinâmica de sistemas para pensar a consciência temporal não como sequência de fotografias mentais, mas como processo integrado. Evan Thompson (1962–), desenvolvendo a neurofenomenologia, enfatizou a temporalidade intrínseca da experiência e do organismo. Gerald Edelman (1929–2014), Antonio Damasio (1944–), Stanislas Dehaene (1965–), Giulio Tononi (1960–), Christof Koch (1956–), Anil Seth (1972–) e outros, embora defendam teorias distintas da consciência, ajudam a mostrar que aquilo que chamamos de experiência presente depende de processos distribuídos, integração temporal, atenção, memória de trabalho, previsão e atualização. David Eagleman (1971–) popularizou experimentos sobre distorções subjetivas do tempo, mostrando como intensidade emocional, novidade e processamento de memória podem alterar a duração retrospectivamente percebida. Marc Wittmann (1966–) estuda relações entre percepção temporal, interocepção e consciência corporal. Dean Buonomano (1964–) investiga como o cérebro representa e aprende intervalos temporais. Benjamin Libet (1916–2007), em pesquisas controversas sobre consciência e decisão, mostrou que processos neurais associados a uma ação podem anteceder a consciência declarada de decidir, provocando debates sobre liberdade e temporalidade da vontade. Daniel Wegner (1948–2013) problematizou a experiência de vontade consciente como construção interpretativa. Patrick Haggard (1965–) estudou a chamada ligação intencional, pela qual ações voluntárias e seus efeitos parecem temporalmente aproximar-se na experiência. A neurociência, portanto, complica o “agora” em vez de simplificá-lo. O presente consciente não corresponde necessariamente ao instante exato da ocorrência física de um estímulo. O cérebro integra sinais que chegam em velocidades diferentes, corrige atrasos, antecipa movimentos, sincroniza modalidades sensoriais e produz uma experiência coerente de simultaneidade. Quando vemos alguém bater palmas a alguma distância, luz e som alcançam nossos sentidos em tempos fisicamente diferentes; contudo, o sistema perceptivo possui tolerâncias e mecanismos de integração que nos permitem perceber um único acontecimento. David Marr (1945–1980), embora mais relacionado à visão computacional e aos níveis de explicação, mostrou a importância de distinguir problema computacional, algoritmo e implementação neural. Karl Friston (1959–), Andy Clark (1957–), Jakob Hohwy (1974–) e Lisa Feldman Barrett (1963–) desenvolveram ou expandiram diferentes versões do processamento preditivo, segundo as quais o cérebro não recebe passivamente um presente pronto: ele gera modelos, antecipa causas dos sinais e corrige erros. Anil Seth (1972–) descreve a percepção, em linguagem provocativa, como uma inferência controlada pela realidade. Se a percepção é profundamente preditiva, então a expectativa está incorporada à própria fabricação do presente perceptivo. Não vemos primeiro e esperamos depois; em parte, vemos porque antecipamos. O sistema visual prevê continuidade de objetos; o sistema motor antecipa consequências de movimentos; a linguagem é processada probabilisticamente antes do término das frases; expressões faciais são interpretadas à luz de contextos prévios; o corpo regula-se antecipatoriamente através da alostase. Peter Sterling (1940–) e Joseph Eyer (1944–1984) contribuíram para a noção de alostase, segundo a qual organismos mantêm estabilidade precisamente por antecipar demandas futuras e ajustar-se antes que desequilíbrios ocorram. O presente fisiológico é, nesse sentido, prospectivo. O coração, o sistema endócrino, a atenção e a motricidade não esperam passivamente que o futuro aconteça para então reagir; organismos sobrevivem porque antecipam. A fronteira entre presente e futuro torna-se biologicamente porosa. Expectativa deixa de ser apenas pensamento e passa a significar previsão corporal. A pergunta original reaparece em nível mais profundo: talvez um organismo absolutamente incapaz de antecipar deixe de possuir não apenas projetos, mas capacidade mínima de agir adaptativamente.
A psicologia da expectativa revela ainda que o futuro influencia o presente mesmo quando o acontecimento esperado nunca ocorrerá. Ivan Pavlov (1849–1936) mostrou como sinais podem adquirir capacidade de desencadear respostas antes do evento biologicamente relevante. Edward Thorndike (1874–1949), B. F. Skinner (1904–1990) e Clark Hull (1884–1952) desenvolveram teorias de aprendizagem nas quais comportamento é moldado por relações entre ação e consequências. Edward Tolman (1886–1959), afastando-se de um behaviorismo estrito, introduziu expectativas e mapas cognitivos. Albert Bandura (1925–2021) mostrou a importância de expectativas de autoeficácia para ação. Julian Rotter (1916–2014) trabalhou com expectativas em sua teoria da aprendizagem social. Walter Mischel (1930–2018) investigou adiamento de gratificação, ainda que interpretações contemporâneas tenham enfatizado que a capacidade de esperar depende também da confiabilidade do ambiente e das condições socioeconômicas. Daniel Kahneman (1934–2024) e Amos Tversky (1937–1996) mostraram como julgamento sob incerteza é organizado por heurísticas e vieses. Richard Thaler (1945–) incorporou tais insights à economia comportamental. George Loewenstein (1955–) investigou escolha intertemporal e como estados presentes alteram decisões sobre o futuro. Samuel McClure e outros pesquisadores examinaram sistemas neurais envolvidos em recompensas imediatas e adiadas. Martin Seligman (1942–), juntamente com outros autores, deslocou parte de sua obra posterior para uma psicologia prospectiva, na qual seres humanos são definidos não apenas pelo passado, mas pela capacidade de imaginar e avaliar futuros. Roy Baumeister (1953–) defendeu a importância da prospecção para autorregulação. Daniel Gilbert (1957–) mostrou como somos imperfeitos ao prever nossos próprios estados afetivos futuros. Timothy Wilson (1951–) investigou erros de previsão afetiva. George Mandler (1924–2016) trabalhou com emoção e expectativa; Richard Lazarus (1922–2002) enfatizou avaliações cognitivas na constituição emocional. A ansiedade, nessa arquitetura, é quase impossível de compreender sem temporalidade: ela se dirige ao possível. Kierkegaard (1813–1855) chamou-a de vertigem da liberdade, porque o possível abre tanto realização quanto queda. Sigmund Freud (1856–1939) relacionou ansiedade a perigo esperado e conflito psíquico. Melanie Klein (1882–1960), Donald Winnicott (1896–1971) e Wilfred Bion (1897–1979) investigaram, cada qual de forma própria, capacidade de suportar ausência, frustração e espera. Jacques Lacan (1901–1981) deslocou o desejo para uma estrutura em que a falta jamais é simplesmente eliminada pela posse de um objeto. Ernst Bloch (1885–1977), no extremo oposto da ansiedade, transformou esperança em categoria filosófica do “ainda-não”. Gabriel Marcel (1889–1973) distinguiu esperança autêntica de expectativa calculável. Baruch Spinoza (1632–1677) observou que esperança e medo são afetos correlatos: a esperança incerta contém medo; o medo incerto contém esperança. Arthur Schopenhauer (1788–1860) concebeu o desejo como mecanismo de falta, satisfação transitória e renovação da falta. Nietzsche (1844–1900) denunciou esperanças que sacrificam o presente em nome de mundos futuros, mas simultaneamente construiu uma filosofia da criação e da superação. Albert Camus (1913–1960) buscou fidelidade ao presente diante da ausência de garantia transcendente. Viktor Frankl (1905–1997) mostrou, por outro lado, que a perda radical de horizonte futuro pode destruir a capacidade de sustentar a própria vida. A expectativa pode, portanto, adoecer o presente ou preservá-lo. O problema não está em possuir futuro, mas na forma como o futuro ocupa o agora. Uma possibilidade pode funcionar como horizonte, projeto, ameaça, promessa, obsessão, esperança, obrigação ou sentido. O presente humano é plástico porque diferentes modalidades de futuro produzem diferentes qualidades de presente.
