NOTA · DISTÂNCIA, FRONTEIRA E INTERIORIDADE
Glasscheibe — a filosofia da distância transparente
Sobre a fronteira que ninguém vê
Há algo profundamente distinto entre erguer um muro e colocar entre si e o mundo uma parede de vidro. O muro interrompe a visão, denuncia a separação, torna ostensiva a recusa do contato. Ele cria dois lados e, justamente por isso, preserva a evidência da ruptura. A parede de vidro é mais inquietante porque conserva quase tudo aquilo que a separação deveria abolir. Ainda se vê. Ainda se é visto. Os movimentos permanecem perceptíveis, as expressões podem ser lidas, a presença continua incontornável. Nada desaparece por completo. E, no entanto, alguma coisa essencial deixou de circular. O outro está próximo o bastante para enxergar e distante o bastante para já não alcançar. A existência permanece exposta, mas não disponível.
Embora o alemão não esteja entre as línguas de que mais gosto, recorro a ele com alguma frequência quando encontro palavras capazes de condensar, com uma precisão pouco comum, determinadas estruturas da experiência. Sempre me atraíram conceitos claros, fronteiras bem estabelecidas entre aquilo que uma coisa é e aquilo que apenas a exemplifica, descreve ou manifesta. Quando pergunto pelo conceito de alguma coisa, não procuro saber que ela “é como” isto ou aquilo, tampouco desejo que se substitua a definição por um exemplo de funcionamento. Exemplo não é conceito. Analogia não é conceito. Consequência não é conceito. E muitas vezes interrompo precisamente nesse ponto: não perguntei como funciona, não perguntei a que se parece, perguntei o que é. Há nisso menos preciosismo linguístico do que uma exigência intelectual de não permitir que palavras aparentemente conhecidas continuem circulando sem contornos suficientes para que se saiba exatamente o que estão dizendo.
Foi assim que encontrei Glasscheibe em uma leitura cujo objeto não tinha relação alguma com o problema tratado aqui. A palavra apareceu deslocada de qualquer discussão sobre isolamento, interioridade, resistência ou pertencimento, mas imediatamente me pareceu conceitualmente fértil. Não apenas porque descrevia com precisão diversas experiências concretas que eu reconhecia, mas porque permitia pensar uma estrutura muito mais ampla, capaz de assumir significados positivos, negativos ou até relativamente neutros conforme a pessoa, o ambiente em que se encontra e a função que aquela separação desempenha. A força do conceito não está, portanto, na imagem física do vidro, mas naquilo que ele permite distinguir: presença e acesso não são a mesma coisa; visibilidade e proximidade não são equivalentes; ser percebido não significa ser alcançado; estar entre os outros não significa necessariamente estar com eles.
Esse é o paradoxo da Glasscheibe: ela não produz ausência, produz uma presença inacessível. O sujeito não abandona o mundo, não se retira inteiramente dele, não fecha os olhos para aquilo que acontece ao redor. Continua comparecendo, respondendo, movendo-se, produzindo, cumprindo deveres, sustentando relações mínimas, participando da superfície comum da vida. O que se modifica é a profundidade do acesso. Há uma espécie de deslocamento interior por meio do qual a pessoa permanece onde sempre esteve e, simultaneamente, deixa de estar ao alcance daqueles que a cercam. Não se trata de desaparecer fisicamente, mas de retirar do mundo a possibilidade de tocar aquilo que, se permanecesse exposto, talvez já não pudesse sobreviver intacto.
Por isso a parede de vidro pode ser, em muitos sentidos, muito pior do que um muro. O muro admite sua função: separar. A transparência, ao contrário, preserva a aparência da continuidade. Quem observa de fora pode acreditar que nada mudou. A pessoa continua ali. Sorri quando precisa sorrir, fala quando é chamada, executa aquilo que lhe compete, participa dos ritos ordinários da convivência. A ruptura torna-se quase invisível precisamente porque não existe um gesto exterior suficientemente dramático que a revele. O sofrimento, o cansaço ou a exaustão que produziram aquela distância deixam de ser facilmente reconhecíveis. Forma-se então uma das situações mais paradoxais da experiência humana: alguém pode tornar-se praticamente inacessível sem jamais ter ido embora.
