NOTA · IRMANDADE, MEMÓRIA E GRATIDÃO

IRMÃO URSO

Passado, presente e futuro, e uma dívida que não se paga

Há coisas que se agradecem, coisas que se retribuem e coisas que, por sua própria natureza, jamais podem ser devolvidas na mesma medida em que foram recebidas. É nessa última categoria que coloco aquilo que você fez e continua fazendo por mim. Não digo isso por força de expressão, nem para transformar afeto em solenidade. Digo porque há gestos que não podem ser contabilizados como um favor, uma ajuda ou uma gentileza, pois interferem diretamente na possibilidade de alguém viver melhor, permanecer de pé, construir uma rotina, trabalhar, respirar com menos peso e, sobretudo, ser feliz no lugar em que conseguiu encontrar alguma forma de paz. Você me permitiu e continua me permitindo isso. Permitiu que eu pudesse ser feliz onde estou, que eu pudesse me dedicar ao meu trabalho, que eu pudesse construir aos poucos uma vida que reconheço como minha, sem precisar carregar a sensação de que toda escolha por mim mesmo representa necessariamente uma rejeição dos outros. Talvez você nem consiga dimensionar completamente o que isso significa para mim, porque certas coisas são maiores para quem as recebe do que para quem as oferece. Mas eu dimensiono. Eu sei. E é precisamente por saber que também compreendo que existe entre nós uma dívida que não se paga, não porque você alguma vez tenha me cobrado alguma coisa, mas justamente porque aquilo que recebi de você não pertence ao mundo das coisas que admitem equivalência. Existem gestos que só podem ser recebidos com gratidão, guardados com cuidado e transformados numa promessa silenciosa de presença futura. E é assim que recebo os seus.

Guardo com um carinho que talvez eu nunca tenha conseguido demonstrar adequadamente às cartas de Pokémon, os protetores e tudo aquilo que chegou até mim pelas suas mãos ou pela sua intenção. Para qualquer outra pessoa, talvez fossem apenas objetos, cartas de jogo, acessórios, coisas pequenas, materiais, substituíveis; para mim, entretanto, carregam uma densidade completamente diferente, porque são sinais concretos de uma aproximação que eu aprendi a reconhecer nos detalhes. As cartas de Pokémon não são apenas cartas. Elas preservam um gesto, uma escolha, uma lembrança material de que você pensou em mim e decidiu me dar algo que, por isso mesmo, deixou de ser apenas aquilo que objetivamente era. Os protetores também adquiriram esse mesmo valor: não apenas protegem cartas, mas acabaram, para mim, protegendo alguma coisa da própria memória do gesto. É por isso que guardo tudo com tanto cuidado. Porque, quando certos objetos vêm de alguém importante, eles deixam de pertencer ao universo comum das coisas intercambiáveis. Tornam-se vestígios de presença. Tornam-se memória física. Tornam-se pequenas provas de que, mesmo quando não conseguimos dizer tudo, mesmo quando nossa relação não avança na velocidade que talvez eu desejasse, existe movimento. Existe direção. Existe alguma coisa sendo reconstruída. E eu não subestimo isso. Pelo contrário: talvez exatamente porque sei que determinadas aproximações precisam vencer muitos anos, silêncios, diferenças, temperamentos e formas distintas de compreender a vida, eu valorize ainda mais cada centímetro de caminho percorrido. A nossa aproximação ainda pode ser lenta, mas é progressiva; e, para mim, aquilo que progride merece ser protegido. Não preciso de uma transformação teatral, repentina ou artificial. Prefiro o que é verdadeiro. Prefiro cada gesto pequeno que efetivamente existe a uma grande declaração que desapareça no dia seguinte. E os seus gestos permaneceram.