ESQUEMA IV — O FUTURO JÁ ATUA ANTES DE EXISTIR
possibilidade imaginada → emoção presente
emoção presente → decisão
decisão → comportamento
comportamento → alteração das probabilidades futuras
expectativa → ação → novo campo de possibilidades
logo: o futuro inexistente pode possuir eficácia mediada no presente
Essa eficácia prospectiva torna-se ainda mais clara quando se analisa ação e identidade. John Locke (1632–1704) procurou relacionar identidade pessoal à continuidade da consciência e da memória. David Hume (1711–1776) dissolveu a substância do eu numa coleção mutável de percepções. Derek Parfit (1942–2017) mostrou que aquilo que importa na sobrevivência pessoal pode ser continuidade psicológica e conexão, não necessariamente identidade numérica absoluta. Paul Ricoeur (1913–2005) distinguiu identidade-idem e identidade-ipse, mostrando que permanecer si mesmo não é simplesmente permanecer igual. A promessa é um caso decisivo: quem promete hoje produz uma obrigação que vincula o seu eu de amanhã. Friedrich Nietzsche (1844–1900), em sua genealogia da moral, percebeu a capacidade de prometer como conquista paradoxal do animal humano: criar uma memória da vontade que se projeta para o futuro. Hannah Arendt (1906–1975) viu promessa e perdão como respostas à imprevisibilidade e irreversibilidade da ação. A promessa estabiliza algo do futuro; o perdão lida com algo do passado que não pode ser desfeito. A ação humana vive exatamente entre essas duas assimetrias. Christine Korsgaard (1952–) pensou identidade prática como aquilo em nome de que agimos e nos obrigamos. Harry Frankfurt (1929–2023) investigou desejos de segunda ordem e compromissos que estruturam a vontade. Bernard Williams (1929–2003) tratou de projetos fundamentais cuja perda poderia destruir a inteligibilidade de uma vida. Charles Taylor (1931–) mostrou que identidade depende de horizontes de significação. Alasdair MacIntyre (1929–2025) pensou a vida como unidade narrativa inserida em tradições e práticas. Charles Larmore (1950–), Susan Wolf (1952–), Jürgen Habermas (1929–) e Axel Honneth (1949–), por diferentes vias, tornam visível que identidade não é objeto instantâneo. Somos temporalmente extensos porque nossos compromissos conectam versões de nós mesmos distribuídas no tempo. O presente contém, então, uma espécie de representação do eu futuro. Economizar dinheiro significa reconhecer interesses de um eu posterior; cuidar da saúde significa agir por um organismo que ainda não alcançou determinado momento; estudar significa suportar esforço atual em nome de uma competência futura; ter filhos significa organizar o presente por pessoas que talvez nem existam ainda; construir uma instituição significa apostar numa continuidade que ultrapassa a vida de seus fundadores. Hans Jonas (1903–1993) transformou essa estrutura numa ética das gerações futuras: a tecnologia moderna ampliou tanto o alcance das ações presentes que precisamos considerar pessoas ainda inexistentes. John Rawls (1921–2002), ao discutir justiça entre gerações, introduziu o problema de como princípios justos devem regular poupança e transmissão de instituições. Derek Parfit (1942–2017) formulou o problema da não-identidade: nossas políticas presentes podem determinar não apenas a qualidade de vida de pessoas futuras, mas quais pessoas existirão. Samuel Scheffler (1951–) mostrou como grande parte do valor que atribuímos a nossas atividades presentes depende silenciosamente da expectativa de que a humanidade continue existindo depois de nossa morte. Uma descoberta científica, uma obra de arte ou uma instituição perde parte de seu sentido se acreditamos que ninguém existirá depois para recebê-la. A presença, portanto, contém futuridade mesmo quando pensamos estar voltados apenas ao agora. Grande parte daquilo que consideramos valioso é valor prospectivo. Plantamos árvores que talvez não veremos adultas; escrevemos livros para leitores futuros; ensinamos crianças para sociedades futuras; preservamos arquivos para historiadores futuros; combatemos alterações climáticas por pessoas futuras. O presente ético é inevitavelmente intergeracional.
A sociologia acrescenta outra conclusão decisiva: não existe apenas presente individual; existem regimes sociais de presente. Émile Durkheim (1858–1917) mostrou como categorias fundamentais podem possuir origem e organização social. Norbert Elias (1897–1990) analisou o tempo como instrumento social de orientação e coordenação, mostrando que relógios e calendários não são meros espelhos de um fluxo natural, mas dispositivos civilizacionais que disciplinam ações recíprocas. Georg Simmel (1858–1918) investigou como a vida metropolitana intensifica estímulos, velocidade e abstração. Karl Marx (1818–1883) percebeu que o tempo de trabalho é elemento central da produção capitalista: medir trabalho é medir parcelas da vida. Max Weber (1864–1920) mostrou como racionalização, disciplina e cálculo temporal se relacionam com formas modernas de organização. E. P. Thompson (1924–1993) analisou a passagem de uma temporalidade orientada por tarefas para uma disciplina industrial do relógio. Lewis Mumford (1895–1990) chegou a sugerir que o relógio, mais do que a máquina a vapor, foi uma tecnologia fundamental da era industrial. Michel Foucault (1926–1984) mostrou como instituições modernas distribuem corpos no espaço e organizam atividades no tempo; horários, sequências, exames e rotinas são tecnologias disciplinares. Pierre Bourdieu (1930–2002) investigou relação entre habitus, expectativa, espera e estruturas sociais. Reinhart Koselleck (1923–2006) distinguiu espaço de experiência e horizonte de expectativa, mostrando como a modernidade ampliou a distância entre o passado conhecido e os futuros imagináveis. François Hartog (1946–) formulou o conceito de regimes de historicidade e identificou no mundo contemporâneo uma tendência ao presentismo: um presente hipertrofiado, que absorve passado e futuro. Hartmut Rosa (1965–) desenvolveu uma teoria da aceleração social na qual mudanças tecnológicas, transformações sociais e ritmo de vida comprimem horizontes temporais. Zygmunt Bauman (1925–2017) descreveu a liquidez das instituições e relações modernas, dificultando compromissos de longo prazo. Anthony Giddens (1938–) mostrou como modernidade reorganiza relações entre tempo e espaço. Manuel Castells (1942–) analisou o “tempo atemporal” das redes informacionais. Paul Virilio (1932–2018) colocou velocidade no centro da política e da tecnologia. Byung-Chul Han (1959–), embora frequentemente em registro ensaístico, descreveu formas contemporâneas de aceleração, desempenho e fragmentação temporal. Jonathan Crary (1951–) analisou a sociedade 24/7, na qual capitalismo e tecnologia pressionam até mesmo o sono, último intervalo resistente à produção contínua. Judy Wajcman (1950–) investigou paradoxos da tecnologia e da sensação de falta de tempo. Barbara Adam (1945–) mostrou que sociedades organizam temporalidades múltiplas e frequentemente externalizam consequências futuras de decisões presentes. Helga Nowotny (1937–) trabalhou com o conceito de “presente estendido”, indicando que modernidade avançada produz reorganizações das fronteiras entre presente e futuro. Guy Debord (1931–1994) denunciou um tempo espetacular e mercantilizado. Walter Benjamin (1892–1940), em contraste com uma história homogênea e vazia, pensou um presente capaz de condensar passado e interrupção. O agora social, portanto, não é neutro. Há sociedades que investem fortemente no futuro; outras vivem sob insegurança que encurta horizontes; classes sociais possuem diferentes capacidades de planejar; indivíduos submetidos à fome, violência ou dívida vivem presentes mais comprimidos; patrimônio compra futuro porque permite esperar; precariedade vende futuro porque obriga a antecipar renda. O presente de quem possui reservas financeiras não é o mesmo presente de quem precisa sobreviver até sexta-feira. A expectativa não é apenas categoria mental: é distribuída socialmente. Algumas pessoas podem planejar décadas; outras só conseguem planejar horas. Ter futuro é, em parte, uma condição material.