A invisibilidade produzida pela Glasscheibe também é peculiar. Não é a invisibilidade de quem não é percebido, mas de quem é percebido apenas exteriormente. Pode-se olhar diretamente para alguém e, ainda assim, não vê-lo. Pode-se conhecer seus hábitos, ouvir sua voz, acompanhar seus movimentos e permanecer diante de uma região absolutamente vedada. Nesse sentido, a transparência da barreira engana. Ela sugere conhecimento porque oferece imagem. Mas a imagem não assegura acesso. Talvez aconteça aqui uma das confusões mais persistentes das relações humanas: acreditar que proximidade produz compreensão e que visibilidade produz intimidade. Nenhuma das duas afirmações é necessária. Há pessoas constantemente observadas que nunca foram verdadeiramente vistas.
O mais doloroso, porém, talvez esteja no fato de que essa invisibilidade pode ser escolhida. Não como preferência espontânea, muito menos como ideal de existência, mas como decisão entre alternativas já empobrecidas. Existem momentos em que não se escolhe entre o bom e o ruim, nem entre a abertura e o isolamento em condições equivalentes. Escolhe-se entre diferentes maneiras de continuar. Quando permanecer completamente acessível significa continuar sendo ferido, interpretado, invadido, manipulado ou continuamente submetido ao desgaste, a retirada interior deixa de ser mera fuga. Pode tornar-se uma técnica de conservação da própria existência.
Há uma diferença decisiva entre desejar a distância e concluir que ela se tornou necessária. A primeira hipótese pode nascer da indiferença; a segunda, da experiência. Quem levanta a Glasscheibe pode continuar desejando proximidade, afeto, escuta, reconhecimento e pertencimento. O gesto não demonstra necessariamente que essas coisas perderam valor. Pode demonstrar justamente o contrário: que se tornaram valiosas demais para continuarem sendo entregues indiscriminadamente. Nesse caso, a distância não representa desprezo pelo mundo, mas um limite imposto ao poder que o mundo passou a exercer sobre a interioridade.
Esse movimento contém uma espécie de racionalidade trágica. A escolha não é boa em termos absolutos. Ela pode produzir solidão, esfriar vínculos, deformar relações e habituar o sujeito a uma forma de existência defensiva. No entanto, quando as alternativas concretamente disponíveis são ainda piores, aquilo que seria indesejável em condições normais torna-se a melhor solução possível. E uma das dificuldades da filosofia moral consiste precisamente em admitir que o melhor nem sempre é bom; às vezes é apenas aquilo que resta depois que o campo das possibilidades foi degradado.
Dizer que uma opção é a melhor possível não significa celebrá-la. Significa reconhecer sua posição relativa diante das demais. Quem se protege atrás de uma superfície transparente pode perder muito. Mas talvez perdesse mais sem ela. Pode empobrecer determinados vínculos, mas talvez estivesse caminhando para o desaparecimento completo da própria autonomia. Pode se tornar menos acessível, mas apenas porque a acessibilidade anterior se transformara numa forma de exposição contínua. A mesma atitude que, vista isoladamente, poderia parecer frieza, torna-se inteligível quando reconstruída a partir das circunstâncias que a fizeram surgir.
Há nisso uma importante questão sobre liberdade. Costumamos imaginar a escolha livre como seleção entre possibilidades abertas. Mas grande parte da existência humana acontece sob condições que não escolhemos. Não escolhemos todas as pessoas que encontramos, os acontecimentos que nos atravessam, os ambientes que nos formam, as perdas que nos atingem ou as limitações que nos são impostas. Frequentemente, a liberdade não consiste em criar livremente o cenário, mas em decidir de que maneira ainda será possível existir dentro dele. É uma liberdade estreita, por vezes quase residual, mas nem por isso irrelevante. A Glasscheibe pode aparecer justamente nesse espaço mínimo: não posso impedir que me vejam, mas ainda posso determinar até onde aquilo que veem terá acesso a mim.
Essa distinção é fundamental porque existe uma soberania elementar na administração da própria interioridade. Nem tudo que existe em uma pessoa precisa estar permanentemente disponível aos demais. A modernidade desenvolveu uma estranha valorização da exposição: explicar-se, revelar-se, confessar-se, tornar-se inteiramente legível. Como se a autenticidade exigisse transparência completa. Mas uma pessoa que fosse integralmente transparente talvez deixasse de possuir qualquer região verdadeiramente sua. A opacidade parcial não é necessariamente falsidade. Pode ser condição da individualidade.