Quando penso em nós dois, porém, existe uma lembrança que sempre retorna com uma força particular, talvez porque ela contenha alguma coisa que o tempo não conseguiu desgastar. É 2006. Nós tínhamos ido ao cinema e depois estávamos jogando Clone Wars naquele PlayStation 2 que hoje já posso chamar, com a distância necessária para isso, de vetusto. E, curiosamente, quando procuro uma das melhores lembranças da minha vida, não encontro nela nada que normalmente seria descrito como extraordinário. Não há uma grande viagem, não há uma cerimônia, não há uma multidão, não há nenhuma ocasião que alguém de fora reconheceria imediatamente como memorável. Há apenas eu, você, um videogame, um jogo de Star Wars e um pedaço de tempo que, sem nos avisar, acabou se tornando definitivo para mim. Talvez as lembranças mais importantes funcionem assim: elas não anunciam, quando acontecem, que um dia serão sagradas. Não há música de fundo, não há consciência da importância, não há qualquer solenidade. Nós simplesmente as vivemos. E depois o tempo passa, outras coisas acontecem, a vida nos dispersa, algumas relações se tornam mais difíceis, certas distâncias aparecem, e então descobrimos, muitos anos depois, que naquele dia aparentemente comum havia uma espécie de perfeição que não sabíamos nomear. Eu não precisava de mais nada naquele momento. Não havia explicação a oferecer, papel a representar, defesa a preparar ou diferença a administrar. Éramos somente nós dois. E isso bastava. Talvez seja precisamente por isso que essa memória tenha sobrevivido de maneira tão intacta: porque nela existia uma forma elementar e silenciosa de felicidade.

Às vezes penso que a memória é cruel justamente porque nos ensina tarde demais o valor exato de certos instantes. Se alguém tivesse me dito naquele dia de 2006 que, vinte anos depois, eu ainda me lembraria de nós dois diante daquele PS2, provavelmente eu não teria entendido. Talvez tivesse rido. Talvez tivesse voltado imediatamente ao jogo. Mas é isso que o tempo faz: ele reorganiza a hierarquia dos acontecimentos e transforma cenas aparentemente banais em pontos de referência de uma vida inteira. Aquilo que parecia apenas uma tarde se converte em testemunho de alguma coisa que existiu entre duas pessoas e que, de algum modo, nunca desapareceu completamente. E talvez por isso eu pense tanto naquela imagem. Porque nela existe uma versão de nós dois anterior a muitas coisas que vieram depois; existe uma simplicidade que não precisava ser explicada; existe proximidade sem esforço. Quando olho para essa lembrança hoje, não sinto apenas nostalgia. Sinto também uma espécie de gratidão retrospectiva por ter vivido aquilo, por poder dizer que existiu um momento em que éramos apenas dois irmãos sendo irmãos, sem qualquer necessidade de definir o que isso significava. E, se alguma coisa me emociona profundamente na nossa aproximação de agora, é perceber que talvez não estejamos criando uma relação a partir do nada. Talvez estejamos reencontrando, em outra idade, com outras histórias e outras cicatrizes, alguma coisa que já estava ali. Não se trata de voltar a 2006, porque ninguém volta no tempo; trata-se de reconhecer que aquilo que foi verdadeiro uma vez pode continuar produzindo sentido muito depois de o instante ter terminado.

Eu sei que nós somos diferentes em muitos aspectos. Sei que talvez não seja fácil compreender integralmente o modo como eu existo, as escolhas que fiz, os caminhos pelos quais passei e as razões pelas quais certas coisas têm para mim um peso que talvez não tenham para você. Também sei que proximidade entre irmãos não é garantida apenas pelo sangue, porque o sangue estabelece uma origem comum, mas não substitui o trabalho posterior de reconhecer o outro como alguém que se tornou diferente de nós. Talvez seja exatamente por isso que os seus gestos tenham tanto valor. Porque eles não precisam significar que compreendemos tudo da mesma maneira. Eles significam algo mais difícil: que, apesar das diferenças, alguma forma de vínculo continua escolhendo permanecer. Eu não preciso que você seja igual a mim, nem preciso que pense como eu em todas as coisas; o que me importa é saber que existe espaço para que eu seja seu irmão sem precisar deixar de ser quem sou. E, de muitas formas, foi isso que você me concedeu. Ao me permitir viver onde estou, trabalhar onde estou, construir a vida que construo, ao me dar as cartas de Pokémon, os protetores, ao deixar que essa aproximação avance, ainda que devagar, você fez muito mais do que talvez imagine. Você me ofereceu uma forma de pertencimento que não exige retorno ao passado como condição para continuar existindo no presente. Isso é raro. Isso é imenso. E é por isso que eu nunca trataria como pequeno aquilo que veio de você.