Essa dimensão social permite formular uma crítica importante ao culto contemporâneo do “viva o agora”. A frase pode significar libertação quando dirigida a alguém aprisionado em ruminação ou medo, mas pode transformar-se em ideologia quando abstrai as condições que tornam possível viver sem preocupação constante com o futuro. Epicuro (341–270 a.C.) ensinava a reduzir desejos e temores para alcançar ataraxia, não a ignorar racionalmente consequências. Epicteto (c. 50–135), Sêneca (c. 4 a.C.–65) e Marco Aurélio (121–180) buscavam disciplinar juízos sobre aquilo que não controlamos, mas não aboliam planejamento. Siddhartha Gautama, o Buda histórico (c. 563–483 a.C.), ensinava desapego e impermanência, mas a prática budista reconhece causalidade, disciplina e consequências. Laozi (tradicionalmente situado entre os séculos VI e V a.C.) e Zhuangzi (c. 369–286 a.C.) desconfiavam da vontade de controlar excessivamente o fluxo das coisas, não da inteligência temporal. Blaise Pascal (1623–1662) percebeu a dificuldade humana de permanecer no presente e a tendência ao divertissement. Montaigne (1533–1592) observou nossa instabilidade e insuficiência. Friedrich Nietzsche (1844–1900) desejou uma afirmação da vida que não dependesse de promessa transcendente, mas sua filosofia também é profundamente projetiva. Simone Weil (1909–1943) fez da atenção uma categoria ética e espiritual, uma abertura radical ao real presente. Iris Murdoch (1919–1999) retomou a atenção como deslocamento do ego. Mihaly Csikszentmihalyi (1934–2021) descreveu estados de fluxo em que a consciência se integra intensamente à atividade presente; mas mesmo o fluxo possui temporalidade, objetivos próximos, feedback e antecipação motora. Jon Kabat-Zinn (1944–), na difusão contemporânea de práticas de mindfulness, enfatiza atenção não julgadora ao momento presente, mas essa prática não destrói as funções de memória e antecipação; modifica sua relação com a atenção. O paradoxo é inevitável: qualquer método para “estar presente” é praticado agora para produzir algum estado futuro. O próprio desejo de extinguir expectativa contém expectativa. Logo, não há saída simples da futuridade. Pode haver desidentificação em relação às expectativas, enfraquecimento de antecipações compulsivas e redução de expectativas rígidas; mas um presente absolutamente sem qualquer horizonte seguinte seria mais semelhante a uma interrupção da estrutura temporal da consciência do que a uma conquista espiritual.
ESQUEMA V — O ERRO DO “VIVA APENAS O AGORA”
presença ≠ amputação temporal
atenção ao presente ≠ ausência de memória
desapego ≠ incapacidade de planejar
aceitação ≠ indiferença ao futuro
redução da ansiedade ≠ supressão da protensão
presença madura = futuro aberto sem colonização do agora
A linguagem confirma, por outro caminho, que presente e expectativa se contaminam constantemente. Ferdinand de Saussure (1857–1913) mostrou que signos adquirem valor dentro de sistemas diferenciais. Roman Jakobson (1896–1982) investigou relações entre seleção e combinação. Émile Benveniste (1902–1976) demonstrou a centralidade da enunciação para categorias como “eu”, “aqui” e “agora”: essas palavras não possuem referência fixa fora do ato de fala. John Austin (1911–1960) mostrou que falar pode ser agir; John Searle (1932–2025) desenvolveu a teoria dos atos de fala; H. P. Grice (1913–1988) analisou expectativas cooperativas que estruturam compreensão. Ludwig Wittgenstein (1889–1951) deslocou o sentido para usos e jogos de linguagem. Hans-Georg Gadamer (1900–2002) mostrou que compreender envolve antecipações de sentido e fusão de horizontes. Noam Chomsky (1928–2025) investigou estruturas gerativas que permitem prever e organizar sequências linguísticas. Michael Halliday (1925–2018) desenvolveu uma abordagem funcional da linguagem inserida em contextos sociais. A simples leitura de uma frase já demonstra a presença do futuro dentro do presente: cada palavra limita algumas continuações e torna outras mais prováveis. Quando lemos “amanhã talvez…”, antecipamos determinadas estruturas; quando um escritor quebra uma frase inesperadamente, sentimos surpresa porque havia expectativa sintática, semântica e narrativa. Wolfgang Iser (1926–2007) mostrou como a leitura envolve lacunas e antecipações; Hans Robert Jauss (1921–1997) formulou o conceito de horizonte de expectativas na recepção estética. Umberto Eco (1932–2016) pensou o leitor modelo e processos inferenciais. Roland Barthes (1915–1980) explorou códigos narrativos que criam suspense, atraso e desejo de conclusão. Gérard Genette (1930–2018) analisou analepses, prolepses e manipulações da ordem narrativa. Paul Ricoeur (1913–2005) mostrou que narrativa configura o tempo, oferecendo forma ao que, na experiência bruta, aparece disperso. A literatura é uma tecnologia sofisticada de expectativa: introduz promessa, suspense, pressentimento, antecipação, retorno e surpresa. Música faz o mesmo em outro registro. Leonard Meyer (1918–2007) relacionou emoção musical a expectativa, atraso e resolução. Eduard Hanslick (1825–1904), Theodor Adorno (1903–1969), Susanne Langer (1895–1985) e Vladimir Jankélévitch (1903–1985) pensaram, de diferentes maneiras, forma, temporalidade e experiência musical. Beethoven (1770–1827) manipula expectativas estruturais; Wagner (1813–1883) adia resoluções; Debussy (1862–1918) dissolve trajetórias harmônicas previsíveis; Stravinsky (1882–1971) trabalha com descontinuidades rítmicas; Mozart (1756–1791) equilibra surpresa e inteligibilidade formal. O presente estético é carregado do que se espera. Uma nota musical isolada não é tensão; torna-se tensão por relação com aquilo que veio e aquilo que parece pedir. Uma pausa é musical porque esperamos continuação. O silêncio contém futuro. A expectativa, portanto, não apenas acompanha percepção e ação: organiza sentido.