Toda relação humana digna desse nome deveria admitir uma zona de inacessibilidade. Não porque o outro seja inimigo, mas porque alteridade significa precisamente reconhecer que existe nele algo que não me pertence. O desejo de conhecer pode facilmente converter-se em pretensão de acesso ilimitado. E a pretensão de acesso ilimitado é uma forma de domínio. Nesse ponto, a Glasscheibe deixa de ser apenas metáfora defensiva e revela uma verdade mais geral: nenhuma proximidade legítima autoriza a apropriação completa da interioridade alheia.
O problema surge quando aquilo que deveria ser um limite ocasional se transforma numa arquitetura permanente. Barreiras construídas para proteger podem, com o tempo, começar a determinar a própria forma da existência. O indivíduo aprende a funcionar através delas. Aprende a se relacionar sem se entregar, a comparecer sem realmente participar, a ser visto sem se permitir alcançar. A estratégia inicialmente criada para sobreviver torna-se hábito, e o hábito começa lentamente a confundir-se com identidade.
Nesse momento, a parede de vidro revela sua dimensão mais perigosa. Um muro pode ser derrubado de maneira evidente. Há pedras, há ruptura, há um antes e um depois. Uma barreira transparente pode permanecer por tanto tempo que se esquece de sua presença. A pessoa já não sabe exatamente quando começou a separar-se, nem quais relações ainda exigem aquela proteção. Aquilo que surgiu como resposta a determinada experiência pode continuar operando quando as circunstâncias mudaram. E existe sempre o risco de que uma solução necessária em certo momento converta-se em prisão depois de ter cumprido sua função.
É por isso que a Glasscheibe nunca deve ser romantizada. Há grandeza em preservar-se, mas há também um preço. O mecanismo que impede a violência de entrar pode igualmente impedir o afeto. A superfície que barra a invasão não distingue automaticamente entre aquilo que ameaça e aquilo que poderia acolher. Toda defesa suficientemente eficiente produz também perdas. E a maturidade talvez esteja menos em condenar ou exaltar a barreira do que em reconhecer essa ambivalência.
Ainda assim, há situações em que derrubá-la prematuramente seria uma violência ainda maior. Existe uma tendência moral de glorificar a abertura, a vulnerabilidade e a reconciliação como se fossem bens independentes das circunstâncias. Não são. Vulnerabilidade sem segurança pode simplesmente significar exposição. Reconciliação sem transformação pode significar retorno ao mesmo ciclo. Abertura sem reciprocidade pode significar entrega unilateral. Às vezes, preservar a distância é a única forma de impedir que a esperança seja continuamente utilizada contra aquele que ainda espera.
Talvez seja exatamente nesse ponto que a Glasscheibe se distancie da simples misantropia. O misantropo já não espera nada do outro. Quem ergue uma parede de vidro pode continuar esperando, mas se recusa a pagar qualquer preço por essa expectativa. A diferença é enorme. Não existe necessariamente abandono do vínculo, mas suspensão do acesso. A pessoa continua observando. Talvez continue desejando que algo mude do outro lado. Apenas não permite que a possibilidade dessa mudança futura destrua aquilo que ainda resta no presente.
Nesse sentido, a distância transparente é uma forma profundamente ambígua de esperança. Quem fecha uma porta completamente resolve o problema pela exclusão. Quem mantém o vidro preserva, de alguma maneira, a visão. Ainda existe um outro lado. Ainda há rostos. Ainda há mundo. A separação não se transformou em negação da existência alheia. Apenas instituiu uma condição: para que o contato volte a existir de maneira integral, algo deverá ser diferente.
Existe também uma estranha dignidade nessa posição. Não a dignidade teatral de quem proclama independência absoluta, mas a de quem admite os próprios limites e organiza sua vida de modo a não ultrapassá-los continuamente. A força não está em suportar indefinidamente tudo aquilo que pode ser suportado. Há um momento em que continuar aceitando deixa de ser resistência e passa a ser colaboração com a própria destruição. Colocar uma barreira pode ser o gesto pelo qual alguém finalmente decide que sua interioridade também merece proteção.