Há também algo que eu quero deixar absolutamente claro, porque certas coisas precisam ser ditas enquanto ainda existe tempo para dizê-las: eu estarei sempre à sua disposição para o que você precisar. Sempre. Não digo isso como fórmula, nem como aquela frase convencional que as pessoas usam ao final de uma conversa difícil ou de uma mensagem afetuosa. Digo literalmente. Se um dia você precisar de mim para alguma coisa que eu puder fazer, eu farei. Se precisar de ajuda, estarei lá. Se precisar apenas de presença, tentarei estar. Se precisar de alguém que escute, escutarei. Se precisar de alguma coisa prática, farei o que estiver ao meu alcance. Não porque eu esteja tentando quitar aquilo que considero uma dívida impagável, pois justamente uma dívida desse tipo não se quita, mas porque existe uma forma de gratidão que só se torna verdadeira quando aceita transformar-se em disponibilidade. Talvez eu nunca consiga devolver a você, em medida equivalente, a paz que alguns dos seus gestos me deram; talvez eu nunca consiga demonstrar com precisão o quanto determinadas coisas significaram para mim; talvez a vida nunca produza uma ocasião simétrica em que eu possa oferecer exatamente o que recebi. Mas isso não importa. O que importa é que você saiba que há alguém do outro lado que não esquecerá. E que, caso a vida algum dia lhe cobre um preço alto demais, eu quero estar entre aqueles que tentarão dividir esse peso.

No fundo, talvez seja isso que eu queira dizer quando penso em você como meu “irmão urso”. Existe nessa expressão alguma coisa de afeto antigo, proteção, força, rudeza eventual, proximidade nem sempre verbal e uma espécie de vínculo que não precisa estar o tempo todo sendo anunciado para continuar existindo. Irmãos nem sempre sabem conversar sobre aquilo que sentem, nem sempre encontram o momento correto, nem sempre possuem a mesma linguagem emocional; às vezes passam anos tentando atravessar poucos metros. Mas há relações em que o essencial sobrevive mesmo quando a forma se torna difícil. E eu acredito que existe alguma coisa assim entre nós. Não romantizo os silêncios, nem transformo distância em virtude. Eu preferiria sempre a proximidade. Mas justamente por desejá-la reconheço o valor de cada movimento em sua direção. Cada carta de Pokémon. Cada protetor. Cada gesto. Cada sinal de que aquilo que um dia fomos não se perdeu completamente. E talvez seja isso que me faça olhar para o passado sem querer permanecer nele. Eu não quero apenas lembrar de 2006. Quero que, muitos anos adiante, possamos olhar também para este período e perceber que aqui começou, ou recomeçou, alguma coisa importante. Que a aproximação lenta não parou. Que aquilo que estava fragmentado foi encontrando forma. Que dois irmãos, depois de tudo, continuaram caminhando um em direção ao outro.

Por isso, quando digo que o que você fez e tem feito por mim constitui uma dívida que eu nunca conseguirei pagar, quero que você entenda essa frase da maneira mais bonita possível. Não existe cobrança nela. Existe reconhecimento. Existem pessoas que passam por nossa vida e deixam lembranças; outras deixam condições de possibilidade. Você me ajudou a preservar a possibilidade de viver a minha vida, de trabalhar, de permanecer onde consigo ser feliz e de fazê-lo sem sentir que, para isso, seria necessário perder completamente a minha família. Isso não tem preço. Não existe gesto equivalente. Só existe gratidão. E talvez a única resposta digna seja aquela que tento deixar registrada aqui: eu guardo tudo com carinho, guardo nossas lembranças, guardo especialmente aquela tarde de 2006, guardo as cartas de Pokémon, guardo os protetores, guardo cada sinal de aproximação e guardo também a esperança de que ainda existam muitas coisas nossas pela frente. Se um dia você duvidar da importância que tem para mim, releia isto. Se um dia pensar que seus gestos passaram despercebidos, eles não passaram. Se um dia precisar saber se pode contar comigo, pode. Em qualquer tempo, em qualquer circunstância que estiver ao meu alcance, para qualquer coisa que realmente importe. Porque algumas dívidas não foram feitas para serem pagas. Foram feitas para serem honradas. E a minha com você será assim. Sempre.

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