Isso permite compreender por que surpresa é talvez a melhor prova indireta de que o presente contém expectativa. Ninguém pode ser surpreendido por aquilo diante do qual nenhuma possibilidade prévia estava aberta. Aristóteles (384–322 a.C.) já relacionava reconhecimento e reversão à estrutura dramática. David Hume (1711–1776) mostrou como hábito cria expectativas. Charles Sanders Peirce (1839–1914) concebeu investigação a partir da irritação da dúvida e da surpresa que interrompe hábitos. Karl Popper (1902–1994) pensou ciência como conjectura submetida a risco de refutação. Thomas Kuhn (1922–1996) mostrou como anomalias podem acumular-se contra expectativas paradigmáticas. Norwood Russell Hanson (1924–1967) argumentou que observação é teoricamente carregada. Imre Lakatos (1922–1974) descreveu programas de pesquisa que absorvem e reorganizam anomalias. Paul Feyerabend (1924–1994) atacou modelos metodológicos excessivamente rígidos. O conhecimento progride porque o mundo pode contrariar aquilo que esperávamos. Bayes (Thomas Bayes, c. 1701–1761) tornou possível formalizar a atualização de crenças diante de evidências; Pierre-Simon Laplace (1749–1827) expandiu métodos probabilísticos; Frank Ramsey (1903–1930), Bruno de Finetti (1906–1985) e Leonard Savage (1917–1971) desenvolveram leituras subjetivas ou decisórias da probabilidade. Judea Pearl (1936–) transformou o estudo contemporâneo da causalidade, distinguindo associação, intervenção e contrafactual. Expectativa, em termos probabilísticos, é distribuição sobre futuros possíveis. Informação chega, probabilidades mudam, ações mudam. O presente epistêmico é sempre atualização. Mesmo aquilo que chamamos “certeza” é, frequentemente, expectativa sedimentada. Confiamos que o chão sustentará o próximo passo, que a palavra seguinte obedecerá minimamente à gramática, que o interlocutor continuará existindo durante a conversa, que o corpo obedecerá ao gesto iniciado, que o relógio avançará. Essas expectativas são tão básicas que não as percebemos enquanto funcionam. O presente normal é invisivelmente prospectivo.
Há ainda um presente político. Reinhart Koselleck (1923–2006) mostrou que a modernidade ampliou o horizonte de expectativa e produziu uma concepção histórica na qual o futuro poderia ser radicalmente diferente do passado. Antes, sociedades organizavam mais intensamente expectativas por tradições e repetições; depois, revolução, progresso, desenvolvimento e planejamento passaram a projetar futuros qualitativamente novos. Karl Marx (1818–1883) viu presente e história através de contradições materiais que apontariam para transformações estruturais. Alexis de Tocqueville (1805–1859) investigou a democracia como forma social aberta a futuros diferentes, mas também produtora de ansiedade. Max Weber (1864–1920) descreveu racionalização e cálculo como mecanismos de previsibilidade. Hannah Arendt (1906–1975) colocou a natalidade no centro da política: seres humanos podem iniciar algo que não estava determinado. Ernst Bloch (1885–1977) elevou o “ainda-não” à categoria política. Walter Benjamin (1892–1940) recusou a ideia linear de progresso e viu no presente a possibilidade de interrupção revolucionária. Antonio Gramsci (1891–1937) compreendeu períodos de crise como interregnos em que o velho morre e o novo ainda não consegue nascer. Michel Foucault (1926–1984) tratou o presente como objeto crítico: filosofar seria diagnosticar aquilo que somos agora, incluindo as contingências históricas que nos fizeram assim. Gilles Deleuze (1925–1995) e Félix Guattari (1930–1992) pensaram linhas de fuga, devir e multiplicidade. Jacques Derrida (1930–2004) distinguiu o futuro previsível do porvir, aquilo que chega sem poder ser plenamente antecipado. Giorgio Agamben (1942–) relacionou contemporaneidade à capacidade de perceber a obscuridade do próprio tempo. François Hartog (1946–) identifica um presentismo contemporâneo no qual o presente se expande, o passado é constantemente memorializado e o futuro parece reduzido à gestão de riscos. Hartmut Rosa (1965–) descreve aceleração social: fazemos mais em menos tempo e, paradoxalmente, sentimos possuir menos tempo. Paul Virilio (1932–2018) compreendeu velocidade como dimensão política. Manuel Castells (1942–) descreveu temporalidades das redes. Byung-Chul Han (1959–) examina a atomização temporal produzida por desempenho, informação e hiperatividade. O presente contemporâneo parece simultaneamente hipertrofiado e diminuído: tudo precisa acontecer agora, mas quase nada consegue durar. Notícias envelhecem em horas; tendências desaparecem em dias; relações são avaliadas instantaneamente; decisões financeiras percorrem mercados em milissegundos; mensagens exigem respostas rápidas; plataformas registram atualização contínua. O “agora” se torna tirânico. Contudo, esse excesso de presente não elimina expectativa; multiplica-a. Esperamos notificações, respostas, atualizações, avaliações, resultados, entregas, números, sinais. A sociedade do instantâneo é também uma sociedade de microexpectativas incessantes. O futuro não desapareceu; foi fragmentado em milhares de futuros de curtíssimo prazo.
ESQUEMA VI — O PRESENTE CONTEMPORÂNEO
aceleração + conectividade + instantaneidade
→ encurtamento dos horizontes
→ multiplicação de microexpectativas
→ redução da duração subjetiva
→ ansiedade por atualização
→ presente hipertrofiado
→ incapacidade de permanecer
Talvez, então, devamos distinguir pelo menos três patologias temporais opostas. A primeira é a colonização do presente pelo futuro: o agora vale apenas como meio para alcançar o depois. Trabalha-se para a promoção; estuda-se para o diploma; economiza-se para a aposentadoria; treina-se para o corpo futuro; publica-se para reconhecimento futuro; cada experiência é instrumentalizada. Herbert Marcuse (1898–1979) criticou formas de racionalidade instrumental; Max Horkheimer (1895–1973) e Theodor Adorno (1903–1969) investigaram a transformação da razão em cálculo; Erich Fromm (1900–1980) contrapôs modos de ter e ser. A segunda patologia é a colonização do presente pelo passado: ressentimento, trauma, nostalgia, tradição fossilizada, repetição. Freud (1856–1939) mostrou a compulsão à repetição; Nietzsche (1844–1900) analisou ressentimento e necessidade de uma força plástica capaz de esquecer; Bergson (1859–1941) mostrou como passado se conserva na duração; Maurice Halbwachs (1877–1945) mostrou como memória também é social; Pierre Nora (1931–) analisou lugares de memória. A terceira patologia é a absolutização do presente, na qual nenhum compromisso durável resiste ao prazer ou à pressão imediata. Bauman (1925–2017), Hartog (1946–), Rosa (1965–), Crary (1951–) e outros ajudam a diagnosticar uma cultura em que duração se torna difícil. Uma temporalidade humana suficientemente rica talvez exija equilíbrio estrutural: memória sem prisão, presença sem cegueira, expectativa sem colonização. A consciência precisa do passado para reconhecer; do presente para experimentar; do futuro para orientar-se. Retirar qualquer uma dessas dimensões produz deformações. Uma pessoa sem memória radical não possui continuidade biográfica suficiente; uma pessoa incapaz de presença não vive aquilo que continuamente adia; uma pessoa sem horizonte futuro pode perder projeto e sentido. Agostinho (354–430), Husserl (1859–1938) e Heidegger (1889–1976), apesar das distâncias entre eles, convergem num ponto impressionante: temporalidade humana não é soma de três caixas. Passado, presente e futuro estão estruturalmente implicados uns nos outros.