A Glasscheibe, portanto, não é exatamente isolamento. É fronteira. E fronteiras são filosoficamente mais complexas do que muros, porque não apenas separam: organizam relações. Dizem onde algo termina e outra coisa começa. Uma pessoa que estabelece uma fronteira não afirma necessariamente que o outro não possui valor. Afirma apenas que o valor do outro não extingue o seu próprio. Talvez seja esse um dos aprendizados mais difíceis da existência: compreender que amar, compreender, perdoar ou desejar o bem de alguém não implica conceder a essa pessoa acesso irrestrito.
Há, por fim, algo profundamente humano na figura daquele que permanece atrás do vidro sem desaparecer, sem necessariamente abandonar tudo, sem transformar toda separação em rompimento absoluto, mas apenas deslocando o núcleo de sua existência para uma região em que o olhar alheio já não detenha jurisdição suficiente para feri-lo continuamente. É talvez aí que a Glasscheibe alcance sua expressão filosófica mais completa, porque ela não representa apenas defesa, tampouco simples solidão, mas a tentativa de preservar alguma continuidade quando a própria relação com o mundo se tornou excessivamente custosa, de continuar presente sem permanecer disponível, de conservar a capacidade de ver sem aceitar que todo olhar recebido se converta em acesso, de reconhecer que a transparência não obriga à entrega e que a proximidade física não cria, por si só, qualquer direito sobre a interioridade. Esse mecanismo pode ser positivo quando delimita fronteiras necessárias, negativo quando se cristaliza e impede qualquer possibilidade de encontro, ou mesmo neutro quando funciona apenas como modo particular de organização da distância entre sujeito e entorno.
Tudo dependerá de sua causa, de sua duração, de sua medida e, sobretudo, do que existiria caso ela não estivesse ali, porque nenhuma análise séria dessa escolha pode ignorar o conjunto das alternativas concretamente disponíveis. Se a parede de vidro é uma entre muitas possibilidades igualmente suportáveis, ela talvez seja apenas retraimento; mas, se todas as demais alternativas conduzem à invasão, ao esgotamento, à perda de si ou à impossibilidade de continuar lutando, então aquilo que jamais seria desejável em abstrato passa a assumir outra natureza, não por se tornar ideal, mas por tornar-se necessário. E o necessário, quando é a única possibilidade capaz de preservar algum espaço de autonomia, alguma força restante e alguma continuidade da própria existência, converte-se inevitavelmente na melhor possibilidade disponível, mesmo carregando consigo a dor de uma conclusão muito mais grave do que aquela produzida por qualquer muro: continuar no mesmo lugar, poder ver os outros e continuar sendo visto por eles, participar ainda do mundo comum, talvez até desejar o contato que existiria em circunstâncias diferentes e, apesar de tudo isso, compreender que, para continuar existindo sem ser novamente atravessado por aquilo que já não se pode suportar, é preciso aceitar uma forma escolhida de invisibilidade em plena visibilidade, uma existência em que ninguém foi necessariamente excluído do campo de visão, mas em que o acesso foi suspenso porque, entre desaparecer e permanecer inteiramente exposto, restou uma terceira possibilidade: continuar ali, atrás do vidro.
Bastidores
Desde 10 de agosto de 2015, quando acontecimentos absolutamente reprováveis, injustos, repugnantes, desumanos e, em muitos sentidos, asquerosos atravessaram praticamente todos os âmbitos da minha vida, restaram-me poucas alternativas verdadeiramente possíveis. Eu poderia confrontar imediatamente tudo aquilo, com consequências graves para mim e para todos os envolvidos naquele dia; poderia simplesmente sucumbir à sucessão de acontecimentos que se seguiu; ou poderia suspender a reação, sobrestar o conflito, recuar o suficiente para tentar compreender o que estava acontecendo antes de decidir o que fazer. Escolhi a terceira alternativa. O problema é que, enquanto eu suspendia minha reação para compreender, aqueles que haviam contribuído para construir aquele cenário não suspenderam coisa alguma. Continuaram agindo, continuaram pressionando, continuaram produzindo consequências, e aquilo que inicialmente parecia uma circunstância delimitada passou a irradiar efeitos sobre quase tudo. Ainda assim, preferi permanecer em posição defensiva. Foi ali, embora eu ainda não dispusesse da palavra, que comecei a viver atrás daquilo que anos depois chamaria de Glasscheibe.
A Glasscheibe me proporcionava alguma segurança, mas segurança não é sinônimo de ausência de sofrimento. O mundo não parou porque eu havia erguido uma fronteira entre ele e mim. A pressão continuava, o sofrimento se acumulava e, além de tudo isso, era preciso sobreviver materialmente. Naquele mesmo período perdi o emprego que possuía, um trabalho que me remunerava muito bem e que, somado à condição financeira de que eu até então dispunha no âmbito familiar, havia feito com que dinheiro jamais fosse para mim uma preocupação central. De repente, tornou-se uma necessidade elementar. Eu ainda cursava Direito, e os estágios da época dificilmente me permitiriam custear a própria existência. Embora sempre tivesse sido relativamente independente — comecei a trabalhar aos quatorze anos no sistema de justiça e fui emancipado aos dezesseis —, aquela independência precisou assumir outra escala. Passei a exercer diferentes atividades, algumas sobre as quais prefiro não falar, não por vergonha, mas porque pertencem a uma região extremamente íntima da minha história. Sempre sustentei, e continuo sustentando, que não se brinca com o trabalho de ninguém. Todo trabalho é digno e merece respeito, não importa o quanto seja estigmatizado, incompreendido ou socialmente reprovado aos olhos de terceiros.
Permaneci por cerca de dois anos e meio em uma atividade perfeitamente lícita, mas de risco extremo, cujas consequências psicológicas ainda reconheço em mim com profundidade. Esse período alcançou, inclusive, o início da constituição da minha primeira sociedade de advogados, de modo que, por algum tempo, duas dimensões muito distintas da minha vida coexistiram: de um lado, a construção formal da atividade jurídica; de outro, a continuidade de um ofício que eu exercia porque precisava sobreviver e manter alguma autonomia material. Fiz o que precisava fazer. Não há heroísmo especial nisso. Há sobrevivência. E, durante muito tempo, sobreviver foi exatamente o que fiz. A Glasscheibe permitia que eu continuasse em funcionamento, que eu comparecesse ao mundo, trabalhasse, resolvesse problemas, cumprisse funções e mantivesse alguma aparência de continuidade, mesmo quando, atrás dela, praticamente nada permanecia intacto.
Foi nesse período que perdi o prazer por absolutamente tudo. Cheguei a pesar menos de quarenta quilos porque comer deixou de produzir qualquer recompensa sensorial relevante. Até hoje descrevo a sensação de muitos alimentos como se estivesse comendo isopor. Não porque exista qualquer problema físico conhecido com meu paladar, assim como não sou daltônico, embora em determinados momentos as próprias cores pareçam perder intensidade. É difícil explicar a anedonia a quem nunca a experimentou porque ela não é apenas tristeza. É a retirada do valor afetivo das coisas. O mundo continua existindo, mas deixa de oferecer convites. Nada chama. Nada atrai. Nada recompensa. A palavra felicidade, durante muito tempo, tornou-se quase estranha para mim justamente porque, se já era difícil experimentar prazer, parecia quase absurdo imaginar algo tão amplo quanto ser feliz.
Ainda assim, nunca tive vocação para o conformismo. Nunca me pareceu aceitável simplesmente permanecer deitado lamentando a crueldade do mundo e esperar que alguma coisa acontecesse por si. Permaneci na defensiva, é verdade, mas permaneci em movimento. E houve pessoas que, naquele momento, foram fundamentais. Amigos que anos depois me magoariam profundamente, diminuiriam meu valor ou se tornariam irreconhecíveis para mim, mas que naquele tempo foram extraordinários. Não tenho dificuldade alguma em reconhecer isso. O fato de uma relação terminar mal não apaga retroativamente o bem que alguém foi capaz de fazer. A gratidão não exige falsificação da história, mas também não admite que o desfecho reescreva injustamente tudo aquilo que o antecedeu.