Chegamos, então, à pergunta central em sua forma mais precisa: pode haver experiência presente sem qualquer expectativa? Se expectativa significar desejo consciente por um resultado particular, evidentemente sim. Podemos existir por instantes sem esperar uma ligação, uma viagem, uma resposta ou uma mudança. Se expectativa significar previsão proposicional explícita, também sim: grande parte do tempo não estamos formulando sentenças sobre aquilo que ocorrerá no segundo seguinte. Mas se expectativa significar protensão husserliana, antecipação motora, previsão perceptiva, orientação corporal, estrutura sintática, disposição para continuidade, campo de possibilidades ou abertura existencial ao que vem, a resposta parece aproximar-se de um não. O presente consciente é constitutivamente direcionado. Husserl (1859–1938) fornece a formulação fenomenológica mais precisa: sem retenção e protensão, não haveria fluxo temporal experimentado. Heidegger (1889–1976) acrescenta que existência é ser-adiante-de-si. Bergson (1859–1941) impede que quebremos artificialmente a duração em pontos. James (1842–1910) mostra que o agora vivido possui extensão. Merleau-Ponty (1908–1961) demonstra que o corpo já antecipa antes que a razão formule. A psicologia preditiva sugere que percepção depende de previsão. A biologia alostática sugere que vida depende de preparação antecipatória. A sociologia mostra que instituições são redes de expectativas recíprocas. A linguagem mostra que compreensão projeta continuações. A ética demonstra que responsabilidades presentes alcançam pessoas futuras. A física relativística dissolve a ideia ingênua de um presente universal, ao passo que a termodinâmica ancora uma assimetria que diferencia memória e expectativa. A metafísica analítica permanece dividida sobre se apenas o presente existe, se todo o espaço-tempo existe ou se a realidade cresce; mas praticamente qualquer alternativa precisa explicar por que seres conscientes experimentam um agora carregado de passagem. Portanto, o presente sem expectativa pode existir como ideal lógico, conceito-limite ou abstração matemática, mas dificilmente como experiência humana integral. O “presente puro”, se absolutamente desprovido de retenção e protensão, não seria paz; seria dissolução de continuidade. Não ouviríamos melodias, apenas sons; não compreenderíamos frases, apenas fonemas; não caminharíamos, apenas produziríamos contrações musculares sem direção; não reconheceríamos rostos, porque reconhecimento requer continuidade; não poderíamos surpreender-nos, porque surpresa pressupõe expectativa; não agiríamos, porque ação contém uma finalidade ainda não realizada; talvez sequer percebêssemos movimento, porque movimento exige integrar posições sucessivas. Um agora radicalmente isolado seria fenomenologicamente quase nada.
ESQUEMA VII — TESTE DE SUBTRAÇÃO TEMPORAL
retire a memória → desaparece a continuidade
retire a protensão → desaparece a direção
retire a expectativa perceptiva → desorganiza-se o reconhecimento
retire a antecipação motora → desorganiza-se a ação
retire o horizonte de possibilidade → desaparece o projeto
retire passado + futuro → o agora deixa de possuir espessura
resultado → o presente puro aproxima-se de um ponto abstrato, não de uma vida
Mas existe uma consequência ainda mais profunda. Se o presente contém expectativa, então o futuro exerce uma forma peculiar de causalidade sobre o presente sem precisar existir como causa física posterior agindo retroativamente. Aristóteles (384–322 a.C.) chamaria atenção para a causalidade final: aquilo em vista de que uma ação é realizada explica o comportamento mesmo antes de o fim ser alcançado. Um arquiteto constrói em função de uma casa ainda inexistente; um estudante organiza anos de vida em função de uma formação futura; uma pessoa viaja em direção a uma cidade na qual ainda não está. A filosofia moderna, ao privilegiar frequentemente causas eficientes, reduziu a centralidade de causas finais, mas sistemas intencionais continuam difíceis de compreender sem referência a objetivos. Franz Brentano (1838–1917) reintroduziu a intencionalidade como marca do mental: consciência é consciência de algo. Husserl (1859–1938) ampliou essa estrutura; Heidegger (1889–1976) deslocou-a para projetos existenciais; Sartre (1905–1980) mostrou a consciência como transcendência do dado; Maurice Merleau-Ponty (1908–1961) incorporou direção prática ao corpo. Elizabeth Anscombe (1919–2001) renovou a filosofia da ação ao destacar intenção; Donald Davidson (1917–2003) relacionou razões e causas; Michael Bratman (1945–) estudou planos como estruturas temporais que coordenam ação; Alfred Mele (1951–) investigou intenção e autocontrole. O futuro enquanto representação presente possui força causal porque reorganiza decisões. Robert K. Merton (1910–2003) mostrou isso socialmente na profecia autorrealizável: crenças sobre o futuro produzem ações que contribuem para realizar o estado esperado. William Isaac Thomas (1863–1947) e Dorothy Swaine Thomas (1899–1977) formularam que situações definidas como reais tornam-se reais em suas consequências. George Herbert Mead (1863–1931) mostrou que interação social envolve antecipação das respostas de outros. Erving Goffman (1922–1982) demonstrou como performances são organizadas por expectativas sociais. John Maynard Keynes (1883–1946) destacou o papel das expectativas na economia; expectativas empresariais alteram investimento; expectativas inflacionárias alteram preços e salários; expectativas de crise podem produzir corridas bancárias; expectativas de valorização podem inflar bolhas. George Soros (1930–) chamou atenção para a reflexividade dos mercados: crenças podem afetar fundamentos que, por sua vez, transformam crenças. A expectativa de algo modifica as condições de possibilidade desse algo. O futuro não precisa existir para agir: basta ser imaginado no presente. Essa talvez seja uma das características mais extraordinárias da consciência humana. Criamos futuros representados, reagimos a eles e, reagindo, mudamos os futuros efetivamente possíveis.
Assim, talvez seja necessário abandonar definitivamente a imagem do presente como pequena ilha cercada de inexistência. O presente é mais semelhante a um nó: linhas de passado chegam até ele e linhas de possibilidade partem dele. Alfred North Whitehead (1861–1947) pensou a realidade como processo de acontecimentos que recebem um mundo anterior e se tornam dados para acontecimentos seguintes. Henri Bergson (1859–1941) viu a duração como criação contínua de novidade. Gilles Deleuze (1925–1995), inspirando-se em Bergson, multiplicou distinções entre atual e virtual, recusando reduzir o possível a mera cópia antecipada do real. Ernst Bloch (1885–1977) pensou a realidade atravessada pelo ainda-não. Charles Sanders Peirce (1839–1914) atribuiu papel ontológico ao acaso, ao hábito e à evolução. William James (1842–1910), em seu pluralismo, resistiu a uma totalidade fechada. Ilya Prigogine (1917–2003) recuperou irreversibilidade e novidade na descrição científica. Lee Smolin (1955–) defende a realidade do tempo contra modelos excessivamente atemporais. George Ellis (1939–) tenta formalizar uma realidade que se atualiza. Em todas essas perspectivas, com enormes diferenças internas, o presente deixa de ser apenas local onde acontecimentos já determinados são revelados; pode ser local de produção, atualização ou criação. Isso transforma expectativa em participação na abertura. Esperamos porque nem tudo está dado para nós — e talvez nem tudo esteja dado em absoluto. A expectativa é sinal cognitivo de nossa incompletude, mas também condição de nossa liberdade. Um ser que conhecesse absolutamente todo o futuro não esperaria; constataria antecipadamente. Um ser incapaz de representar qualquer futuro não esperaria; apenas reagiria. A experiência humana ocupa a região intermediária: sabemos o suficiente para antecipar, mas não o suficiente para possuir; projetamos sem garantir; calculamos sem dominar; desejamos sem comandar; tememos sem conhecer. A expectativa nasce exatamente dessa assimetria entre capacidade de imaginar e incapacidade de assegurar.