Com o passar dos anos, porém, a Glasscheibe passou a exigir uma engenharia adicional. Para que o vidro continuasse de pé, comecei a construir personas. A palavra pode sugerir falsidade, mas seria um erro compreendê-las dessa maneira. Eram fragmentos verdadeiros de mim apresentados em contextos determinados. No trabalho, aparecia aquilo que o trabalho exigia. Em determinados círculos sociais, aquilo que aquele ambiente permitia ou demandava. No âmbito familiar, outra parcela. Nada disso era inventado. Tudo era verdadeiro, mas nada era inteiro. Eu me tornei particularmente competente em oferecer exatamente a porção de mim necessária para cumprir determinada função, sem permitir que aquilo que permanecia atrás do vidro fosse alcançado.
Em algum momento, passei inclusive a rejeitar aquilo que chamava simplesmente de Ricardo. O Ricardo sem função, sem profissão, sem método, sem solução para oferecer, sem necessidade de saber mais do que os outros sobre determinado problema. Eu o identificava com fraqueza, doença, trauma, imobilidade e incapacidade. Não tinha interesse nele e estava convencido de que ninguém teria. Durante muito tempo, minha solução foi deixá-lo escondido. Se havia o jurista, o advogado, aquele que resolvia, aquele que estudava, aquele que construía respostas, por que perder tempo com a parte que eu considerava irrecuperável? Em uma das minhas internações mais recentes, ainda formulei essa ideia de maneira muito semelhante: se eu tivesse de tratar daquele Ricardo em toda a sua extensão, talvez sequer tivesse tempo útil de vida suficiente. Era mais eficiente mantê-lo nem atrás do vidro, mas enterrado sob ele, onde ninguém pudesse alcançá-lo — inclusive eu.
Curiosamente, meu apreço por conceitos permaneceu intacto durante todo esse processo. Minha vida poderia estar fragmentada, mas eu continuava exigindo precisão das palavras. Sempre me incomodou perguntar pelo conceito de alguma coisa e receber em resposta um exemplo, uma analogia ou um “é tipo isso”. Se pergunto o conceito, quero o conceito. Não quero saber primeiro como funciona, a que se parece ou em que situação aparece. Quero saber o que é. Há uma diferença fundamental entre definição, manifestação e exemplo, embora as pessoas frequentemente respondam com a mesma imprecisão com que formulam perguntas. Talvez uma das personas mais preservadas em mim, especialmente aquela ligada ao trabalho e ao método, jamais tenha admitido essa espécie de frouxidão conceitual.
Foi por isso que Glasscheibe me impressionou tanto quando encontrei a palavra em um pequeno livro de literatura que nada tinha a ver com filosofia, com o tema desta nota ou com qualquer reflexão semelhante. Meu conhecimento de alemão é bastante limitado e aquela leitura exigia consultas frequentes ao tradutor. Ainda assim, aquela palavra me atingiu imediatamente. Ela dava nome a algo que eu já conhecia havia anos, mas que até então existia apenas como experiência interna. Passei a utilizá-la mentalmente porque, finalmente, eu tinha um conceito suficientemente preciso para aquilo: uma fronteira transparente que me permitia continuar vendo o mundo e ser visto por ele sem conceder acesso ao que eu havia decidido preservar.
Neste ano, porém, aconteceu algo que alterou profundamente essa arquitetura. Comecei a conversar, em um aplicativo de relacionamento, com alguém que não parecia estar ali apenas em busca de uma relação sexual. Eu também não estava. A sexualidade, em razão de experiências anteriores e de suas consequências, nunca foi para mim um território simples. Aquela pessoa insistiu na conversa, e talvez tenha sido precisamente essa insistência inicial que fez com que eu permanecesse. Havia também uma atração física, que certamente contribuiu para que eu desse continuidade. Por uma dessas coincidências estranhas, ele estava em Criciúma, cidade que durante anos aprendi a associar a uma ameaça concreta à minha própria estabilidade.
A conversa migrou de ambiente, ganhou continuidade e, de maneira surpreendentemente rápida, tornou-se íntima. E foi aí que algo me chamou atenção: eu não estava falando como nenhuma das personas que havia aprendido a administrar tão bem. Não era o jurista, não era o advogado, não era aquele que resolve problemas, não era a pessoa que sabe citar autores, atravessar campos diferentes do conhecimento ou oferecer uma explicação sofisticada para quase qualquer questão que lhe seja apresentada. Eu estava falando simplesmente como Ricardo. Mostrava coleções, objetos de que gostava, pequenas coisas que para muita gente poderiam parecer banais, excessivas ou infantis. E ele se interessava. Em alguns momentos eu chegava a perguntar como alguém conseguia genuinamente se interessar por aquilo, porque eu próprio havia desistido havia muito tempo da possibilidade de que essas regiões mais simples de mim despertassem interesse real em alguém.
Nossa relação, propriamente dita, durou vinte e quatro horas. Digo isso sem qualquer desprezo e até com carinho. Aos quase trinta e dois anos, se esse foi o relacionamento que consegui viver naquela ocasião, então ele merece respeito pelo simples fato de ter existido. A duração cronológica não mede necessariamente a importância de uma experiência. O término foi ao mesmo tempo saudável e conflituoso, porque há conflitos nos quais ninguém precisa ocupar a posição de culpado. Não havia alguém integralmente certo e outro integralmente errado. Havia duas pessoas e, sobretudo, alguém que naquele momento não estava em condições adequadas para sustentar aquilo que começava.
Ainda assim, devo a ele algo que jamais conseguirei tratar como pequeno. Foi a primeira pessoa, em muitos anos, que conseguiu enxergar o Ricardo sem função. Não foi um medicamento, não foi um método terapêutico isolado, não foi uma formulação intelectual e não foi a persona que eu próprio havia construído. Ele simplesmente viu uma pessoa que eu havia decidido esconder até de mim mesmo. Naturalmente, profissionais que me acompanharam ao longo dos anos poderiam ter tocado nessa região e talvez até tenham tentado fazê-lo em alguma medida, mas eu próprio era o último interessado em abrir aquela porta. Com ele, contudo, o assunto apareceu quase obrigatoriamente, primeiro nas conversas e depois pessoalmente.
Recordo inclusive uma viagem de carro entre Criciúma e Florianópolis durante a qual precisei me policiar para não transformar a conversa em uma exposição de Kant, Santo Agostinho, Hegel e tantos outros autores que naturalmente surgiam na minha cabeça conforme os assuntos apareciam. O curioso é que ele admirava esse aspecto intelectual em mim. Eu não precisava escondê-lo por receio de rejeição. Ainda assim, eu queria escondê-lo naquele momento por outra razão: queria experimentar a possibilidade de continuar sendo apenas Ricardo. Não precisava impressionar, ensinar, solucionar ou oferecer uma arquitetura teórica para justificar minha presença. Queria descobrir se eu poderia simplesmente existir diante de alguém sem recorrer àquilo que durante anos havia funcionado como minha melhor defesa.
E funcionou. Ele viu aquilo que ninguém havia conseguido ver por inteiro e, mais importante, aquilo que eu próprio não queria mais olhar. Foi depois do término, quando precisei compreender o que aquela experiência havia produzido, que percebi que minha vida inteira estava organizada em fragmentos autênticos, mas separados. As personas eram verdadeiras, porém não se comunicavam suficientemente entre si. Atrás de todas elas permanecia aquele Ricardo que eu classificava como fraco e que, justamente por isso, havia mantido escondido. Ao reunir esses fragmentos, descobri quase o contrário daquilo em que acreditara durante dez anos: não era aquela parte fraca que precisava ser sustentada pelas personas. Era ela que sustentava todas as outras.
Essa percepção modificou profundamente a maneira como compreendo minha própria história. O Ricardo que eu escondia não era o resíduo defeituoso de uma pessoa anteriormente inteira. Era o núcleo que havia suportado cada uma das construções posteriores. Foi ele quem permaneceu quando tudo caiu, quem suportou os anos de Glasscheibe, quem tornou possíveis o trabalho, as personas, o estudo, a capacidade de resolver problemas, a disciplina e até mesmo o método. Aquilo que eu confundira com fragilidade era, olhando retrospectivamente, a estrutura de resistência que tornara todo o restante possível.
Pela primeira vez em aproximadamente dez anos, passei então a me sentir uma pessoa inteira. Não desaparecem, com essa descoberta, problemas materiais, dificuldades psicológicas, dívidas, limitações, tratamentos ou efeitos de tudo o que aconteceu. Inteireza não é cura mágica, e felicidade não é desconhecimento da realidade. Talvez seja exatamente por isso que hoje consigo empregar essa palavra de uma forma que antes me parecia quase inacessível. Nunca fui tão feliz. Não se trata de felicidade ingênua, eufórica ou infantil, tampouco de uma esperança que ignora os fatos. É uma felicidade consciente, produzida pela percepção de que não preciso mais repartir minha existência em pessoas funcionais para que cada ambiente receba apenas aquilo que consigo controlar.