O presente sem expectativa seria, por isso, também um presente sem surpresa, sem promessa, sem esperança, sem medo, sem estratégia, sem projeto e, em grande medida, sem ação. Gabriel Marcel (1889–1973) mostrou que esperança não é simples cálculo de probabilidades. Ernst Bloch (1885–1977) associou-a ao ainda-não. Kierkegaard (1813–1855) viu a possibilidade como vertigem. Sartre (1905–1980) transformou existência em projeto. Beauvoir (1908–1986) mostrou que liberdade se exerce em situações e se dirige além delas. Hannah Arendt (1906–1975) colocou a natalidade como capacidade de iniciar. Derrida (1930–2004) insistiu num porvir que não pode ser reduzido à programação. Levinas (1906–1995) associou o futuro à alteridade irredutível. Hans Jonas (1903–1993) converteu antecipação em responsabilidade. Esses autores permitem formular talvez a consequência normativa mais importante desta investigação: a maturidade temporal não consiste em eliminar expectativas, mas em distinguir as expectativas que orientam das expectativas que aprisionam. Há expectativa necessária: aquela que torna ação inteligível. Há expectativa prudencial: aquela que nos permite preparar consequências. Há expectativa ética: aquela que considera efeitos sobre outros. Há expectativa criativa: aquela que imagina possibilidades novas. Há expectativa ansiosa: aquela que transforma possibilidades negativas em quase-presenças opressivas. Há expectativa narcísica: aquela que converte desejo próprio em obrigação do mundo. Há expectativa ideológica: aquela que sacrifica vidas presentes em nome de futuros prometidos. Há expectativa econômica: aquela que antecipa renda e valor. Há expectativa institucional: aquela que permite confiança. Há expectativa jurídica: aquela que sustenta segurança, previsibilidade e legítima confiança. Há expectativa amorosa: aquela que atribui continuidade a vínculos. Há expectativa existencial: aquela pela qual ainda nos reconhecemos como alguém que pode tornar-se diferente. O problema nunca foi simplesmente esperar. O problema é como esperamos.
ESQUEMA VIII — UMA TIPOLOGIA DA EXPECTATIVA
EXPECTATIVA ESTRUTURAL condição da temporalidade vivida
EXPECTATIVA PERCEPTIVA antecipação de regularidades sensoriais
EXPECTATIVA MOTORA antecipação das consequências do gesto
EXPECTATIVA COGNITIVA previsão consciente
EXPECTATIVA AFETIVA esperança, medo, ansiedade, desejo
EXPECTATIVA PRÁTICA planejamento para fins
EXPECTATIVA SOCIAL antecipação da conduta alheia
EXPECTATIVA INSTITUCIONAL confiança em regularidades públicas
EXPECTATIVA NORMATIVA crença sobre o que deve ocorrer
EXPECTATIVA EXISTENCIAL projeção de possibilidades de ser
EXPECTATIVA HISTÓRICA imagem coletiva do futuro
EXPECTATIVA METAFÍSICA relação entre presente e aquilo que ainda não é`
A conclusão, portanto, não pode ser “devemos abandonar o futuro para viver o presente”, porque essa fórmula reproduziria justamente a falsa oposição que toda a investigação desmontou. O presente humano somente é presente porque traz consigo vestígios do que acabou de ocorrer e horizontes do que ainda poderá ocorrer. Agostinho (354–430) chamou atenção, memória e expectativa de formas presentes da temporalidade. Bergson (1859–1941) mostrou que o passado se conserva na duração. James (1842–1910) mostrou que a consciência imediata possui espessura. Husserl (1859–1938) demonstrou que retenção e protensão são constitutivas do fluxo. Heidegger (1889–1976) mostrou que existência se temporaliza projetivamente. Merleau-Ponty (1908–1961) revelou que o corpo antecipa. Ricoeur (1913–2005) mostrou que narrativa configura temporalidade. Einstein (1879–1955) e Minkowski (1864–1909) abalaram o agora físico universal. Boltzmann (1844–1906), Clausius (1822–1888), Eddington (1882–1944) e Prigogine (1917–2003) colocaram a irreversibilidade e a seta temporal no centro da diferença entre antes e depois. McTaggart (1866–1925) transformou passado, presente e futuro em problema metafísico. Prior (1914–1969) preservou formalmente a importância dos tempos verbais e da passagem. Hartog (1946–) mostrou que sociedades possuem regimes de historicidade. Koselleck (1923–2006) explicou como horizonte de expectativa estrutura épocas. Rosa (1965–) mostrou que aceleração transforma o agora. Friston (1959–), Clark (1957–), Hohwy (1974–) e Barrett (1963–) mostram, por vias diferentes, quanto a previsão participa da percepção. Bourdieu (1930–2002), Elias (1897–1990), Thompson (1924–1993), Foucault (1926–1984), Castells (1942–), Wajcman (1950–) e Crary (1951–) revelam que também habitamos calendários, prazos, horários e horizontes produzidos socialmente. Cada teoria acrescenta uma camada. Juntas, elas tornam quase impossível sustentar uma concepção inocente do agora. O presente não é uma lâmina. É uma articulação. Não é ausência de passado e futuro, mas sua forma singular de encontro. Não é um vazio entre dois nadas, mas região em que o passado possui efeitos e o futuro adquire representação. Não é imobilidade, mas passagem; não é autossuficiência, mas relação; não é ausência de expectativa, mas o único lugar em que toda expectativa pode existir. O futuro futuro, se assim se pode dizer, ainda não está aqui; mas toda expectativa do futuro está inevitavelmente aqui, agora. E talvez esteja nesse paradoxo a resposta definitiva: o presente pode existir sem determinado objeto de expectativa, pode existir sem ansiedade consciente, pode existir sem projeto explícito, mas provavelmente não existe, para uma consciência humana temporalmente integrada, sem alguma forma de abertura àquilo que vem. Retirar integralmente essa abertura não purificaria o presente. Destruiria sua estrutura. O presente não é aquilo que sobra quando eliminamos passado e futuro. O presente é precisamente o lugar em que o passado deixa de ser apenas passado e o futuro começa a ser mais do que nada.
ESQUEMA FINAL — A ARQUITETURA DO AGORA
PASSADO ↓ memória retenção hábito causalidade história identidade experiência ↓
PRESENTE percepção atenção corpo ação decisão linguagem consciência atualização ↓
FUTURO protensão expectativa possibilidade promessa esperança medo projeto responsabilidade
PASSADO → PRESENTE → FUTURO
mas também:
PASSADO → estrutura aquilo que esperamos
FUTURO IMAGINADO → reorganiza aquilo que fazemos agora
e, portanto:
MEMÓRIA ↔ PRESENTE ↔ EXPECTATIVA
O presente não é um ponto entre dois vazios. É a região de máxima tensão entre aquilo que já produziu efeitos e aquilo que ainda pode produzi-los. Talvez seja exatamente por isso que jamais conseguimos permanecer num agora absolutamente puro: o presente humano não é aquilo que está entre o passado e o futuro; é o acontecimento em que ambos se encontram.