Essa nova inteireza também impôs limites que antes eu não aceitava. Eu posso muito, mas não posso tudo. Sou uma pessoa só. Preciso descansar. Preciso de relações, de interesses, de coisas inúteis no melhor sentido da palavra, de tempo que não seja transformado em produtividade. Durante anos, o trabalho foi não apenas profissão, mas refúgio. Trabalhar significava ocupar o espaço que poderia ser preenchido por perguntas para as quais eu não desejava resposta. Hoje continuo atribuindo ao trabalho enorme importância, mas já não preciso que ele exerça a função de me manter fragmentado e protegido.
É por isso que a imagem da Glasscheibe me toca tanto. Eu vivi atrás dela e, para permanecer ali, precisei criar personas capazes de suportar a superfície do mundo enquanto uma parte essencial de mim permanecia retirada. Durante muito tempo, isso foi necessário e, enquanto foi necessário, provavelmente foi a melhor possibilidade disponível. Não tenho interesse algum em julgar retrospectivamente aquele mecanismo como se eu, hoje, pudesse exigir do Ricardo de dez anos atrás os recursos que só adquiri depois. A Glasscheibe cumpriu sua função. As personas cumpriram suas funções. Elas não foram mentiras. Foram recursos de sobrevivência.
O que mudou é que já não preciso delas da mesma maneira. Isso não significa que qualquer transtorno tenha desaparecido, que todos os problemas estejam resolvidos ou que eu tenha ingressado em algum estágio romântico de invulnerabilidade. Significa apenas, e isso para mim já é enorme, que não preciso mais dividir-me para funcionar. Posso ser jurista sem deixar de ser aquele que se encanta com uma coleção; posso ser intelectualmente exigente sem precisar transformar toda conversa em demonstração de conhecimento; posso resolver problemas sem imaginar que minha utilidade seja a medida integral do meu valor; posso reconhecer fragilidade sem convertê-la em vergonha; posso desejar afeto sem considerá-lo incompatível com autonomia; e posso, sobretudo, existir como uma única pessoa em ambientes diferentes sem a obrigação permanente de selecionar qual fragmento de mim receberá autorização para comparecer.
Talvez por isso o método que desenvolvi ao longo da vida tenha uma relação tão profunda com tudo isso, ainda que eu nem sempre o tenha percebido. Eu o construí intuitivamente a partir da necessidade de reconstruir fenômenos antes de julgá-los, de localizar premissas, distinguir causas de aparências, compreender estruturas e só então alcançar conclusões. Ao mesmo tempo, esse modo de pensar acabou por me reconstruir. Quando finalmente apliquei a mim a mesma exigência que sempre apliquei aos problemas externos, percebi que havia cometido durante anos um erro de qualificação: eu chamava de fraqueza aquilo que era resistência, chamava de fragmento aquilo que era fundamento e chamava de Ricardo irrecuperável justamente aquele que havia carregado todos os demais.
Por isso não penso hoje em destruir a Glasscheibe como quem renega o passado. Seria injusto. Ela me protegeu quando eu precisava ser protegido e permitiu que eu continuasse existindo quando talvez nenhuma alternativa completamente boa estivesse disponível. O que posso fazer agora é algo diferente: reconhecer que uma estrutura criada para uma determinada guerra não precisa organizar a paz, e que um mecanismo necessário para sobreviver não deve obrigatoriamente permanecer depois que se volta a desejar viver. Talvez a maior transformação desses últimos meses esteja exatamente aí. Durante anos eu procurei maneiras de permanecer inteiro o suficiente para continuar funcionando. Hoje, pela primeira vez em muito tempo, não preciso mais funcionar para parecer inteiro. Eu simplesmente me reconheço como uma pessoa só — com força e limite, inteligência e fragilidade, passado e projeto, medo e coragem, prazer ainda difícil e felicidade finalmente possível — e, justamente por isso, aquilo que antes precisava permanecer escondido atrás do vidro já não precisa pedir licença para existir.
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