Resumo
Perguntar se existe presente sem expectativa exige primeiro definir o que chamamos de presente, porque a tradição filosófica, científica e fenomenológica oferece respostas profundamente distintas. Aristóteles (384–322 a.C.) compreendeu o agora como limite entre antes e depois; Agostinho de Hipona (354–430) deslocou passado, presente e futuro para a alma, distinguindo memória, atenção e expectativa; Immanuel Kant (1724–1804) concebeu o tempo como forma a priori da sensibilidade; Friedrich Hegel (1770–1831) mostrou a instabilidade do “agora”, que imediatamente deixa de ser aquilo que era; Søren Kierkegaard (1813–1855) pensou o instante como intersecção entre temporalidade e eternidade; Henri Bergson (1859–1941) recusou o tempo como sucessão de pontos homogêneos e propôs a duração; William James (1842–1910) formulou o “presente especioso”, uma pequena extensão temporal vivida; Edmund Husserl (1859–1938) demonstrou que o presente fenomenológico contém impressão primordial, retenção do que acaba de ocorrer e protensão do que está por vir; Martin Heidegger (1889–1976) compreendeu a temporalidade humana como estrutura extática de futuro, passado e presença; Maurice Merleau-Ponty (1908–1961) mostrou que o corpo também vive antecipando movimentos e possibilidades; Paul Ricoeur (1913–2005) revelou como narrativa e temporalidade se organizam mutuamente. A primeira conclusão é decisiva: o presente vivido dificilmente é um ponto puro. Ele possui espessura, continuidade, memória imediata e abertura ao que vem. Retirar completamente essa abertura não produziria um “presente mais puro”; provavelmente destruiria a própria experiência temporal enquanto fluxo reconhecível.
ESQUEMA I — TEORIAS DO PRESENTE
Aristóteles → presente-limite
Agostinho → presente da alma
Kant → presente transcendental
Bergson → duração
James → presente especioso
Husserl → retenção + impressão + protensão
Heidegger → temporalidade extática
Merleau-Ponty → presente corporal
Ricoeur → presente narrativo
A metafísica contemporânea radicaliza o problema ao perguntar se o presente possui privilégio ontológico. John McTaggart Ellis McTaggart (1866–1925) distinguiu a série A — passado, presente e futuro — da série B — anterioridade e posterioridade — e concluiu que o tempo conteria dificuldades internas. O presentismo sustenta que apenas o presente existe; o bloco crescente admite passado e presente, mas não o futuro; o eternalismo sustenta que passado, presente e futuro existem igualmente, tornando o “agora” semelhante a uma posição perspectivística; teorias do moving spotlight procuram conciliar a existência de todos os tempos com um presente metafisicamente privilegiado. Arthur Prior (1914–1969) preservou formalmente a importância dos tempos verbais e da passagem, enquanto diversas teorias de futuros ramificados defendem que o futuro pode permanecer aberto. Essa disputa modifica o sentido da expectativa. Se apenas o presente existe, esperamos aquilo que literalmente ainda não existe; se o eternalismo estiver correto, aquilo que chamamos futuro já pode fazer parte do espaço-tempo; se o futuro for ramificado, esperamos entre possibilidades reais; se a realidade “cresce”, o presente seria a fronteira em que novidade se incorpora ao mundo. Assim, a expectativa pode ser relação com o inexistente, perspectiva sobre o já-real ou orientação dentro de uma estrutura de possibilidades ainda não atualizadas.
ESQUEMA II — ONTOLOGIAS DO AGORA
presentismo → só o presente existe
bloco crescente → passado + presente existem
eternalismo → todos os tempos existem
moving spotlight → todos existem, mas um é presente
futuro aberto → possibilidades ainda não determinadas
A física moderna destruiu a ideia intuitiva de um presente universal. Isaac Newton (1643–1727) concebia um tempo absoluto; Gottfried Wilhelm Leibniz (1646–1716) defendia relações entre sucessões; Albert Einstein (1879–1955) mostrou, com a relatividade especial, que simultaneidade depende do estado de movimento do observador; Hermann Minkowski (1864–1909) integrou espaço e tempo numa estrutura quadridimensional; Kurt Gödel (1906–1978) explorou soluções relativísticas que desafiam concepções intuitivas de passagem; Hans Reichenbach (1891–1953), Adolf Grünbaum (1923–2018), Hilary Putnam (1926–2016), Howard Stein (1929–2011), Tim Maudlin (1958–), Craig Callender (1968–), Carlo Rovelli (1956–), Julian Barbour (1937–), Lee Smolin (1955–) e George Ellis (1939–) aprofundaram os debates sobre passagem, simultaneidade, tempo relacional, tempo emergente e realidade temporal. Ao mesmo tempo, Ludwig Boltzmann (1844–1906), Rudolf Clausius (1822–1888), Arthur Eddington (1882–1944), Ilya Prigogine (1917–2003), Roger Penrose (1931–) e Huw Price (1953–) mostraram como a seta do tempo, a entropia e a irreversibilidade distinguem passado e futuro fisicamente. O presente humano encontra-se nesse cruzamento: não existe necessariamente um agora cósmico universal, mas existe uma experiência local de passagem sustentada por processos irreversíveis, memória e causalidade.
ESQUEMA III — QUATRO SETAS TEMPORAIS
termodinâmica → aumento da entropia
causal → causas antecedem efeitos
psicológica → lembramos o passado, antecipamos o futuro
histórica → decisões tornam-se irreversíveis
A neurociência e a psicologia mostram que o presente também é construção integrativa. Ernst Pöppel (1940–), Francisco Varela (1946–2001), Evan Thompson (1962–), Gerald Edelman (1929–2014), Antonio Damasio (1944–), Stanislas Dehaene (1965–), Giulio Tononi (1960–), Christof Koch (1956–), Anil Seth (1972–), Marc Wittmann (1966–), Dean Buonomano (1964–) e David Eagleman (1971–) investigaram diferentes aspectos da integração temporal da consciência. A percepção não parece funcionar como uma sucessão de fotografias instantâneas, mas como síntese de informações distribuídas no tempo. Karl Friston (1959–), Andy Clark (1957–), Jakob Hohwy (1974–) e Lisa Feldman Barrett (1963–), em diferentes versões do processamento preditivo, sugerem que o cérebro participa ativamente da construção perceptiva antecipando causas prováveis dos estímulos. A expectativa, portanto, não nasce apenas depois da percepção; pode participar de sua constituição. A biologia alostática reforça esse quadro: organismos sobrevivem porque antecipam demandas e se regulam antes que o desequilíbrio ocorra. O presente corporal já é prospectivo.
A psicologia da expectativa amplia essa conclusão. Ivan Pavlov (1849–1936), Edward Tolman (1886–1959), Albert Bandura (1925–2021), Walter Mischel (1930–2018), Daniel Kahneman (1934–2024), Amos Tversky (1937–1996), George Loewenstein (1955–), Daniel Gilbert (1957–), Timothy Wilson (1951–) e Martin Seligman (1942–) demonstram que ação, decisão e emoção dependem de avaliações sobre aquilo que poderá ocorrer. Kierkegaard (1813–1855) interpretou a angústia como relação com a possibilidade; Sigmund Freud (1856–1939) relacionou ansiedade a perigos esperados; Jacques Lacan (1901–1981) mostrou como o desejo se organiza pela falta; Ernst Bloch (1885–1977) pensou a esperança como relação com o ainda-não; Gabriel Marcel (1889–1973) diferenciou esperança de cálculo; Baruch Spinoza (1632–1677) mostrou a proximidade entre esperança e medo; Viktor Frankl (1905–1997) evidenciou como a perda radical de horizonte futuro pode comprometer o sentido. A expectativa pode colonizar o presente, mas também pode sustentá-lo.
ESQUEMA IV — FORMAS DE EXPECTATIVA
estrutural → abertura ao instante seguinte
perceptiva → previsão de regularidades
motora → antecipação do gesto
cognitiva → previsão consciente
afetiva → esperança, medo, ansiedade
prática → planejamento
existencial → possibilidade de ser
A identidade pessoal também depende do futuro. John Locke (1632–1704), David Hume (1711–1776), Derek Parfit (1942–2017), Paul Ricoeur (1913–2005), Christine Korsgaard (1952–), Harry Frankfurt (1929–2023), Bernard Williams (1929–2003), Charles Taylor (1931–) e Alasdair MacIntyre (1929–2025) mostram, por caminhos diferentes, que identidade não pode ser reduzida a uma fotografia instantânea. Somos memória, continuidade, narrativa, compromisso e projeto. A promessa é exemplar: quando alguém promete hoje, vincula normativamente seu eu futuro. Nietzsche (1844–1900) percebeu a capacidade de prometer como faculdade humana singular; Hannah Arendt (1906–1975) tratou promessa e perdão como respostas à imprevisibilidade e à irreversibilidade da ação. Hans Jonas (1903–1993), John Rawls (1921–2002), Derek Parfit (1942–2017) e Samuel Scheffler (1951–) ampliaram essa temporalidade para gerações futuras. O presente ético não termina no agora: nossas decisões podem afetar pessoas que ainda nem existem.
A sociologia revela que também existem presentes socialmente diferentes. Karl Marx (1818–1883) vinculou tempo ao trabalho; Max Weber (1864–1920) mostrou a racionalização temporal da modernidade; E. P. Thompson (1924–1993) analisou a disciplina industrial do relógio; Norbert Elias (1897–1990) concebeu o tempo como instrumento social de coordenação; Michel Foucault (1926–1984) mostrou como instituições disciplinam corpos por horários e sequências; Reinhart Koselleck (1923–2006) distinguiu espaço de experiência e horizonte de expectativa; François Hartog (1946–) descreveu o presentismo contemporâneo; Hartmut Rosa (1965–) analisou aceleração social; Paul Virilio (1932–2018), Manuel Castells (1942–), Jonathan Crary (1951–), Judy Wajcman (1950–) e Barbara Adam (1945–) mostraram como tecnologia e capitalismo reorganizam ritmos, prazos e durações. O presente não é distribuído igualmente. Quem possui estabilidade financeira pode projetar anos; quem vive em precariedade frequentemente é obrigado a pensar em dias ou horas. Ter futuro também é questão material.
ESQUEMA V — PRESENTE SOCIAL
segurança material → horizonte temporal longo
precariedade → horizonte temporal curto
aceleração → multiplicação de microexpectativas
conectividade → presente permanentemente atualizado
resultado → presente hipertrofiado e fragmentado
A linguagem e a estética confirmam que percepção de sentido envolve expectativa. Ferdinand de Saussure (1857–1913), Roman Jakobson (1896–1982), Émile Benveniste (1902–1976), Ludwig Wittgenstein (1889–1951), Hans-Georg Gadamer (1900–2002), Wolfgang Iser (1926–2007), Hans Robert Jauss (1921–1997), Umberto Eco (1932–2016), Roland Barthes (1915–1980), Gérard Genette (1930–2018) e Paul Ricoeur (1913–2005) mostram que linguagem e narrativa produzem antecipações. Ler significa projetar continuações; uma quebra narrativa surpreende porque havia horizonte prévio. Leonard Meyer (1918–2007), Theodor Adorno (1903–1969), Susanne Langer (1895–1985) e Vladimir Jankélévitch (1903–1985) permitem aplicar o mesmo raciocínio à música. Beethoven (1770–1827), Wagner (1813–1883), Debussy (1862–1918), Stravinsky (1882–1971) e Mozart (1756–1791) produzem sentido manipulando expectativa, retorno, resolução e surpresa. Até o silêncio pode conter futuro quando o ouvinte espera a nota seguinte.
Essa constatação conduz ao problema da surpresa. Charles Sanders Peirce (1839–1914), Karl Popper (1902–1994), Thomas Kuhn (1922–1996), Norwood Russell Hanson (1924–1967), Imre Lakatos (1922–1974), Thomas Bayes (c. 1701–1761), Pierre-Simon Laplace (1749–1827), Frank Ramsey (1903–1930), Bruno de Finetti (1906–1985), Leonard Savage (1917–1971) e Judea Pearl (1936–) mostram que conhecer é também revisar expectativas. A surpresa somente existe porque alguma previsão foi contrariada. O presente epistêmico não é passivo: ele atualiza crenças à luz do inesperado.
Há ainda uma dimensão política do presente. Walter Benjamin (1892–1940) recusou um tempo histórico homogêneo; Ernst Bloch (1885–1977) colocou o ainda-não no centro da esperança; Hannah Arendt (1906–1975) associou política à capacidade de iniciar; Antonio Gramsci (1891–1937) descreveu interregnos em que o velho morre e o novo ainda não nasce; Michel Foucault (1926–1984) concebeu a crítica como diagnóstico do presente; Jacques Derrida (1930–2004) distinguiu futuro previsível de porvir; Giorgio Agamben (1942–) relacionou contemporaneidade à capacidade de perceber as sombras do próprio tempo. O presente político pode ser conservação, crise ou abertura. Toda política contém uma teoria temporal porque organiza relação entre aquilo que foi, aquilo que é e aquilo que deveria vir a ser.
ESQUEMA VI — TRÊS PATOLOGIAS TEMPORAIS
presente colonizado pelo passado → ressentimento, repetição, nostalgia
presente colonizado pelo futuro → ansiedade, instrumentalização, adiamento
presente absolutizado → imediatismo, incapacidade de compromisso
equilíbrio temporal → memória sem prisão + presença sem cegueira + futuro sem colonização
A resposta final depende, portanto, do significado atribuído à palavra expectativa. Se expectativa significar desejar conscientemente determinado acontecimento, pode haver presente sem expectativa. Se significar formular explicitamente previsões, também. Mas se expectativa significar protensão, antecipação motora, continuidade perceptiva, projeção de possibilidades, estrutura narrativa ou abertura existencial, então um presente absolutamente sem expectativa parece impossível. Husserl (1859–1938) mostra que sem protensão não há fluxo temporal; Bergson (1859–1941) impede que reduzamos a duração a pontos; James (1842–1910) mostra que o agora vivido possui extensão; Heidegger (1889–1976) revela a existência como projetiva; Merleau-Ponty (1908–1961) mostra que o corpo antecipa; a neurociência sugere que percepção depende de previsão; a sociologia mostra que instituições dependem de expectativas recíprocas; a ética projeta responsabilidade para o futuro. O presente puro, absolutamente isolado de passado e futuro, seria menos uma conquista de presença do que a dissolução da temporalidade.
ESQUEMA FINAL
PASSADO memória → hábito → identidade → experiência
↓
PRESENTE percepção → atenção → corpo → ação → decisão
↓
FUTURO protensão → expectativa → possibilidade → projeto → responsabilidade
Mas a relação não é linear:
passado → estrutura expectativas
expectativas → modificam ações presentes
ações presentes → transformam futuros possíveis
Assim, o presente humano não é uma ilha entre dois nadas. É o ponto de articulação em que aquilo que já ocorreu continua produzindo efeitos e aquilo que ainda não ocorreu começa a orientar escolhas. O futuro factual ainda não existe para nós como acontecimento presente, mas sua representação já existe, e isso basta para modificar emoção, ação, identidade, política e história. O presente pode existir sem uma expectativa consciente determinada; dificilmente existe sem qualquer abertura para aquilo que vem. O agora humano não é ausência de passado e futuro, mas precisamente o lugar em que ambos se encontram.
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